Quituteira da Portela, Tia Surica conta o segredo de sua feijoada, prato que tem tudo a ver com samba

Fabíola Ortiz
Do UOL, no Rio

Nascida e criada em Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro, berço de muitos bambas do samba carioca, a ilustre portelense e quituteira da Velha Guarda da Portela, Tia Surica, dá o segredo para a famosa feijoada da escola: “o segredo da feijoada é o sal, não pode errar na mão”. Só no último sábado (4), cerca de duas mil pessoas lotaram a quadra da Portela para a festa de reinauguração com direito a muita feijoada e samba. E claro, não podia faltar o feijão da Tia Surica.

Veja os bastidores do preparo da feijoada da Portela
Veja Álbum de fotos

Um batalhão de 15 pessoas começou os trabalhos na noite de quarta-feira (1º) e só terminou na manhã de sábado. “Tudo que é para a Portela a gente faz com o maior prazer. Vale o sacrifício”, disse ao UOL Tia Surica, emocionada com a nova quadra que foi inaugurada. “Deram uma nova roupagem, a quadra está um espetáculo, muito bonita a minha quadra. Hoje vai bombar. Espero que deus me dê muitos anos de vida e saúde para poder usufruir bastante dessa quadra maravilhosa”, anunciou Tia Surica. E a festa bombou.

Para preparar uma feijoada para um público de cerca de 2 mil pessoas, foram usados 100kg de feijão, 90kg de carne (incluindo carne seca, pé de porco, costelinhas, peito, paio, linguiças e lombo) e, como acompanhamento, 250 moles de couve, 80 kg de farofa, 80 kg de arroz e muita laranja. O segredo da feijoada: “Tudo que a gente faz com dedicação, carinho e amor, a tendência é dar certo”, conta. No tempero: “bastante alho, cebola e a mão, não pode errar na mão, o principal mesmo é tirar o sal, o feijão não pode ficar salgado”, revelou.
 

Aos 71 anos de idade, e há 67 anos vividos na Portela, Iranette Ferreira Barcellos, ou Surica, como carinhosamente ficou conhecida no mundo do samba, começou a fazer sucesso com suas feijoadas na década de 80. Antes já era famosa por integrar a ala das baianas da agremiação de Madureira. Em 1966, ano em que a Portela foi campeã com um samba enredo de Paulinho da Viola, "Memórias de um Sargento de Milícias", Surica foi a primeira mulher da Portela a puxar um samba enredo na Avenida. Esse carnaval ficou marcado na história da escola. Para a folie deste ano, em que a Portela fará um tributo à Bahia, Surica prefere segurar a emoção. “Vamos aguardar, prefiro não sofrer antecipado. Gosto da Bahia, já estive fazendo show em Salvador e gostei muito”, disse.

Há 30 anos, a portelense mora numa vila ao lado da quadra, o “Cafofo da Tia Surica”. Agora, a quituteira resolveu mergulhar no mundo cibernético e criou também o seu cafofo virtual. No seu website recém criado – http://www.tiasurica.com.br/ – Tia Surica fala da sua história na Portela e dá receitas que são só suas. Além da feijoada, a portelense dá dicas de preparo de bacalhoada, galinha com macarrão, mocotó e feijão amigo bem temperado com pimenta do reino e cheiro verde.

Cada porção “pode e deve!” ser acompanhada com uma dose de cachaça boa. “Com uma cervejinha gelada também cai muito bem. Deixe por perto um vidro de pimenta malagueta”, revela. Outra dica no preparo: "Eu não refogo feijão. As carnes que vão cozinhando junto com ele no caldeirão é que dão o sabor". E para comer de sobremesa, Surica indica: "Depois da feijoada, eu sugiro doce de abóbora e doce de banana. Uma bacia de cada um”.

Veja abaixo a receita da feijoada do "Cafofo da Tia Surica"


Zulmair Rocha/UOL
Tudo que a gente faz com dedicação, carinho e amor, a tendência é dar certo. Mas não pode errar na mão, o principal mesmo é tirar o sal, o feijão não pode ficar salgado

Surica, quituteira da Portela

Ingredientes:

2kg de feijão preto
2 pés de porco (chispe)
2kg de carne seca
2kg de costelinha
6 paios
2kg de bucho
2kg de lingüiça grossa
2 kg de lombo salgado
1kg de lingüiça fina
1kg de carne fresca (peito)
8 folhas de louro
6 cebolas
4 cabeças de alho
8 molhos de couve
2 molhos de cheiro-verde
10 laranjas
2kg de farinha de mesa para farofa
2kg de arroz branco
orégano a gosto
sal e pimenta-do-reino a gosto


Modo de preparo de uma feijoada:

As carnes salgadas devem ficar de molho na água dois dias antes (da noite de quinta para sexta-feira) para tirar o excesso de sal. É bom trocar a água pelo menos seis vezes ou “deixando correndo na borracha a noite toda” como diz a Ivonete .
Na sexta-feira, mãos à obra: lave bem os pés de porco e fervente em separado – reserve
Corte as carnes em pedaços grandes, assim como as lingüiças. Fervente as linguiças e as carnes salgadas – reserve.
O feijão deve ser cozido em caldeirões com muita água. Antes de colocar o feijão na panela, deixe dourar um pouco de óleo o alho socado e a cebola picada.
Acrescente o louro, um punhado de orégano, sal e pimenta-do-reino. Só então coloque o feijão para cozinhar pelo menos uma hora, junto com o bucho.
Vá colocando as carnes no caldeirão. Pode seguir essa ordem: carne seca, pé de porco, costelinhas, peito, paio, linguiças e lombo. Se for preciso, coloque mais água no feijão, acerte o sal e deixe as carnes cozinharem bem. Retire o excesso de gordura, se houver, com uma escumadeira.
Vá retirando as carnes já cozidas no caldeirão para que não desmanche e coloque-as em travessas. Siga a regra: o caldo deve ficar grosso. Os grãos, macios. As carnes, bem cozidas e integras.
Na manhã de sábado, dia da roda do Cafofo, é hora dos complementos. Em uma panela grande – ou duas ou mais, se necessário, refogue a couve cotada fininha com alho dourado, gordura de toucinho picadinho e sal. O mesmo procedimento deve ser feito com a farinha de mesa que vai virar farofa .
As carnes voltam aos caldeirões de feijão para esquentar. Quando surgem as primeiras bolhas de fervura, elas voltam as travessas e vão para a mesa. Os caldeirões ficam aquecidos em fogo brando.
Sirva as carnes em travessas separadas, os feijões nos caldeirões, as laranjas, a couve, o arroz branco e a farofa em potes. Deixe a pimenta malagueta a disposição para quem quiser se servir.

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