UOL CarnavalUOL Carnaval

Notícias

04/02/2008 - 12h01

Primeira noite no Rio tem chuva forte, protesto por carro vetado, pista de esqui e sistema GPS

Da Redação
A primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval do Rio, de domingo (3/2) para segunda (4/2), não foi perdoada pela chuva e algumas escolas foram prejudicadas pela água que caiu na Marquês de Sapucaí. Apesar disso, a noite correu sem atrasos significativos ou grandes incidentes.

Jorge Araújo/Folha Imagem
Integrantes da bateria da Viradouro levantam sua rainha, Juliana Paes
EFE
Protesto contra veto de carro do Holocausto da Viradouro tem Tiradentes e calados
SÃO CLEMENTE E A FAMÍLIA REAL
PORTO DA PEDRA CELEBRA JAPÃO
SALGUEIRO: O RIO CONTINUA SENDO
PORTELA VÊ IMPORTÂNCIA DA ÁGUA
MANGUEIRA BUSCA O FREVO DE PE
VIRADOURO ARREPIA E PROTESTA
QUAL O MELHOR DESFILE DA NOITE?
Entre os temas, "chegada da família real portuguesa" e "imigração japonesa" eram esperados, já que o Brasil celebra 200 e 100 anos dos eventos, respectivamente. O Rio, a natureza e o frevo também foram homenageados. Já o tema menos ortodoxo foi o arrepio, que ilustrou o desfile da Viradouro, o mais ousado da noite.

A São Clemente, que volta ao Grupo Especial este ano, abriu a noite às 21h11 com o samba-enredo "O Clemente João 6º no Rio: A Redescoberta do Brasil...", que celebrava os 200 anos da chegada da família real ao país e foi encomendado pela prefeitura da cidade.

Sob o comando de três carnavalescos (Milton Cunha, Fábio Santos e Mauro Quintaes --este último também esteve à frente da Gaviões da Fiel, em São Paulo), a escola exibiu na avenida fantasias típicas da nobreza européia do século 19, com muitas perucas, vestidos bufantes e cores fortes e vibrantes. Na comissão de frente, a atriz Rogéria representava a rainha de Portugal Dona Maria, conhecida como "A Louca". Os devaneios da rainha, segundo a escola, foram a inspiração de todo o desfile.

D. João 6º apareceu no trono em um carro que trazia destaques vestidos de frango, que o rei adorava comer. Ao seu redor, a cor azul, que fazia alusão às safiras azuladas encomendadas por Dona Maria para decorar o casamento de seu filho com Carlota Joaquina. Índios, o verde da mata e outras colônias portuguesas, como Guiné-Bissau e Macau, também estavam representados.

A rainha de bateria foi Bruna Almeida, da comunidade da escola, e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira foi formado por Marcelo Jorge e Danielle.

Com sete carros alegóricos e 31 alas, a São Clemente deixou a avenida às 22h24, dentro do tempo máximo estipulado para o desfile (80 minutos).

Jorge Araújo/Folha Imagem
Viviane Castro com tapa-sexo de quatro centímetros, o menor já usado na Sapucaí
Um recorde que se destacou na apresentação da São Clemente foi o da modelo Viviane Castro, que desfilou com o menor tapa-sexo já usado no sambódromo, de apenas quatro centímetros, grudado no corpo com cola instantânea.

A Porto da Pedra comemorou os 100 anos da chegada dos imigrantes japoneses no Brasil com o samba "Tem Pagode no Maru! 100 Anos de Imigração Japonesa". Com oito carros e 32 alas, a agremiação contou com a criação do carnavalesco Mário Morjello e levou para a Sapucaí os símbolos da cultura nipônica.

O início, às 22h37, contou com a comissão de frente encenando o teatro kabuki, arte milenar japonesa. O carro abre-alas trouxe o "Festival das Flores", com gueixas e um Buda gigante dourado. À frente do carro, havia um tigre dourado, símbolo da escola. O navio que trouxe os japoneses e o bairro da Liberdade, em São Paulo, também foram destacados na apresentação.

Plástica para "puxar" os olhos

Como rainha da bateria, a modelo Ângela Bismarchi apareceu com os olhos puxados obtidos em uma polêmica cirurgia plástica, que ela pretende desfazer depois do Carnaval.

Louro, mestre de bateria da Porto da Pedra, precisou se afastar no meio do desfile por problemas de pressão alta. Mas a bateria manteve o ritmo e o mestre acabou retornando à avenida. A escola também teve um carro alegórico que pegou fogo, mas foi após o término do desfile e não comprometeu a apresentação.

A tradicional Salgueiro foi a terceira escola a entrar no sambódromo, à 0h15, para cantar a paisagem e a história da cidade do Rio de Janeiro. O samba "O Rio de Janeiro Continua Sendo..." é uma alusão à música "Aquele Abraço", de Gilberto Gil.

Com 28 alas e sete carros, a Salgueiro exaltou as belezas naturais da cidade, seus aspectos da boemia e ícones da cultura, como a Biblioteca Nacional e o Theatro Municipal. Liderada pelos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lávia, a agremiação usou a chegada dos navegadores portugueses ao Rio de Janeiro para iniciar a homenagem.

Efe
Beijo na praia representa o o clima sensual do Rio, homenageado pela Salgueiro
A comissão de frente mostrou uma representação bem-humorada da chegada dos navegadores que, carregando um barco em forma de banana, encontraram uma índia "boa de samba". As belezas naturais da cidade apareceram em forma de luzes e cores no carro abre-alas "Visão Paradisíaca", bem como na ala das baianas, a "Arara Vermelha", e na "Sabor Tropical". O carro que representava o estádio do Maracanã contou com os jogadores Jairzinho e Júnior.

A modelo e atriz Viviane Araújo foi a rainha da bateria. E, no chão, a Salgueiro contou com as musas Sabrina Sato, a ex-BBB Carollini Honório e a modelo Mirella Santos, namorada do cantor Latino, que também desfilou pela Salgueiro. O ator Eri Johnson e o jogador Edmundo também entraram na avenida.

O próprio Carnaval do Rio foi homenageado com a figura de reis momos, arlequins e outros símbolos da festa, assim como o carro "Não me Leve a Mal ... Hoje É Carnaval", que fechou o desfile à 1h15. O carnavalesco Renato Lage passou pela Sapucaí cumprimentando o público atrás do último carro da escola e se queixou da chuva que atrapalhou um pouco a evolução do Salgueiro, mas avaliou bem o desfile da agremiação.

Evolução sob a tutela do GPS

A Portela, quarta da primeira noite carioca, evocou o meio ambiente e sua preservação no samba-enredo "Reconstruindo a Natureza, Recriando a Vida: O Sonho Vira Realidade" para entrar na Sapucaí à 1h30 com sete carros alegóricos e 39 alas.

A criação do carnavalesco Cahe Rodrigues aproveitou as cores azul e branco da escola para falar sobre a importância da água para o futuro do planeta. Todas as alas faziam referência à água e às cores da escola, começando pela comissão de frente "Ballet das Águas-Vivas". A escola utilizou um sistema de GPS para organizar sua evolução, que contava com 200 integrantes só na ala das baianas.

Mesmo falando sobre preservação de água, a escola utilizou seis mil litros do líquido nos chafarizes do carro abre-alas "Água - Fonte Eterna da Vida", ornado com a tradicional águia da escola iluminada com néon azul. Mas a alegoria que mais levantou a platéia foi "Viva a Vida", um carro que se transformava a cada virada de bateria: de um cenário árido com um bebê subnutrido em cima, flores desabrochavam e o bebê girava sob sua plataforma, mostrando uma criança saudável.

Jorge Araújo/Folha Imagem
Carro da Portela mostra bebê subnutrido virando saudável e levanta a arquibancada
A dançarina Adriana Bombom, mulher do sambista Dudu Nobre, foi a rainha da bateria e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira foi formado por Diego Falcão e Alessandra Bessa. O ator Antônio Fagundes e o músico Paulinho da Viola desfilaram à frente da escola, com camisas onde se lia "Presidência".

Uma das escolas mais prejudicadas pela forte chuva que caía na cidade maravilhosa foi a Mangueira, que entrou na Sapucaí às 2h49 sob temporal. "100 anos do Frevo, É de Perder o Sapato. Recife Mandou me Chamar", em homenagem ao ritmo popular de Pernambuco, foi o tema do desfile, patrocinado pela prefeitura do Recife e criado pelo carnavalesco Max Lopes.

A escolha do tema causou polêmica no mundo do samba, já que era esperado que a Mangueira homenageasse os cem anos de Cartola, ícone da escola. Mas o sambista mangueirense que, dizem, escolheu o nome e as cores da escola, foi lembrado no último carro do desfile, que trazia a velha guarda da escola e um boneco de Cartola sentado sobre um violão de 50 metros.

Com 28 alas e oito carros alegóricos, a Mangueira foi prejudicada pela chuva já na concentração. Molhadas, muitas das plumas e fantasias apareceram menos vistosas do que o planejado.

A comissão de frente "Frevo do Amanhã, Futuro de Paz", a cargo do coreógrafo Carlinhos de Jesus, contou com crianças executando passos de frevo. Figuras típicas da festividade recifense, como o Zé Pereira, foram homenageadas nos carros alegóricos, incluindo um Rei Momo que conduzia um dragão de três cabeças que soltavam fumaça. Até uma réplica do Galo da Madrugada, tradicional bloco de rua do Recife, que este ano recebeu 1,5 milhão de foliões, foi apresentada.

Entre os destaques, esteve a modelo Gracyanne Barbosa como rainha da bateria, além dos atores Fernanda Torres e Maurício Mattar. A bateria "A Grande Fanfarra" animou a platéia com a competência tradicional mangueirense. Diversos integrantes da escola foram vistos chorando durante o desfile.

"Liberdade ainda que tardia"

Jorge Araújo/Folha Imagem
Público encara a chuva forte na arquibancada da Sapucaí
A chuva também não deu trégua para a Viradouro, que desfilou às 4h13 o tema "É de Arrepiar", com 34 alas, oito carros e a promessa de surpresas e protestos, devido à proibição da Justiça --após pedido da Federação Israelita do Rio de Janeiro-- de a escola colocar na avenida um carro que faria menção ao Holocausto, com bonecos representando corpos dos judeus mortos. O carnavalesco Paulo Barros afirmou que nunca pensou em vestir um destaque de Adolf Hitler, como foi divulgado na imprensa nos últimos dias. "Quem inventou isso foi extremamente irresponsável."

Foi na etapa "arrepios de terror" -que incluiu alas sobre Inquisição, forca, guilhotina (com um curioso mestre-sala-sem-cabeça) e cadeira elétrica- que ocorreu o protesto. No lugar do carro vetado, entrou uma montanha branca cercada de pás, vários integrantes com mordaças, um Tiradentes de destaque e placas em que se liam "Liberdade Ainda que Tardia" e "Não É Enterrando o Passado que se Constrói a História".

O carro abre-alas tinha uma grande rampa de esqui que consumiu 26 toneladas de gelo e contou com esquiadores descendo a rampa durante todo o desfile. Também representando o frio, a Viradouro tinha baianas vestidas de iglu, mas a chuva danificou as fantasias, tornando-as pesadas e dificultando a evolução da ala.

O carnavalesco surpreendeu na bateria, que homenageava o artilheiro do Brasil na Copa de 70 Jairzinho. Os instrumentistas chutaram bolas de futebol para a arquibancada e levantaram a sua rainha, a atriz Juliana Paes, em referência à taça Jules Rimet. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira era formado por Raphael Rodrigues e Simone Pereira.

O cinema foi citado várias vezes. A primeira foi na comissão de frente, com Mr. Freeze, inimigo de Batman no filme "Batman & Robin" (1997). Quando o assunto foi cabelo, chamou atenção uma ala só de Edwards, o "Mãos-de-Tesoura" do filme de Tim Burton de 1990. Os filmes "Alien" e "Chucky - O Boneco Assassino" ganharam alas e um carro alegórico trazia as duas versões de "O Exorcista".

O "arrepio do parto" foi citado com um boneco que se movimentava e o "da sedução" estava no carro "Kama Sutra", com casais nus pintados de dourado simulando as posições do livro indiano. Aranha, cobra e lagarto e baratas representaram os "arrepios de repugnância".

Por fim, a escola dedicou alas a "Carnavais clássicos" e fez uma homenagem a Cartola --que pode ser interpretada como uma provocação à Mangueira. A Viradouro trouxe ainda Beth Carvalho, que se desentendeu com a verde-e-rosa em 2007, como destaque do carro e incluiu trechos de "As Rosas Não Falam" em seu samba-enredo.

A segunda noite do Grupo Especial da Sapucaí, de segunda (4/2) para terça (5/2), começa às 21h e conta com as escolas Mocidade independente, Unidos da Tijuca, Imperatriz Leopoldinense, Vila Isabel, Grande Rio e Beija-Flor. A apuração das notas será na Quarta-feira de Cinzas (6/2), com cobertura em tempo real do UOL. (Com Agência Estado)
Hospedagem: UOL Host