Salgueiro faz desfile grandioso e inovador com lendas do cordel nordestino

Do UOL, em São Paulo

Terceira escola de samba a desfilar no Carnaval do Rio nesta segunda-feira (20), o Salgueiro coloca repentistas, padres, jagunços e outras figuras da literatura de cordel com as cores branco e encarnada, típicas da escola, na avenida para tentar mais um título. Como em 2011, porém, a agremiação do Andaraí tem problema com o tamanho das alegorias.

O primeiro carro acabou tendo de recuar, após falhar em entrar na Sapucaí, para dar espaço ao segundo carro e ao restante da escola. Em seguida, o segundo carro, um enorme pavão, também gerou dificuldade. Nada disso, porém, prejudicou o tempo total de desfile e o Salgueiro completou sua passagem dentro do tempo regulamentar.

Além disso, após as dificuldades, a agremiação tenta repetir a dose de 2009, quando foi campeã do Carnaval com o enredo "Tambor", com um desfile repleto de inovações. Assim como há três anos, o Carnaval de agora é assinado pelo carnavalesco Renato Lage e sua mulher Márcia Lage.

Com 35 alas, sete alegorias e 3.830 componentes, o Salgueiro faz um samba alegre, com muito humor, e também grandiosidade, ao mostrar as lendas e figuras populares da cultura nordestina -- Padre Cícero, Lampião e Antônio Conselheiro, o lobisomem e a Caipora.

A comissão de frente traz um efeito muito interessante, com seus bailarinos carregando bonecos atados às pernas -- que por alguns ângulos parecem pessoas de verdade --, simulando um autêntico forró nordestino. 

As baianas também surpreendem ao representar Maria Bonita, no quarto setor da escola, com fantasias inspiradas na vestimenta do cangaço e um toque de ousadia, com a barra das saias menos arqueada, que dá um movimento diferente durante o rodopio e exibe mais as pernas das passistas. Novidade também com o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei e Gleice Simpatia: eles também representam figuras do cangaço, mas fazem uma pausa no bailado típico do par para fazer um passo de xaxado, com direito a uso de triângulo pelo mestre-sala.

A bateria de mestre Marcão, vestido de "Lampião, o rei do cangaço", também chama a atenção com dois grandes destaques: os ritmistas da "Furiosa" alternam a batida de seus chocalhos e tambores com a sinfonia nordestina do xote; paralelamente, a rainha da bateria Viviane Araújo chama a atenção do público e dos fotógrafos e participa da batida ao utilizar um tamborim.

GRANDIOSIDADE
Se no começo do desfile causaram problema por conta do tamanho, com o desfile em andamento, os carros mostram que grandiosidade também garante o espetáculo.

O carro abre-alas, "Os Mamulengos dos Reino do Cordel", traz bonecos coloridos de 26 metros de altura, vestidos com roupas de chitas e que são articulados e movimentados por 26 integrantes. Além disso, há 18 elementos que simbolizam as figuras femininas típicas da literatura de cordel, com suas roupas de renda e cabelos trançados. O detalhe da caracterização desta alegoria foi garantido com a impressão sobre madeira da padronagem dos tecidos típicos, renda e chita.

Figuras como o rei e a rainha, o príncipe e princesa, típicos da Europa, influenciam a literatura de cordel e ganham status de alas no Carnaval do Salgueiro. A guerra entre cruzados (cristãos) e árabes (mouros) do período medieval também está representada no Cordel e na avenida. A dançarina Adriana Bombom surge como destaque de chão à frente da "Barca da Encantaria",  segunda alegoria do desfile bolado por Renato Lage, que carrega nove estátuas gigantes de serpentes marinhas com cabeça de dragão, assustadoras sereias seminuas e uma enorme barca, que na lenda seria conduzida pelo imperador Carlos Magno.

A procissão por figuras consideradas santas também aparece na Sapucaí com a principal figura, o Padre Cícero, e alas de romeiros.

O carro "Pavão Misterioso", que teve problemas na entrada do desfile, surgiu grandioso, mas deu a impressão de não mostrar algum movimento que deveria ter. Principal obra do cordel nordestino, conta uma história passada na Grécia em que um rapaz corajoso rapta a condessa, filha de um conde orgulhoso com o auxílio de uma enorme máquina, o pavão motorizado.  

O sertão aparece em outro carro gigante, que mostra cores fortes simbolizando a paisagem do Cerrado, povoado com animais típicos, como carcarás e jumentos, e cangaceiros do bando de Lampião, simbolizado por uma estátua em cima da figura de um cavalo em disparada. Um pássaro de fogo complementa esta alegoria.

Na sequência, o sertão ganha ares sobrenaturais com a ala dos coronéis, com fantasias que misturam ternos de linho branco com figuras vestidas de caveiras ("Dona Morte"), o "Boi Mandigueiro", emburrado e com fama de amaldiçoado, a "Onça Caetana" e a "Assombração Noturna", que colocam medo no caboclo.

A "Mula Sem cabeça" divide um carro com o "Lobisomem", revelado no movimento de uma cabeça gigante de sertanejo, em outra alegoria de destaque do Salgueiro. "Deus e o Diabo" partilham outra peça, com 18 diabos de um lado e 16 anjos de outro, além de santinhos pregados ao longo do carro.

Sanfoneiros, repentistas, zabumbeiros e mamulengos aparecem na ala "A Banda do Sertão", que anima o caboclo após tanto medo e tanta assombração. Esta ala é uma homenagem aos artistas e poetas do sertão. Destaque também para a musas Vânia Flor, modelo plus-size que aparece fantasiada em alusão ao Cordel Branco Encantado.

A funkeira Valesca Popozuda vestiu fantasia de diabinha e perdeu o sutiã durante o desfile. O ator Eri Johnson saiu próximo à comissão de frente, em ritmo acelerado, para em seguida voltar à cabine de comentaristas da TV Globo. O carro a "Corte do Sertão" reproduz gravuras de J. Borges e traz de volta a nobreza da literatura de cordel, agora coroada, com muita cor, luz e resplendor.   

Antes do Salgueiro, passaram pela Sapucaí São Clemente e União da Ilha do Governador. Depois do Salgueiro, desfilam MangueiraUnidos da Tijuca e Grande Rio. No domingo, sete escolas abriram o Carnaval 2012 no sambódromo carioca: Renascer de JacarepaguáPortelaImperatriz LeopoldinenseMocidade IndependentePorto da PedraBeija-Flor e Vila Isabel.

Em 2011, o Salgueiro ficou com o quinto lugar após um desfile marcado por quebras de carros e atrasos.



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