"Comecei a ganhar salário como porta-bandeira aos 13", diz irmã de Dudu Nobre

Fabíola Ortiz

Do UOL, no Rio

  • Fernando Maia/UOL

    Lucinha Nobre posa para o UOL na Cidade do Samba, no Rio

    Lucinha Nobre posa para o UOL na Cidade do Samba, no Rio

Prestes a completar 30 anos como porta-bandeira, Lucinha Nobre, 37, irmã do cantor Dudu Nobre e prima de Seu Jorge, será a primeira a abrir o desfile do Grupo Especial na Marques de Sapucaí, no domingo dia 10 de fevereiro. Uma "profissional do samba", Lucinha começou nos desfiles em 1984 e já defendeu a Mocidade Independente de Padre Miguel, de 1992 até 2001, a Unidos da Tijuca, de 2002 a 2009 e, por três anos, desfilou pela Portela.

"Comecei a ganhar salário desde os 13 anos de idade. Ganhei até o estandarte de Ouro na Mocidade. Na época eu não estava preocupada com isso porque, até então, estava na minha escola de coração, a Mocidade. Quando fui para a Tijuca, numa casa nova, com pessoas diferentes e uma responsabilidade, foi ali que eu percebi que realmente tinha virado profissional", contou Lucinha em entrevista ao UOL. Em 2013, vai representar a Inocentes de Belford Roxo, escola da Baixada Fluminense que integra pela primeira vez a elite do samba.

É muito bonito abrir a festa e botar o carnaval para cima. Existe um mito que as escolas que começam não têm esse preparo

Lucinha Nobre, porta-bandeira
da Inocentes de Belford Roxo

"É muito bonito abrir a festa e botar o carnaval para cima. Existe um mito que as escolas que começam não têm esse preparo. Mas eu penso: que legal, vou ser a primeira a abrir o Carnaval não só para a Inocentes, mas para todas as escolas", disse a porta-bandeira durante um ensaio na Cidade do Samba. Nos meses que antecederam o Carnaval, Lucinha e seu parceiro, o mestre-sala Rogerinho, 36, têm estado com a agenda lotada com ensaios e compromissos. O casal que já completa 16 anos de parceria tem uma rotina de ensaios de quatro vezes por semana de madrugada junto com a comissão de frente.

Uma porta-bandeira carrega consigo a essência de uma majestade, pois é ela quem defende a bandeira e apresenta a escola na frente de todas as alas. Já o mestre-sala tem o dever de proteger a porta-bandeira e de cortejá-la. "Lá em casa são dois quartos, o meu e o da porta-bandeira. Eu cuido da porta-bandeira e de suas roupas com muito carinho. A postura muda, ela tem uma coisa glamurosa, mas tem que tomar cuidado para não cair na coisa de ser arrogante, tem que separar. Eu sou muito fã da minha dança", destacou.

O diferencial de uma porta-bandeira, resume, é saber conquistar os jurados, mas também o carinho da comunidade da escola. "Tem que ter carisma, humildade e pé no chão. Você é muito bajulada o dia inteiro e não pode perder a essência do que você é.  Eu procuro estudar muito e evoluir na minha dança", explicou.

Valor da tradição

Em seu período de três anos na Portela, uma das mais antigas do carnaval carioca, Lucinha diz que foi lá onde aprendeu o valor da tradição. "Na Portela eu aprendi a fidalguia do samba, mudei muito. Enquanto na Tijuca eu era mais rock’n roll, a Portela foi importante na minha descoberta como porta-bandeira. Levo da Portela o respeito ao samba, ao meu pavilhão, à minha dança. A Tia Dodô (primeira porta-bandeira) na Portela foi uma faculdade de porta-bandeirice. Isso eu trouxe para a Inocentes".

A saída da Portela foi conturbada e triste. Lucinha foi demitida em agosto de 2012 quando já preparava para o desfile deste ano. Ela conta que ainda vive o "luto" da saída. O convite para integrar a Inocentes também foi rápido, no mesmo dia. "Eu estava voltando para casa no carro chorando. Respeito muito a decisão do presidente. Ele pensou no melhor para a escola. Mas fiquei triste, estou triste e até hoje vivo o luto da saída. Mas foi tão rápido a entrada na Inocentes e muito carinhoso. Quando cheguei, no dia seguinte já tinha a minha roupa quase pronta". "A escola sente falta deles. Ver a escola desfilar e não ver os dois é um pouco da Portela que não está. O portelense, quando se identifica com você, te carrega no colo", conta Paulo Menezes, o carnavalesco da Portela.

Acho que a escola vai surpreender no desfile

Lucinha Nobre, porta-bandeira
da Inocentes de Belford Roxo

Lucinha Nobre e Rogerinho têm agora a responsabilidade desfilar à frente da uma escola que recém subiu para a elite do samba. "Acho que a escola vai surpreender no desfile. A organização vem em primeiro lugar de dentro e depois a pessoas veem fora. É natural, a escola é muito nova. Tenho mais tempo de carreira que a escola de existência. É curioso como a vida dá voltas", salientou. Abrindo os desfiles do domingo, dia 10, a Inocentes de Belford Roxo vai homenagear a Coreia do Sul no enredo "As sete confluências do Rio Han", assinado pelo carnavalesco Wagner Gonçalves.

A fantasia de porta-bandeira este ano é mais leve com 1.600 penas de faisão, admite Lucinha. "A fantasia sempre é pesada, mas em geral de 45 kg, este ano é mais leve apenas de 20kg. Eu procuro sempre surpreender na fantasia já que a dança é tradicional. Não faço piruetas e procuro não ferir o quesito".

Noiva de um alemão, Lucinha anuncia que deve se casar em outubro e pensa em morar fora do Brasil. A porta-bandeira é fluente em três línguas – inglês, francês e alemão –, mas mesmo morando fora, pretende voltar todos os anos para participar do Carnaval. "A gente vai morar aqui no Brasil primeiro, mas não descarto a possibilidade de morar fora. Sempre voltarei para o Carnaval, vão ser seis meses fora e seis meses aqui. De alguma forma acho que vou sempre estar na festa  mesmo que não esteja mais desfilando como porta-bandeira. O Carnaval faz parte da minha história de vida. Estou feliz e satisfeita com a minha história no Carnaval". Lucinha diz ter realizado o sonho de sua mãe que tanto incentivou os filhos.

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