Homem da Meia-Noite emociona Olinda

Roberto Saraiva

Band

"Calunga" desfila pela cidade há exatos 81 anos, encantando diferentes gerações


O calor que vem do chão em Olinda fica ainda mais intenso à medida que os corpos das pessoas se aproximam, cada vez mais apertado uns contra os outros em uma espera que parece não ter fim. Cena característica da saída do Homem da Meia-Noite da sede de seu clube rumo às ladeiras e ruas estreitas da cidade. Se a tensão no ar se explica pelo inevitável empurra-empurra, a ansiedade fica por conta do início oficial da festa na cidade, após a entrega da chave do município para o Bloco Cariri, cerca de 4 horas depois.

 

 

O carregador Pedro Garrido da Silva jura que a partir da 0h de domingo transforma-se no Homem da Meia-Noite há 24 anos. Mas o que acontece não é bem isso, pois não se trata de um boneco gigante, pura e simplesmente. Como é de conhecimento geral nas redondezas, a personagem é na realidade um calunga, uma figura mística do candomblé que "incorpora" na pessoa encarregada de conduzi-lo. E é aí que mora parte do mistério responsável por arrastar 500 mil pessoas de todas as idades e credos Olinda afora.

Pontualmente à meia-noite, as portas do clube se abrem para o seu interior, iluminado com laser e globo de luz e ambientado com fumaça e bolhas de sabão. Surge o Homem da Meia-Noite, impecável em seu fraque verde e branco trabalhado à mão. Cartola, gravata, dente de ouro e cavanhaque completam o look. O que acontece depois pode ser descrito como uma montanha-russa emocional e física. Após os fogos de artifício e aos gritos de "Ih, %&#@*, o homem apareceu!", quem carrega o povo é o Homem da Meia-Noite, em desabalada carreira.

"Lá vem o Homem da Meia-Noite/Vem pelas ruas a passear/A fantasia é verde e branca/Para brincar o Carnaval", canta a multidão. A banda de frevo dá o tom do cortejo, agitando ou mesmo cessando completamente ritmo e música de acordo com a necessidade do momento. Pelas ruas, as pessoas fazem preces, berram de alegria quando ele se aproxima de suas casas, olhares vidrados no calunga. Alguns agradecem pela oportunidade de vê-lo novamente, em clima de ano-novo. O abre-alas é um relógio e uma chave, seguidos por dezenas de bailarinos de frevo vestindo verde e em formação militar. A intensidade da dança não arrefece por um minuto durante das quatro horas de percurso.

 

 

frevo

 

Pouquíssimos foliões bebem. Aliás, talvez seja injusto chamá-los assim. O Homem da Meia-Noite é praticamente uma procissão, uma mistura de Galo da Madrugada com Círio de Nazaré, grande orgulho e símbolo maior da cidade de Olinda há 81 anos.


chave

 

História

Há várias versões para a inspiração do Homem da Meia-Noite, mas na mais conhecida delas conta-se que um homem muito bem-apessoado cruzava as ruas daqui todos os dias à meia-noite. Até que um dia, sábado mais precisamente, ele foi seguido e descobriu-se que se tratava  de um sedutor, provocando verdadeiro rebuliço entre o mulheril.

O clube em si surgiu de uma dissidência do Cariri, um dos blocos mais antigos da cidade. Porém, na melhor tradição brasileira, hoje as duas agremiações se reconciliaram e abrem juntas o Carnaval da cidade.

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