Mangueira e Portela fizeram Carnaval histórico em 1984

Anderson Baltar

Do UOL, no Rio

Poucos carnavais marcaram tantas mudanças na história das escolas de samba do que o de 1984. Naquele ano, foi inaugurada uma nova passarela, projetada por Oscar Niemeyer e construída em tempo recorde, pouco mais de quatro meses. E o desfile, que até o ano anterior acontecia em uma noite só, passou a ser dividido em duas partes.

  • Levi de Moraes/Folha Imagem

    Desfile da Mangueira em 1984

A decisão polêmica causou uma situação sui generis: dois desfiles separados, com classificações distintas.

As três primeiras colocadas de cada dia se classificaram, juntamente com as duas melhores classificadas do Grupo 1-B (atual Série A), para o Supercampeonato, disputado no sábado das campeãs.

No domingo, venceu a Portela. Na segunda-feira e no tira-teima final, a Mangueira. A turma verde e rosa até hoje ostenta, com orgulho, o título de única Supercampeã do Carnaval Carioca.

Mas a Portela também celebra este título, a despeito de ter ficado com o vice-campeonato no desfile decisivo. "Nós fomos campeões em 1984. O portelense é muito vaidoso e não abre mão dessa conquista", afirma Carlos Reis, principal destaque da escola.

No fim, a meia-volta

"Sou o único carnavalesco supercampeão da passarela", afirma, sem falsa modéstia, Max Lopes, responsável pelo desfile da Mangueira em 1984.

E não foi um desfile qualquer. O cortejo marcou época por um fato que nunca mais seria repetido: ao chegar na recém-inaugurada Praça da Apoteose, criada para que as escolas concluíssem o desfile fazendo um espetáculo que nem elas ao certo sabiam o que deveria ser, a Mangueira resolveu dar meia-volta e desfilar em direção à concentração.

"Foi inesquecível. Ninguém sabia o que fazer na Apoteose e, de repente, demos meia-volta. O povo veio junto, invadiu a pista e desfilou com a gente", lembra o então ritmista Elmo José dos Santos, diretor de Carnaval da Liesa  e ex-presidente da escola.

"O desfile da volta surgiu de um fato curioso. A escola não tinha dinheiro pra pagar os empurradores e eles ameaçaram largar os carros no meio da rua. Então, surgiu a ideia de voltar por dentro porque aí voltaríamos para o barracão, que ficava na Praça Onze, perto da concentração. Só que o povo entendeu que era pra descer junto e veio todo atrás", lembra Max Lopes.

Foi inesquecível. Ninguém sabia o que fazer na Apoteose e, de repente, demos meia-volta. O povo veio junto, invadiu a pista e desfilou com a gente

O fato é que o Carnaval de 1984 será para sempre lembrado pela ousadia mangueirense.

No desfile do Supercampeonato, nem precisou de nenhum aviso ou decisão: mais uma vez sendo a última a desfilar, a escola novamente fez o retorno e saiu da avenida nos braços do povo.

Tempos difíceis

Max Lopes apostou em uma escola classuda e bem vestida para homenagear o compositor Braguinha – um tema incomum, já que não eram habituais enredos sobre personalidades vivas.

Para relembrar passagens da vida do autor de "Touradas em Madri", a Mangueira se vestiu de belle époque e encantou o público e jurados com uma forma diferente de se apresentar em verde e rosa, com tons mais brandos. "Foi ali que recebi o apelido de 'Mago das Cores'", lembra Max, que atualmente integra a equipe de Carnaval da São Clemente.

Tanta beleza surgiu praticamente do nada. Envolvida em sérias dificuldades financeiras, a Mangueira fazia suas alegorias em um terreno sem teto, nos fundos do edifício Balança, Mas Não Cai.

  • Levi Moraes/Folhapress

    Desfile da Portela em 1984

"Depois de uma chuva, uma escultura de touro, feita em papel maché, dissolveu. Só depois disso que um amigo da escola, que trabalhava em uma empresa de divisórias, conseguiu colocar um teto provisório", lembra Max.

Sem condição de pagar funcionários, ele chamou integrantes da comunidade para um mutirão no barracão e, no limite da exaustão, botou a mão na massa.

"Cheguei a pegar no sono em cima de um carro, enquanto decorava, e não caí de lá por milagre. Foi muito sacrificante, perdi 18 quilos e saí da avenida doente", recorda.

Com medo de entregar o ouro para as rivais, Max cometeu um desatino: pediu para os componentes chegarem na concentração com apenas 40 minutos de antecedência. Pouco antes do desfile, a tensão tomou conta dos bastidores da verde e rosa.

"Isso foi uma besteira que eu fiz. Os carros já estavam enfileirados e as pessoas não chegavam. Veio um diretor e disse que achava que havíamos sofrido um boicote, que não iria chegar ninguém. Faltando meia hora para o desfile, alguém subiu num carro e falou: 'olhem para a Central!' Era um mar de gente. Eles fretaram uns trens e vieram, todo mundo ao mesmo tempo. E a escola se montou sozinha, poucos minutos antes de entrar na avenida", conta o carnavalesco.

Divisor de águas

Enquanto isso, a Portela vivia momentos decisivos em sua trajetória. A escola chorava a morte de Clara Nunes, ícone portelense, ocorrida em abril do ano anterior.

O enredo "Contos de Areia" homenageava, além da cantora, duas outras figuras icônicas da agremiação: Paulo da Portela e Natal, que haviam sido os dois maiores líderes da azul e branco. Um carnaval de emoção e que marcaria o fim de uma era de glórias para a agremiação. Campeã do desfile de domingo, a Portela nunca mais chegaria ao topo do pódio do carnaval carioca.

  • Levi Moraes/Folhapress

    Desfile da Portela em 1984

No amanhecer da segunda-feira de Carnaval de 1984, a Portela desfilou com um imenso contingente. Estava luxuosa como poucas vezes. Com um samba contagiante, arrebatou o público, que cantou a plenos pulmões a obra de Dedé da Portela e Norival Reis.

A letra emocionava o portelense lembrando de grandes ídolos e potencializava o orgulho de ser a maior campeã dos carnavais. "Jogo feito, banca forte/Qual foi o bicho que deu/ Deu águia, símbolo da sorte/Pois 20 vezes venceu".

"Foi um desfile que tinha tudo que o portelense quer. A Portela homenageou seus maiores ídolos de formação e seu maior ídolo de mídia, a cantora Clara Nunes, que representava tão bem o portelense. Tinha um samba lindo, um enredo muito bom. Foi um desfile impecável do ponto de vista das tradições", analisa Luiz Carlos Magalhães, pesquisador de carnaval e diretor cultural da Portela.

O carnaval de 1984 marcou a despedida de um chefe de ala. Alexandre Louzada, que comandava a ala Levanta Poeira, passou pela avenida fantasiado de Oxossi, o orixá que rege os destinos da Portela. E quis o destino que, no ano seguinte, ele fosse convidado pela diretoria da escola para ser carnavalesco e desse início a uma sólida carreira, coroada por quatro títulos no Carnaval Carioca.

"Nunca vou me esquecer desse momento. Com autorização da direção da escola e dos carnavalescos Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo, eu mesmo havia desenhado o figurino da ala, que era azul, prata e branca. Fez um efeito lindo na avenida. Logo após o carnaval, o então presidente Carlinhos Maracanã me convidou para ser carnavalesco, e nunca mais parei", lembra Louzada.

Quem também estava nessa ala era o destaque Carlos Reis, que fazia sua estreia na escola a convite de Clara Nunes. No ano anterior, ele assistia ao desfile quando a cantora passou por ele e, ao ver sua paixão pela Portela, o conclamou que se juntasse à escola no ano seguinte. "Pouco depois, ela morreu. Me senti obrigado a desfilar e aqui estou até hoje", conta.

Racha na Portela

Além do desfile emocionante, o Carnaval de 1984 também deixaria outra marca definitiva na Portela: seria o último cortejo antes do racha que daria origem à Tradição, formada por nove alas afastadas da agremiação e comandada por Nésio Nascimento, filho de Natal e presidente da escola até hoje. Uma perda considerável de lideranças se seguiu e, coincidência ou não, a águia nunca mais voou até o topo do pódio. 

Luiz Carlos Magalhães reconhece o enfraquecimento da escola após a dissidência, mas não acredita que seja esse o motivo do jejum de títulos.

"O carnaval mudou e ela não conseguiu acompanhar esse processo. Surgiram escolas como Beija-Flor, Imperatriz e Mocidade, que se transformaram em super-escolas de samba. Todas as escolas tradicionais tiveram dificuldades de se adaptar", analisa.

Trinta anos depois, um recomeço. A Portela vive outro momento político singular. Por apenas dois votos, o compositor Serginho Procópio, apoiado por baluartes como Monarco e Paulinho da Viola, venceu o polêmico ex-presidente Nilo Figueiredo.

Com uma direção formada por jovens e envolta numa aura de otimismo, vê Louzada voltando para o seu ninho. E com sede de vitória: "Agora é a hora de retomarmos nosso caminho de vitórias. Esse clima é gostoso e nos ajuda muito. Espero que, quando a escola pisar na avenida, seja envolvida por uma aura que a conduza ao campeonato".

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