Aos 65 anos, Filhos de Gandhy tenta evitar paquera para manter tradição

Lucas Esteves

Do UOL, em Salvador (BA)

Nesta terça-feira (18), o afoxé Filhos de Gandhy comemora 65 anos de história no Carnaval de Salvador com uma grande missa na Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho. Fundado por estivadores em 1949, o bloco é hoje patrimônio cultural imaterial do Brasil e o grupo de afoxés mais importante da folia baiana.

Ao longo deste tempo, o grupo lidou – e ainda lida – com a velocidade das transformações na sociedade e equilibra com determinado grau de sucesso as tradições acumuladas e a energia trazida por novos associados, o que força a mudança de alguns comportamentos. Um deles, talvez o mais famoso relacionado ao Gandhy aos olhos de quem não conhece tão bem o bloco, é a famosa troca de colares entre os integrantes do Tapete Branco da Paz e moças que acompanham o cortejo, com o objetivo de colecionar beijos.

Apesar de não considerar o fato como grave, a diretoria do bloco recomenda ao associado que não proceda desta maneira para não descaracterizar o grupo, alegando que os Filhos de Gandhy são, primeiramente, arautos da paz e não caçadores de recompensas amorosas. Mesmo assim, fazem-se concessões com quem "escorrega".

"O bloco tem um informativo do que o associado pode ou não fazer. Lá, ele é informado para não fazer uso de muitas bebidas alcoólicas, não se separar do grupo para manter o tapete branco, não colocar mulheres no grupo [o Gandhy é fechado somente a homens] e tratar bem mulheres, jornalistas e turistas de uma maneira geral. Mas, na hora em que a pessoa que veste o Gandhy se vê dentro do tapete, ela esquece tudo e se sente o verdadeiro 'rei do Carnaval'", explica o secretário do bloco, João Paulo Gomes.

Um jovem Gandhy de Salvador concorda com a avaliação, mas também tece críticas. O promotor de eventos William Guedes, 22, reconhece o poder que a fantasia do bloco tem junto ao público feminino, mas afirma que usá-la apenas com o objetivo de beijar as foliãs é um claro desrespeito às tradições. No entanto, ele não recusa quando uma garota pede colares em troca de beijos, mas garante que não sai no grupo por este motivo.

"Praticamente todo Gandhy faz isso. É uma tradição do bloco, não tem como fugir. Sempre houve esse costume dos Gandhys trocarem colares por beijos, mas eu não saio nele por isso. Saio para me divertir. No meu caso, chama a atenção um negro alto todo vestido de branco. Conheço pessoas que pegam 10, 15, 20, 25 mulheres por dia só porque estão no Gandhy. Muita gente que não faz a menor ideia da historia do bloco e o que ele representa sai só por isto", conta.

Reprodução/Facebook
Sempre houve esse costume dos Gandhys trocarem colares por beijos, mas eu não saio nele por isso. Saio para me divertir. No meu caso, chama a atenção um negro alto todo vestido de branco. Conheço pessoas que pegam 10, 15, 20, 25 mulheres por dia só porque estão no Gandhy.

William Guedes, 22, promotor de eventos que desfila no Filhos de Gandhy

Uma forma de tentar diminuir o uso "errado" da fantasia do bloco, segundo Guedes, seria investir em melhores critérios para a seleção dos associados. Ele afirma que muitas pessoas ganham as fantasias de presente e que têm acesso ao bloco de maneira indiscriminada, o que contribui para enfraquecer as tradições.

De acordo com o secretário do bloco, esta seleção já existe. Segundo João Paulo Gomes, cada novo associado do Filhos de Gandhy passa por uma entrevista e, se não passar pelo crivo da diretoria, tem seu acesso negado. Por outro lado, é permitida a venda de fantasias a não associados.

Mas para o promotor de eventos há outra razão para a dispersão que acarreta na paquera desenfreada. Segundo Guedes, o bloco é "chato".

"Eu mesmo, que saio todo ano, acho chato seguir no Gandhy até o final. A diretoria deveria investir mais em tocar musicas mais atuais, dar um diversão maior, até para as pessoas não saírem por aí fazendo isso". Pela tradição, os foliões do bloco cantam canções tradicionais que evocam a paz, além de uma série de pontos de orixás –cânticos do Candomblé--, tocados pela banda oficial em um microtrio.

Alfazema
Além dos colares, os Filhos de Gandhy trouxeram ao Carnaval de Salvador outra tradição peculiar: o costume de dar banhos de alfazema em quem passa pelo tapete branco e também nos locais atravessados pela multidão de Gandhys. O perfume é uma herança de Oxum, a rainha da nação Ijexá, que dá nome ao ritmo característico do afoxé.

"O banho de cheiro é em louvor a Oxum. Por Oxum simbolizar a fertilidade e a beleza, os devotos traziam presentes para ela, que são a pulseira, o brinco e a alfazema. E então os Gandhys usavam isto para lavar os locais por onde passavam", explica João Paulo Gomes. Na fantasia fornecida aos foliões todos os anos constam uma sandália azul, meias e turbante branco, a toalha adornada, fitas, flâmulas e um vidro de alfazema de 300 ml.

Como a previsão deste ano é de que cinco mil associados saiam às ruas no bloco, ao menos 1.500 litros de alfazema devem circular na cidade pelas mãos dos arautos da paz. "Na verdade, muita gente enche de novo o seu frasco. O vidro de 300 ml é só o que nós fornecemos, mas todo mundo é livre para trazer quanta alfazema quiser", afirma o secretário.

65 Carnavais
Toda a programação do Filhos de Gandhy na folia deste ano está orientada para celebrar o aniversário do afoxé. A promoção da paz, mote inicial do grupo desde o longínquo ano de 1949, continua sendo o motivo principal por trás do desfile. A partir disso, o bloco foi desenvolvendo outras tradições, inclusive as ligadas ao Candomblé, como o uso da alfazema e os colares brancos e azuis.

O Filhos de Gandhy foi criado por estivadores que não tinham condições financeiras de colocar na rua um bloco com os padrões da época. Como desejavam ardentemente desfilar nas ruas do centro naquele mês de fevereiro, resolveram sair de uma maneira mais simples. Ao mesmo tempo, porém, enfrentavam um tempo político.

Em 1949, o Sindicato dos Estivadores de Salvador vivia uma intervenção governamental e os atritos com a polícia eram frequentes. Como então, criar um bloco de estivadores que, aos olhos da lei, não parecesse uma provocação às autoridades? O fundador Durval Marques da Silva, conhecido como Vavá Madeira, deu a solução.

"Vavá, na época, tinha ido ao Cine Jandaia e assistiu a um filme que falava de Gandhi. E então, em uma das reuniões, ele citou o filme e os colegas gostaram da ideia", conta João Paulo Gomes. A ideia de promoção da paz foi abraçada e, logo após, criou-se a vestimenta básica do folião Gandhy, com o lençol branco dobrado pelo corpo. O turbante seria feito com uma toalha dobrada na cabeça. Como não tinham nenhum dinheiro, os Gandhys originais recorreram às prostitutas da região da Cidade Baixa, que lhes doaram lençóis.

Com o passar do tempo, outros detalhes foram sendo acrescentados. Originalmente, o bloco não era um Afoxé. "Acabou acontecendo de muitos associados da primeira leva serem do Candomblé e, por ele não ser um bloco de verdade e nem ser de cordão, a presença destas pessoas fez com que ele fosse classificado como afoxé. Mais tarde, acabou se associando internamente as cores brancas (vestimenta) e azul (turbante) com os orixás Oxalá e Ogum", conta o secretário do grupo. O mesmo vale para os famosos colares de contas das mesmas cores, trazidos ao grupo pelos devotos da religião afro.

Serviço
Filhos de Gandhy
Fundação:
1949
Associados: 5 mil (somente homens)
Quando: dom. (2/3) e ter. (4/3), no Campo Grande; seg. (3/3), na Barra-Ondina
Quanto: R$ 400 (sócios) e R$ 470 (não sócios); as fantasias dão direito aos três desfiles

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