Coreógrafa da Rosas treina sedentários para compor a comissão de frente

Felipe Abílio

Do UOL, em São Paulo

Há oito anos coreografando alas na Rosas de Ouro, Taiana Freitas aceitou o desafio de montar a comissão de frente da agremiação para o Carnaval 2015. Responsável pela primeira vez por um quesito, a educadora física decidiu complicar um pouco mais o desafio ao escolher um elenco composto só por pessoas da comunidade sem nenhum preparo profissional, ao invés de pegar bailarinos experientes. Empolgada e emocionada, Taiana contou um pouco da saga de execução desse plano audacioso.

"Escolhi pessoas sedentárias, que nunca fizeram atividades físicas, algumas que não estavam em forma, que nunca tiveram contato com a dança. Foi um trabalho árduo e bem intenso de sete meses, tive que treinar desde a mão, o rosto, a cabeça, a postura, o condicionamento, trabalhamos nos mínimos detalhes para construir tudo", contou.

Junior Lago/UOL
Taiana não desgruda o olhar dos integrantes durante o ensaio, cada imperfeição é corrigida na hora
Com o enredo "Depois da Tempestade, O Encanto!", a escola viaja através de suas alas mostrando que, após quatro anos sem levar o título, 2015 pode ser a virada deste jogo. Acompanhando a ideia da agremiação, Taiana teve que encarar as dificuldades de frente meses antes com seus novos futuros bailarinos.

"No início teve gente que queria desistir, mas não desistiram. Montei um elenco com pessoas que, apesar de não serem bailarinos, estavam acostumadas a serem puxadas, carga horária, treinamento. A parte do trabalho físico é importante, mas tem o emocional também, eles saem de um dia de trabalho, cansados para ensaiar, mas acima disso tudo tem muito amor e pessoas que valorizam muito isso", explicou. "A gente ensaiava três vezes por semana, cinco horas, nos primeiros quatro meses, de novembro para cá são sete dias na semana, sete horas por dia. Não é apenas a coreografia ou as atrações, mas envolve os detalhes. Eu sempre fui avaliada por competir a vida toda, e eu cobro isso deles".

Filha do carnavalesco e ex-atleta Jorge Freitas, Taiana começou cedo na carreira de ginasta e deve mostrar seu profissionalismo através de seus pupilos na avenida.

"Treinei por 15 anos. Meu pai foi atleta, meu irmão foi atleta, todo mundo na área do esporte, não é à toa que sou educadora física e estou me especializando em ginástica artística. E não poderia deixar de trazer para a comissão de frente um pouco da minha trajetória".

Mas nem toda sua experiência a poupou do medo de que o plano não saísse como o esperado.

"Se você assistir um vídeo do primeiro mês de ensaio deles, eu olhava e chorava, não sabia o que fazia com o elenco, fiquei desesperada, mas hoje, sete meses depois, é muito lindo ver a evolução de cada um, o crescimento deles. Eles estão prontos", disse com os olhos marejados. "Este é o desafio da minha vida, aliás, está sendo. Não durmo mais, a insônia está sendo a minha melhor amiga, mas estou aguentando para o grande dia, vem o cansaço, mas vem a emoção também".

Cinthia Millet, de 26 anos, desfila na Rosas desde pequena e, apesar do sonho de participar da comissão de frente, não achava que isso aconteceria um dia.

"É um sonho que está se realizando. Pensei em desistir no início porque tem que ter muita dedicação, você tem que mensurar o seu trabalho normal, mais os ensaios todos os dias, os horários, trabalhar no dia seguinte, mas a Taiana que me incentivou totalmente, dando força".

Cinthia viu não só sua rotina mudar como o número de seu manequim. Em sete meses de ensaio duro, ela perdeu 12 quilos e comemora.

"Eu só pagava a academia mais não ia e comia de tudo. Mas desde que começamos a ensaiar, comecei a mudar a minha alimentação com coisas mais saudáveis. Todo mundo que me vê fala que eu emagreci e eu falo que é a comissão de frente. E vou emagrecer mais seis quilos, quero manter durante o ano".

Junior Lago/UOL
Ricardo Fernandes, de 33 anos, se preparou assistindo vídeos, além dos ensaios na quadra
Ricardo Fernandes, de 33 anos, é um dos mais dedicados e, além de ensaiar exaustivamente, se preparou de outras formas.

"Já tinha me apresentado com dança, mas nada profissional. Começamos a ensaiar em julho e não tivemos um minuto de descanso, se não era ensaiando, estava estudando, vendo vídeos, experimentando coisas. 2015 vai ser um divisor de águas para mim, não é qualquer pessoa que conseguiria chegar onde estamos chegando".

Além da dedicação e treinamento, Ricardo contou que o papel como incentivadora de Taiana foi essencial para o sucesso da comissão.

"A parte física foi bacana, mas ela nos preparou para que a gente conseguisse pisar na avenida de verdade, ela fez isso com muito amor e dedicação. Foi uma mãezona para nós".

Supresas na Avenida

Com um carro de comissão de frente de cinco toneladas, a Rosas vai fazer um de seus integrantes desaparecer oito vezes. O UOL acompanhou um ensaio escondido em pleno sambódromo do Anhembi em uma madrugada com muito vento na última semana e viu de perto a realização o truque.

Junior Lago/UOL
Ana Carolina Rocha, de 26 anos, vai sumir e aparecer em um truque de mágica durante o desfile
Ana Carolina Rocha, de 26 anos, tem o biotipo mais cheinho, mas isso não impediu que Taiana a colocasse na missão de desaparecer em uma parte do carro e aparecer do outro lado em pleno desfile.

"Foi um desafio enorme, uma grande oportunidade porque, querendo ou não, o biótipo pega na sua disposição, mas a Tai confiou em mim. Acreditou que está dando certo, pelo menos tem o retorno tem sido muito bacana".

Para não fazer feio, a agremiação contratou os mágicos renovamos Klauss e Henry Vargas para dar o toque especial ao show que a comissão de frente pretende mostrar.

"Foi um trabalho muito bacana, estamos acompanhando a coreografia, a evolução dos integrantes, só temos a agradecer esta experiência nova que vai deixar o Carnaval bem mais legal. Mágica é aquela coisa que todo mundo gosta. Vamos chegar com inovação e fazer diferente", disse Henry.

"Foi um desafio de alinhar os fatores, o Carnaval tem vários quesitos, mas não existe o quesito mágica, então estamos entrando com isso. Tivemos que alinhar a mágica com a fantasia, com a coreografia, com o enredo, então passamos a pensar no espetáculo. Tivemos barreiras técnicas, mas o maior desafio foi unir a mágica com esse espetáculo gigantesco que é o Carnaval", avaliou Klauss.



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