Lendário casal de mestre-sala e porta-bandeira é homenageado na Imperatriz

Fabíola Ortiz

DO UOL, no Rio

Foram 25 anos como casal de mestre-sala e porta-bandeira, período no qual foram conquistados seis dos oito títulos da Imperatriz Leopoldinense. Depois de uma década distante da agremiação de Ramos, no Rio de Janeiro, o lendário casal Chiquinho e Maria Helena retorna à verde e branca como homenageado pelo carnavalesco Cahê Rodrigues, no quinto carro alegórico.

Por onde passam, Chiquinho e Maria Helena são reconhecidos e reverenciados pelos colegas de outras agremiações. É só pisar na Cidade do Samba que a cada instante são abordados com demonstrações de carinho de amigos e admiradores.

Já na contagem regressiva para os desfiles do Grupo Especial, o casal que se eternizou na Marquês de Sapucaí posou para o UOL, ensaiou movimentos e contou sua história no mundo do samba. Trajetória de vida que deve virar livro.

Mais conhecido como Chiquinho, José Francisco de Oliveira Neto, 51, é o filho. Maria Helena Rodrigues, 68, a mãe. Ela tem cinco décadas de dedicação ao Carnaval, sendo que metade passou ao lado do filho primogênito, dividindo a parceria e a responsabilidade de abrir o desfile na Sapucaí pela Imperatriz.

"A minha vida todinha foi ser uma porta-bandeira. Nem me lembro exatamente quantos anos tinha quando comecei como porta-estandarte em blocos. Na minha época, para ser porta-bandeira de uma escola grande tinha que passar por porta-estandarte antes", conta Maria Helena que já defendeu blocos históricos como "Quem Quiser pode Vir", "Cometas do Bispo" e "Boi da Freguesia".

Trajetória no Carnaval

Aos poucos, Maria Helena conquistou visibilidade no meio das escolas de samba. De segunda porta-bandeira, assumiu o posto de primeira. Antes da parceria com o filho, foram 10 anos desfilando com seu professor Bagdá.

Antes de chegar à Imperatriz, em 1981, Maria Helena passou pela Unidos da Ponte, Unidos da Tijuca, Império da Tijuca e União da Ilha do Governador. Foi nesta última agremiação, da Ilha, que Maria Helena ganhou projeção durante três anos.

"Como eu já morava em Ramos, optei depois por entrar na Imperatriz. Na época, meu filho disse que queria ser ritmista e eu falei que não seria coisa nenhuma. Eu disse 'você vai me acompanhar'", lembrou.

Chiquinho ri quando a mãe conta essa história. Ele assumiu o posto de primeiro mestre-sala ao lado da mãe em 1984. "O samba é minha raiz, eu tinha que acompanhá-la. A história da minha mãe é muito séria. Ela veio de São João Nepomuceno, no interior de Minas, para o Rio. Morou na rua comigo e nunca me abandonou mesmo em todas as dificuldades que teve na vida. E também nunca me abandonou para se divertir no Carnaval."

O filho trata a mãe como um ícone. "Eu a reverencio pela garra, luta e perseverança. Ela nunca desistiu. Se dependesse de mim, eu já tinha largado isso há muitos anos", admitiu.
Mesmo com uma vida dura e de privações, o filho lembra com carinho da infância, quando via a mãe rodar com o estandarte. "Quando ela dançava era muita alegria. Eu nem tive chance de escolha: foi ela quem decidiu me colocar como mestre-sala. A minha mãe apostou em mim", comentou.

Questionada sobre o significado do Carnaval, Maria Helena fala com carinho do mundo do samba. "A dança e o Carnaval tocaram a minha vida, eu até quis dar uma de passista, mas não me sentia bem porque nem sabia sambar, e tinha que dançar pelada", riu.

Zulmair Rocha/UOL
Chiquinho e Maria Helena relembram a trajetória na Marquês de Sapucaí

A dispensa

Depois de 25 carnavais juntos, a folia de 2005 terminou com tristeza, quando Maria Helena e Chiquinho foram dispensados da Imperatriz sem muitas explicações. Na versão da mãe, a demissão foi motivada por dois carnavais seguidos em que o casal não conseguiu a nota 10 de todos os quatro jurados. "Não teve anúncio de despedida. Naquele ano, antes mesmo do desfile, eu já imaginava que a gente seria dispensado, que a gente iria dançar".

Maria Helena relembra o episódio da demissão ainda com mágoa e admite que, uma década depois, o luto ainda não cicatrizou. "Eu finjo que passou, mas sinceramente não passou. Eu já estava me preparando para deixar o posto e também estava preparando a minha filha para ficar no meu lugar. Queria passar o bastão para ela. Era uma questão de dignidade, mas não me deram a chance", lamentou.

Já na versão de Chiquinho, que soube da dispensa por meio de um conhecido, por uma mensagem de internet, houve descaso. "Uma falta de carinho e respeito pela dedicação tão grande da minha mãe. Faltou ética pela história que nós fizemos juntos e ajudamos a ganhar seis títulos com notas positivas", argumentou.

A saída do casal, contudo, não significou a aposentadoria do Carnaval. Chiquinho e Maria Helena continuaram nos dois anos seguintes a desfilar pela escola Alegria da Zona Sul, do Grupo de Acesso.

Ao longo dos anos, escolas como Portela, União da Ilha e Mocidade os assediaram, mas tanto mãe quanto filho ainda sentiam o impacto de terem sido dispensados e recusaram os convites. "A gente ainda estava tentando assimilar o que havia acontecido. Em respeito a nossa escola, preferimos não aceitar os convites", disse Chiquinho.

O retorno

O carnavalesco Cahê Rodrigues sempre fez questão de relembrar a história de Maria Helena pelas escolas por onde passou. Hoje Cahê assina o enredo "Axé, Nkenda! Um ritual de liberdade. Que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz!" na Imperatriz, e resolveu fazer um convite especial ao eterno casal de mestre-sala e porta-bandeira.

Desta vez, eles sairão como destaque na quinta alegoria e irão vestir as roupas que usaram no Carnaval de 2000, o penúltimo campeonato da escola. A carnavalesca na época era Rosa Magalhães e o enredo "Quem Descobriu o Brasil Foi Seu Cabral, no Dia 22 de Abril, Dois Meses Depois do Carnaval".

"Esse ano a gente vai ser homenageado na Sapucaí, vai tirar a má impressão e a mágoa. A homenagem vinda da própria escola é um gostinho de vitória", ressaltou Chiquinho. O casal reviverá os momentos em que, naquele ano, conquistou o título, e vestirá a mesma indumentária de estilo africano.

Só a roupa de porta-bandeira pesa cerca de 50 quilos, mas Maria Helena nem parece se importar. "A roupa tem muito bordado e pedras africanas pesadas. Eu a vesti há 15 anos", sorri.
O casal também deverá sentir a ansiedade e o nervosismo de pisar no Setor 1 antes de dar início ao desfile. A verde e branca será a penúltima a desfilar na segunda noite do Grupo Especial. Mas dessa vez, sem a pressão dos jurados e a corrida pelas melhores notas.

"Agora é ser feliz, passar na avenida e brincar. Mas o friozinho é inegável, mesmo depois de tantos anos. Quando minha mãe entra rodando na avenida, o público vem abaixo. Parece que foi ontem que a gente parou", disse Chiquinho.

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