Duas visões: O "caso Aladdin" e o campo minado das questões raciais

Ricardo Calazans e Rodrigo Pinto

  • Thinkstock/BBC Brasil

No últimos dias, a foto de uma família em um bloco de Carnaval viralizou e provocou um intenso debate sobre racismo nas redes sociais. O motivo: nela, um menino negro de dois anos, filho adotivo de um casal de pele clara, está vestido de macaquinho, e o pai, de Aladdin.sadasd

Confira, abaixo, duas visões distintas sobre o caso.

'Vigilantismo intimida debate na internet', por Ricardo Calazans, colaborador da BBC Brasil

"Foi julgado, condenado, executado sem direito a apelação"*

O pai não quer mais falar com ninguém. Nos últimos dias, sua família teve mais exposição do que poderia suportar. Mesmo para ele, um ator, acostumado ao palco e a plateias. No último domingo (7 de fevereiro), foi fotografado vestido de Aladdin ao lado mulher, que ia de Jasmine, a um bloco de Carnaval. Em seu ombro estava o filho adotivo, de 2 anos, fantasiado de macaquinho Abu ? os três caracterizados como os personagens do desenho da Disney.

A questão é que a criança é negra. E este fato determinou a condenação sumária de Fernando como racista.

"Foi dissecado, comentado e açoitado pelas línguas no Leblon"*

A família é de Belo Horizonte, mas o assunto repercutiu em todo o país: na Savassi, no Leblon, na Vila Madalena, em São Luiz do Maranhão (onde alguém sugeriu que a Justiça lhes tomasse a guarda da criança)... De uma hora para outra, eles eram um casal racista que vestiu o menino de macaco no Carnaval para humilhá-lo publicamente. Esta foi a conclusão imediata da patrulha ideológica que se formou em torno deles. E o pai foi o principal alvo do linchamento virtual.

"Descontrolou-se porque algo estava errado mas ninguém deu atenção"*

Após a enxurrada inicial de críticas e xingamentos, iniciou-se uma batalha feroz nas redes sociais. Vestir o filho negro como um macaquinho da Disney é ou não é racismo? Houve quem argumentasse que não, afinal, se o casal fosse racista, por que adotou uma criança negra?

Clichês como "o preconceito está nos olhos de quem vê" foram repetidos e repelidos com veemência. Os defensores "brancos" do pai foram descartados sumariamente, por "não ter a vivência" para "entender o preconceito racial". O espaço para o debate escasseou.

Reprodução/BBC Brasil
Postagem no Facebook em que o pai do menino desabafa sobre as críticas na internet
Na noite de segunda-feira, o ator pediu desculpas aos eventuais ofendidos e contextualizou as fantasias em um post no Facebook:

"Muitos podem ver um macaco na fantasia de ontem. Eu vejo o melhor amigo do Aladdin, que vai conhecer o Mundo Ideal com ele e a Jasmine". Recebeu muito apoio de amigos e desconhecidos, mas continuou sob ataque. Passou a ser taxado de ingênuo, ignorante ou mal-intencionado, e não se livrou do rótulo de racista.

"Ele se preocupou com a própria reputação, desprezando totalmente os danos que causou à dignidade do próprio filho", atacou um usuário. Enquanto isso, a foto do pequeno garoto circulava livremente pela web, compartilhada primordialmente por quem queria defendê-lo ao apontar o "racismo" (agora involuntário) de seu pai.

"E finalmente foi traído e viu seu nome publicado no jornal."

"Aladdin" foi um dos termos mais procurados no Twitter no início da semana. Agora mesmo, uma busca no Google com as palavras "Aladdin" e "racismo" retorna 53,8 mil resultados ? os 17 primeiros são notícias sobre o episódio.

Na quarta-feira, o pai fez um novo post, bem mais soturno que o de segunda-feira. "A sensação de que alguém morreu... Na verdade não foi alguém alguém... foi algo... o idealismo é utópico! Agradar a todos também.".

A pedido da mulher (e por orientação de seu advogado), ele não quer mais falar com a imprensa. Tem esperança de que "a coisa esfrie naturalmente". "Estou numa posição em que, infelizmente, o silêncio parece a melhor maneira de tentar preservar a minha família neste momento", relatou, nesta quinta-feira, também pelo Facebook.

"É o veneno que sai, é o veneno que sai"*

O desejo de recolhimento é compreensível. Ele foi a mais nova vítima do "vigilantismo" que domina as redes sociais. Ou "internet social", como a chama Wilson Gomes, Professor Titular de Teoria da Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que saiu em defesa do ator e sua família.

Ele questionou a submissão dos ativistas a signos racistas como a associação de negros a macacos. "Se entregarmos voluntariamente ao racismo as senhas das associações que nos humilham e diminuem, o nosso mundo não ficará mais restrito e não nos tornaremos, paradoxalmente, servidores do racismo que desprezamos?", diz Gomes, que é negro.
Reprodução/BBC
Debate sobre o caso movimenta rede social
Um amigo também se espantou com a virulência, velocidade e falta de contexto nos ataques ao pai, mas o fez privadamente. A uma pessoa que pediu para compartilhar seu texto, ele disse: "não coloco essa pensata com status 'público', pois mudar o mundo das redes sociais é uma luta perdida".

É mais um a temer o vigilantismo, que empobrece o debate e expulsa o pensamento e o contraditório onde ele é mais necessário: discutir o racismo, por exemplo, para além das curtidas e aprovação da própria timeline.

"E te faz o pior entre os iguais nos tribunais de qualquer bar"*

O professor Wilson Gomes me explica: "Muita homogeneidade e muita convicção tornam o indivíduo um mobilizado perpétuo, patrulhando continuamente as fronteiras da sua causa". Quanto mais fechado em si o ativismo, mais o dogmatismo e a preguiça intelectual ocupam o espaço da divergência e da reflexão.

Para meu amigo, é uma "luta perdida". Afinal, quem admite perder uma discussão no Facebook?

"Nas ondas de ataques das redes de ativismos e de vigilitantismo online, perde-se o argumento, perde-se a verdade, perde-se o contato com justiça e democracia, o que não se admite perder é a razão", diz o professor, antes de concluir, com pesar: "Que se dane a família, que ama e ampara um menino negro que escolheu para amar, que se dane a verdade, no nosso turno de guarda os racistas não triunfarão, parece dizer o paradoxal linchamento online deste Carnaval".

*As frases antes do 1º, 2º, 3º, 5º, 6º e 8º parágrafos são versos da canção "Tribunal de Bar", dos Paralamas do Sucesso, lançada em 1991 (!) no álbum "Os Grãos".
Thinkstock/Reprodução
'Uma foto infeliz', por Rodrigo Pinto, repórter da BBC Brasil

Quando vi a foto de um pai, a esposa e o filho circulando em redes sociais, não precisei ler o enunciado dos posts nem o conteúdo (majoritariamente raivoso) dos comentários. Estava claro que o compartilhamento daquela foto (a que eu vi tinha os personagens do filme Aladdin ao lado, para comparação) engatilharia uma imensa polêmica on-line sobre racismo envolvendo a família que, depois vim a saber, era de Belo Horizonte.

No entanto, no passar dos dias, espantei-me com o fato de que muitas pessoas se prontificaram a minimizar os efeitos da foto - em uma confusão entre o que ela pode representar para muitos, e o que ela de fato representa para a família.

Argumentos como "eles adotaram uma criança negra, portanto, não podem ser racistas", "ninguém conhece esta família para julgá-la", ou, ainda, "isso é só uma fantasia de carnaval" foram usados para pedir "uma reflexão" e o "fim do patrulhamento".

Ora, seria de fato contraditório alguém que se sente racista (e, portanto, é racista) adotar uma criança com cor de pele diferente da sua. Também é evidente que os milhares de compartilhamentos da imagem não estavam sendo feitos por pessoas que conheciam a história familiar em questão. Seria matematicamente impossível. E, sem maiores, Carnaval é uma festa que desafia limites. Mas é preciso ter em mente que, sim, há limites que determinam o que é ou não racismo.

Devo concordar com a ativista sul-mato-grossense Angela Batista, ouvida em reportagem publicada pela BBC Brasil em 9 de fevereiro, sobre fantasias de Carnaval com motivos black power: quem define o que é preconceito, segregação, é a parcela da população ou o indivíduo que se sente vitima. Então, na dúvida, melhor evitar possibilidades de ofensa.
Reprodução/BBC
Mais comentários sobre a polêmica
Curiosamente, nos comentários sobre a matéria sobre a ativista em redes sociais, havia gente dizendo coisas como "é falta de prato pra lavar", ou "daqui a pouco vai ser racismo você ter escolhido um iPhone branco ao invés do preto"... Ou, ainda, "se fantasie de trouxa então, filha, o Carnaval é lúdico e podemos usar o que quiser".

A inconsequência, seja qual for a data do ano, nos exime, então, de refletir sobre se alguém se sentiria ofendido com nossos atos ou comentários?

Voltando ao caso de Belo Horizonte, a família foi pega, inadvertidamente, e não intencionalmente, em uma espiral de acusações que diz muito, sim, do preconceito racial no Brasil - e da falta de tato com que muita gente trata do assunto. Foi uma foto como os desdobramentos provaram profundamente infeliz e ofensiva para muitos.

Solidarizo-me com o pai, que veio a público depois se explicar. Foi honesto.

Talvez, agora, ele tenha entendido que racismo não é necessariamente consciente, premeditado. Nem para quem pratica, nem para quem sofre. Depende de interpretação e está impregnado de vasta carga histórica e simbólica. Tomar precauções para que não seja nem exercido nem sentido é algo que deve estar na cabeça e nos corações de todos. Todo cuidado é necessário para mudar uma história multicentenária de segregação racial.

Negros vivem menos, ganham menos, estudam menos e são mais aprisionados. E isso tem implicações sérias sobre ser negro neste país - e em outros. Ter amigos, parentes, filhos, namorados negros (ou de qualquer raça distinta da nossa) não basta como argumento de que não somos racistas, como muitos alegaram ao relativizar a gravidade da foto.
Angela Batista
"Mas não cabe aos brancos determinar o limite do que é tolerável ou não", disse a ativista Angela Batista em entrevista à BBC Brasil
Isso porque a falta de cuidado com o tema é latente. Pego um exemplo na imprensa, para não envolver outro segmento distinto do que atuo profissionalmente (a autocrítica, suponho, é uma boa política).

Lembro-me de uma reportagem de um telejornal que mostrava uma suposta cena de racismo em um shopping de São Paulo. Dava ampla voz à vitima, uma mulher negra que trabalhava no local.

Ao final, porém, o repórter, inadvertidamente, dizia, referindo-se ao homem que perpetrou as ofensas, que "este descontrole emocional, especialmente nesta época do ano, tem explicação". E seguia citando coisas (estacionamento, presentes, calor...) que justificariam a "ataque de fúria" do homem, acusado por duas testemunhas ouvidas pela TV de racismo.

O jornalista é racista? Não faço a menor ideia. Mas foi infeliz e acabou proferindo um texto racista ao fim da matéria? A meu ver, sim.

E, neste ponto, volto à questão do patrulhamento.

Um dos caminhos para combatermos o racismo é assumirmos de vez a crítica como ferramenta. A democracia precisa se aperfeiçoar no Brasil. E, com ela, a ideia de que a crítica deve ser respeitosa e, no outro lado da linha, ouvida com o mesmo respeito.

Sob estes termos, criticar não é patrulhar, não. Muito pelo contrário. Aliás, ideia de patrulha é o pior argumento contra qualquer crítica. Desqualifica um lado do debate - e nada mais antidemocrático do que isso. E, lembro, liberdade de expressão também presume a possibilidade de criticar quem critica, e vice-versa. Sem parar.

Temo que seja justamente esta compreensão, a de que criticar é patrulhar, que vem fazendo o debate no Brasil sobre diversos temas escasso, para não dizer estéril. Não seria melhor ouvir, filtrar ou mudar, e avançar?

Para além do diálogo aberto, também é preciso adicionar a esta conta o novo entendimento do que é espaço público. Algo que, muitos dos que reclamaram das críticas à família ignoraram.

Mostrar uma imagem em redes sociais não é o mesmo que mostrar uma fotografia (em papel) a amigos no sofá de casa. Leia os termos de uso dos sites e você verá que esta ideia foi pras cucuias. É preciso tomarmos ciência da irrevogável ao menos por ora abrangência das redes sociais.

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