Rio de Janeiro

Compositores campeões gastam mais de R$ 100 mil para emplacar samba-enredo

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, do Rio

  • Francisco Silva/AgNews

    Cris Vianna e compositores na festa de lançamento do CD com os sambas-enredo das escolas do samba do Grupo Especial do Rio

    Cris Vianna e compositores na festa de lançamento do CD com os sambas-enredo das escolas do samba do Grupo Especial do Rio

Até chegar à condição de trilha sonora do desfile de uma escola de samba, o samba-enredo passa por uma verdadeira epopeia. Surgida através da sinopse elaborada pelo carnavalesco, a obra é selecionada em uma disputa acirrada dentro das agremiações que se estende, na maioria das vezes, entre os meses de julho e outubro em uma série de eliminatórias semanais.

O que era, há cerca de 30 anos, uma competição modesta e definida pela aceitação dos sambas diante das comunidades, hoje se tornou uma verdadeira indústria. Os compositores das escolas cariocas gastam quantias consideráveis para ter o sonho de ver seus sambas entoados pelos componentes e público do sambódromo.

Para conquistar os votos dos diretores das escolas, os compositores investem, semanalmente, em realizar um verdadeiro show nas quadras. Para cantar o samba, intérpretes consagrados de outras agremiações. A empolgação é garantida por centenas de torcedores, com ingressos, cerveja e condução bancada. Muitas parcerias de autores também investem em espetáculos pirotécnicos, bandeiras, camisetas e até mini-carros alegóricos durante suas apresentações. E a conta chega bem salgada. "Gastamos em torno de R$ 120 mil para vencer a disputa no Salgueiro", afirma Marcelo Motta, um dos autores do samba que embalará o desfile da vermelho e branca.

O Salgueiro, que tem uma das quadras mais frequentadas do carnaval carioca, adotou para o Carnaval 2016 um sistema diferente em sua disputa. Ao invés das eliminatórias sucessivas, em que dois ou três sambas são afastados da competição a cada final de semana, resolveu dividir os 45 concorrentes em quatro chaves. Em seguida, classificou 16 sambas e os eliminou, semanalmente, em chaves de "mata-mata", como na Copa do Mundo. A medida visou diminuir os gastos dos compositores. "Gastávamos, nos anos anteriores, em torno de R$ 170 mil. Como nos apresentamos por apenas sete vezes, ao contrário das 12 habituais, conseguimos gastar menos", explica Marcelo.

Não tem jeito. Hoje, para se ganhar um samba-enredo no Grupo Especial, não se gasta menos de R$ 100 mil. E a culpa é nossa mesmo. Gustavo Clarão, um dos autores do samba da Unidos da Tijuca.

Compositor renomado, com várias vitórias na Estácio de Sá, Beija-Flor, Mangueira e Viradouro (escola do Grupo de Acesso da qual atualmente é presidente), Clarão é taxativo quanto à necessidade dos gastos. "Não precisávamos gastar tanto. Mas, quando você vê os concorrentes abrindo os cofres, você tem que investir também, senão fica para trás", ressalta.

Como dirigente, Clarão acha que grande parte da parafernália apresentada pelos compositores é desnecessária. "Eu avalio como o samba se apresenta. Se ele conta bem o enredo, se ele se presta ao nosso projeto de Carnaval e se os componentes gostaram. Falo para os compositores não gastarem tanto, que eu não vou levar isso em conta. Mas não adianta", relata.

Passo a passo

O festival de gastos começa assim que o enredo é lançado por meio da sinopse divulgada pela escola. Os poetas se articulam e, além de começarem a fazer o samba, têm de ter a calculadora em mãos para saber se podem ser competitivos. "Hoje em dia, é muito difícil formar uma parceria apenas com compositores. Tem que ter gente com dinheiro para investir. Nossa disputa durou apenas quatro semanas, mas gastamos em torno de R$ 45 mil", atesta André Diniz, compositor do samba da Vila Isabel em um parceria que conta com medalhões como Martinho da Vila, Arlindo Cruz e Mart´nália.

Os compositores estimam que, em uma parceria com cinco pessoas, apenas duas ou três fazem o samba. Os outros parceiros entram com o apoio financeiro ou logístico. Ter a capacidade de arregimentar torcedores e conseguir transporte também é interessante.
Em meio a esse cenário, surge uma questão: o que leva uma pessoa a bancar um samba-enredo? "A vaidade de ter o nome no CD, de dizer para os amigos que ganhou um samba numa escola do Grupo Especial", revela Diniz.

Samba pronto, o passo seguinte é a gravação. Um bom estúdio especializado não sai por menos de R$ 3 mil, sem contar o cachê dos intérpretes. Hoje, qualquer samba de parceria de ponta tem de um a dois puxadores de escolas do Grupo Especial, que cobram entre R$ 1 mil e R$ 2 mil por apresentação, seja no estúdio ou na quadra. Com a matriz do samba em mãos, surge o próximo passo: inscrever a obra na escola e copiar a maior quantidade de CDs possível para distribuir para amigos e torcedores. Estima-se que uma parceria campeã de uma escola carioca chegue a produzir 4 mil CDs, a um custo unitário de R$1.

Com a popularização das redes sociais, outra modalidade de divulgação ganhou muita importância: a gravação de vídeos e a sua viralização por meio de anúncios patrocinados. Atualmente, existem produtoras se especializando e preparando esse material a um custo de R$ 1 mil. Há compositores que chegam a gastar R$ 500 semanais com campanhas no Facebook.

Na quadra, o custo vai aumentando a cada semana. Um bom "palco" (equipe de intérpretes e músicos) não sai por menos de R$ 5 mil. Este é um gasto fixo, independentemente da fase de disputa.  Se, nas primeiras semanas, não há necessidade de uma grande torcida, à medida que a disputa se afunila, o gasto com torcedores é cada vez maior. Em uma grande final de samba-enredo, os compositores compram cerca de 500 ingressos, a um custo unitário de R$ 20. Fora a despesa com a cerveja para "animar" a torcida e o aluguel de vários ônibus para transportar grande parte dos torcedores.

Neste mercado, a cada dia surge uma nova modalidade de gasto para os compositores. A moda atual é a torcida contratada: "Atualmente, existem intermediários que arregimentam torcidas e cobram R$ 50 por pessoa. Muitos compositores lançam mão desse expediente", conta André Diniz, que é professor de História e tem sua claque engrossada pelos seus alunos em colégios e cursos preparatórios.

Ao final de todo esse processo, uma constatação: apesar de todos os gastos estratosféricos, os compositores vencedores ganham um valor apenas razoável pelo esforço, enquanto os derrotados ficam com o prejuízo. Apesar da grande vendagem do CD e da execução dos sambas na Rede Globo, o volume de gastos inviabiliza que os compositores tenham grandes vantagens econômicas. "Em 1989, quando venci pela primeira vez na Estácio, quase não gastamos. Levávamos apenas um ônibus, com amigos e parentes e alguns parceiros eram da comunidade e chamavam os vizinhos. Sem dúvida, o custo-benefício já foi maior", atesta Gustavo Clarão. "As pessoas não acreditam, mas a gente sofre. Ninguém vive de samba-enredo. A maior alegria é ver o samba na avenida", faz coro Diniz.

Estima-se que, após as deduções das escolas no valor arrecadado, cada parceria receba em torno de R$ 300 mil. Mas grande parte desse valor é comprometido com as despesas. "Temos que pagar todos os investidores e dividir os lucros. Não tiro mais do que R$ 20 mil. Dá para pagar as contas atrasadas e viajar com a namorada. Fico uma semana no Nordeste de patrão (risos)", diz Marcelo Motta.

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