São Paulo

Casal da Mocidade evita problemas da escola e mantém relação nota 10

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL

Uma mulher poderosa e um homem admirado. Ela é vaidosa, briguenta, tem sangue libanês e é movida por uma fé de dar inveja a quem acha que tudo cai do céu. Ele é tímido, tem cara de mau, pinta de médio-volante clássico e, ainda que não faça força para isso, tem lá um jeitão sedutor. Se já não lhes bastassem todos esses atributos, físicos e morais, ambos têm alta patente no mundo do samba. Ela é a presidente e ele é o mestre.

Personagens com essa riqueza costumam garantir o sucesso de nove entre dez histórias de amor, seja no cinema, na ficção, nos romances ou nas novelas. Difícil é encontrá-los na vida real. Mas não é que esse enredo de poder e glória, sedução e paixão, se encaixa direitinho nos destinos que, há 23 anos, selam o casamento de Solange Cruz e Mestre Sombra, o primeiro casal da Mocidade Alegre. Seria ilusão imaginar que uma união de tanto tempo fosse um eterno mar de rosas, mas os dois parecem que sabem carnavalizar a vida de marido e mulher para fazer dela uma experiência nota 10. Quase um conto de fadas.

Numa chuvosa manhã de quarta-feira, a reportagem do UOL Carnaval foi até a casa de Solange e Sombra para saber como eles vivem fora do ambiente do samba, onde, quase sempre, eles estão representando um papel difícil de encarar.

Solange, a respeitada presidente da Morada do Samba, é uma das poucas mulheres num círculo dominado por homens. Já Sombra leva nos ombros o peso de ser "o marido da chefe" e a responsabilidade inerente ao posto de comandante da bateria Ritmo Puro, tantas vezes premiada como a nota 10 nos julgamentos que deram à Mocidade seis títulos de campeão na última década. Longe da quadra, distante dos tamborins, em raros momentos em que não estão pensando em estratégias para ganhar mais um desfile, eles vivem a vida normal de um casal de classe média, sob o teto de uma espaçosa casa da zona norte de São Paulo, deixada de herança pelo pai de Solange, Carlos, um dos três irmãos fundadores da escola do Bairro do Limão. 

Lucas Lima/UOL
Mestre Sombra faz reparos na casa onde vive com Solange na zona norte de SP
Esqueça a casaca, a gravata alinhada, os sapatos tinindo de brilho, as unhas feitas, a barba aparada e aquele olhar de concentração absoluta que Mestre Sombra ostenta na avenida no dia do desfile oficial. Em casa, de tênis vermelho, calça jeans e camisa de jogar futebol, com direito ao nome estampado nas costas, o senhor Marcos Rezende dos Santos, o Sombra, amanheceu naquele dia mais para mestre de obra do que para mestre de bateria. Pilotando uma reforma na área externa da casa, ele trocou o apito com que marca o ritmo dos instrumentos por uma régua de nível para conferir o prumo de uma ferragem presa à parede. O único som ali era de uma furadeira, que em nada lembrava o compasso afinado de um naipe de tamborins. Mas, fazer o que, assim é a vida longe da ribalta.

Solange apareceu logo em seguida, com os olhos bem marcados por delineador preto, e o cabelo preso em coque. No pescoço, vários colares e adereços que já dão a letra de que ela é uma mulher que gosta de chamar a atenção. Ela mesmo se define como "pavão". E garante que sempre foi assim. Desde o tempo de menina, na escola, na missa, no teatro, nas festinhas de formatura, ela tomava a frente das coleguinhas como oradora oficial da turma. Depois do ensino fundamental, 15 anos de trabalho na área de telemarketing ajudaram a moldar seu arquétipo preferido: a líder da tropa, que se impõe no discurso, de preferência no olho a olho.

Deixar Solange começar a falar é um risco. Ela pode não dar a vez pra mais ninguém. Mestre Sombra, graças ao ouvido afiado das audições e ensaios da bateria, só escuta, praticamente calado. Em casa não é diferente. Com muito esforço, os dois tentam não levar para o lar os problemas que normalmente aparecem no barracão da escola, sobretudo  em véspera de desfile oficial. Nos últimos dias não deu para escapar de grandes debates sobre as estratégias que a escola vem estudando para impedir que um novo erro de evolução custe o campeonato, como aconteceu em 2015. Para não deixar nada escapar, Solange criou um grupo no WhatsApp que envolve a direção de Carnaval, chefes de alas e diretores de harmonia. Sabe que é ela quem manda, mas precisa do compromisso dos seus pares para a escola fazer bonito na avenida. "Sou um polvo com vários braços", se autodefine.

Em casa, Mestre Sombra tenta fazer um filtro dos problemas. "Ele é malandro", protesta Solange, revelando como o marido faz para impedir que ela se estresse com as pendências trazidas da quadra ou do barracão.
Quando a gente chega em casa e ele fica sabendo de alguma coisa ruim que rolou à noite lá da escola, só me conta no dia seguinte, pra não estragar a nossa noite 
Mestre Sombra consente, com um aceno de cabeça e uma risada que lhe escapa pelo canto da boca. Coisa de bom malandro ou seria mais uma tacada de mestre?

De fato, a Mocidade acaba absorvendo boa parte do dia - e da noite - de Solange e Sombra.  A rotina dos dois inclui jornadas de trabalho na escola que duram em média 14 horas diárias. Normalmente, Solange chega no escritório que mantém no barracão às 9 da manha e não raro volta à 2 da madrugada do dia seguinte. Focada, ela vai ao limite na implantação do sistema de gestão que transformou a Mocidade em uma empresa, com 12 funcionários fixos e centenas de temporários dependendo da época do ano, como agora em que o barracão está lotado de artistas, cenógrafos e artesãos vindos de Parintins (AM).

O marido é o primeiro a reconhecer a competência da mulher nesse processo de profissionalização da Morada do Samba. "Antigamente as escolas botavam muita fé naquele discurso de raça, amor e tradição. Só isso não ganha mais Carnaval. A Solange foi colocando regras corporativas que deram organização ao trabalho. Hoje, a Mocidade se vale dos efeitos positivos dessa gestão de resultados!" Bingo, depois dessa, dá até para ganhar um beijo da patroa!

Esse mestre é meu

Solange e Sombra curtem trocas de elogios. E tentam se proteger da cobiça alheia. Solange reconhece que o marido, pelo porte atlético, pela fama e pela posição que ocupa no cenário do samba paulistano, desperta interesse em outras mulheres. Mas que ninguém se atreva a uma investida, digamos, mais afoita. Solange lembra que, tempos atrás, num dos ensaios da bateria, notou que uma ritmista da escola não tirava o olho do seu marido. Ela avisou que se a rival insistisse no flerte ia rolar um barraco. Não deu outra: no terceiro domingo em que a moçoila bateu bumbo para Mestre Sombra, Solange, que ainda nem era a presidente da escola, pegou o microfone da quadra e desancou com a pobrezinha que só queria paquerar. "Aí, mestre, avisa essa garota que sua rainha de bateria sou eu!!!", bradou para ela e todo mundo na quadra ouvir.

Solange diz que no fim do ensaio, mesmo repreendida, a ritmista acabou se acertando com um chefe de harmonia. "Acho que ela queria arrumar algum diretor lá dentro, mas o meu não!", diverte-se. Se hoje ele recebe cantada, não me conta. Eu conto. E provoco, dizendo pra ele abrir o olho porque no Carnaval eu tô na moda. Solange Bichara, presidente da Mocidade

Se é feroz na defesa do patrimônio, Solange confessa que foi por meio de uma "furada de olho" que ela conquistou o coração do marido. Pior: roubou-o de outra namorada. A história que deu início a esse romance é digna de um samba-enredo. Sombra tocava no Camisa Verde e Branco. A esposa do mestre de bateria do Camisa, amiga de Solange, disse que um ritmista de lá era seu fã e até colecionava fotos suas. Eis que, dias depois, numa festa, os dois se cruzaram, mas Solange não sabia que ele era o tal admirador secreto. Quando soube, comentou com a amiga: "Nossa, que nego bonito!"

Só um tempo depois, numa outra festa na quadra do Rosas de Ouro, é que enfim eles trocaram uma ideia. Na verdade, mais que isso. Sombra estava com a namorada e não parava de olhar para Solange. Solange não parava de olhar para Sombra. Naquela que ele pediu licença pra namorada e foi ao banheiro, Solange foi na cola e tascou-lhe um beijo na boca. Vitoriosa, ainda tripudiou a rival.

"Limpa sua boca antes de voltar pra mesa. Sua namorada não usa batom e sua boca tá toda vermelha". Uau!

Sombra lembra que ficou desconcertado. Mas não reclamou. Pelo contrário, gamou. Um ano depois, estavam casados de papel passado, coroa, véu grinalda, aliança e planos para serem felizes para sempre como ocorre nos melhores carnavais dos nossos sonhos.

Solange confia em seus encantos e na honra do marido para manter o casamento sob o manto da fidelidade mútua. Mas, por precaução de levar uma punhalada pelas costas, revela que evita dar a bobeira que a namoradinha de Sombra deu no passado. Há 23 anos, pois, nunca se viu ela abraçada ao marido num local público, de costas para a plateia feminina. Vai que tem alguém que fique azarando o cara, como ela fez naquela noite...

A família do samba

Apesar das brincadeiras, das maledicências e dos riscos inerentes que rondam todos os casais, Solange e Sombra procuram sedimentar essa união, coroada com um filho hoje com 15 anos. "Como pessoas do samba nós estamos sempre muito expostos, mas todo mundo que nos conhece sabe que somos uma família e nos respeita dessa forma. A gente sempre faz questão de aparecer junto para deixar isso cada dia mais reforçado, patente", diz Solange, que faz questão de posar para as fotos no quintal de sua casa sendo beijada, numa face pelo marido e na outra pelo filho, Carlos Augusto, o mestre Sombrinha. E adivinhe o que Sombrinha quer ser quando crescer? Músico, claro. "Quero fazer faculdade de música, ler partitura", diz o garoto que já domina todos os instrumentos que compõem uma bateria. Seu preferido, por enquanto, é o surdo de terceira. 

Lucas Lima/UOL
Solange Bichara recebe beijo do marido Sombra e do filho Sombrinha

O respeito é a base que permeia a boa convivência dos três. E ajuda a explicar como duas pessoas de comportamento e personalidade tão diversas fiquem juntas por tanto tempo. Mestre Sombra define a relação dos dois como uma instalação elétrica que tem dois polos. Positivo e negativo? Não. "Ela é positivo e eu sou o neutro", diverte-se Sombra.

De fato, Solange parece sempre pilhada, não se incomoda com o assédio e se dá bem com os flashes da passarela. O marido é tímido por natureza, traz da herança paterna o hábito de falar pouco, é comedido nos gestos e nos sorrisos, e admite que sofre com essa coisa da fama. "Fico sem jeito de ser parado num lugar público pra tirar foto ou dar autógrafo", admite.

A mulher, ao contrário, vai ganhando espaço por conta de sua naturalidade e expansividade. Há pouco tempo, enveredou pelo lucrativo mercado das palestras de motivação e liderança e já é uma das estrelas emergentes do setor, com clientes que vão da Sabesp à Editora Abril. Já deu palestras ao lado de Luciano Huck e outras feras do segmento. No púlpito, mostra como a arte de gerir uma escola de samba, que aparentemente é um caos, pode ajudar empresas a catapultar a eficiência de seus negócios com um mínimo de organização, método e pulso firme do poder decisório.
Lucas Lima/UOL
Solange mostra o seu terço mais poderoso

A fé da presidente

Solange gosta de repetir a palavra de ordem que já virou um mantra na Mocidade Alegre: "A vitória vem da luta, a luta vem da força, e a força vem da união!" Pelo menos no samba, tem dado certo. Desde que assumiu a presidência, a Morada do Samba foi campeã seis vezes, vice-campeã três vezes e terceira colocada duas vezes. Talvez isso explique porque não exista espaço para o surgimento de uma corrente de oposição nas bases da escola. "A escola sempre passou de pai pra filho, não precisa nem de eleição", afirma Solange, que substituiu a irmã, Elaine, morta em 2003.

Se não fosse supercampeã na competência, talvez fosse na fé. Solange já virou personagem icônico das tensas apurações de notas das escolas do Carnaval paulistano. A cada nota de cada quesito, ela é flagrada pelas câmeras de televisão num ritual que mistura agonia, sofrimento, concentração e absoluta crença na ajuda divina. Com terços enrolados no braço, olhos cerrados, cabeça apoiada no ombro do marido, ela pede ajuda a todos os santos. Embora seja católica e formada em escola de freiras, sabe que o universo do samba se confunde com o sincretismo religioso que faz do Brasil um país de múltiplas crenças. A força e o poder dos orixás, base das religiões de matiz africana, estão interligados culturalmente aos terreiros de samba. A Mocidade, inclusive, tem um pai de santo próprio, que, segundo Solange, "abre os caminhos da escola" antes dos desfiles.

São Jorge, que no candomblé está representado por Ogum, é o santo dos batuqueiros _ e, não por acaso, protetor de Mestre Sombra. Solange é devota de Nossa Senhora Aparecida, daquelas de ir à Basílica fazer e pagar promessas umas quatro vezes por ano. Ela lembra que foi na escola Padre Moye, no bairro do Limão, ainda menina, que passou a acreditar no poder transformador da oração. Curiosamente, pagando castigo. Quando fazia algo de errado na escola, as freiras a mandavam para a capela rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. É daí que vem o hábito de rezar o terço. Ou os terços, que guarda em coleções dentro de casa. "A maioria ganho de presente", explica.

Trajetória na Mocidade

Solange acredita que essa proteção a faz mais forte para enfrentar o desafio de presidir a Mocidade. No princípio, o tio e ex-presidente da escola, Juarez, era contra a condução de Solange ao posto máximo da escola. Na sua visão, a sobrinha era muito briguenta, falava o que bem entendia, e esse comportamento não se encaixava num mundo de regras muito claras e dominado por homens de modos, digamos, nada maleáveis. Assumiu em 2003 e no ano seguinte ganhou seu primeiro título, tirando a escola do Limão de um jejum que já durava 23 anos. E recebeu do tio a joia que considera seu maior amuleto até hoje, até mais poderoso do que seus terços. Um cordão dourado, com uma medalha de um leão. "Ele passou a me chamar de leoa do samba", recorda-se, emocionada.

Juarez morreu praticamente na quadra da Mocidade, durante a apuração do Carnaval de 2009, que, por sinal, garantiu mais um título para a escola. "Ainda na apuração, eu vi pelo telão do Anhembi que uma ambulância do Samu entrou na quadra da minha escola, e não sabia o que estava acontecendo. Quando cheguei lá, com o troféu de campeão, soube que meu tio teve um ataque do coração". Uma semana depois, ele morreu no hospital.

Ironicamente, o enredo vitorioso cantado na avenida aquele ano falava das coisas do coração. Mais uma vez, o destino da vida de Solange Cruz quis que a vida imitasse o samba.

Veja o desfile da Mocidade de 2015
 
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