São Paulo

Judeus estreiam com dois sambas-enredos no Grupo Especial do Carnaval de SP

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

No respeitado time de compositores dos sambas-enredos das 14 escolas do Grupo Especial de São Paulo, dois nomes passam longe do estereótipo do artista nascido em berço do samba. Amigos de longa data, os judeus Ronny Potolski e Jairo Roizen emplacaram suas composições na Unidos do Peruche e na Pérola Negra, driblando qualquer preconceito.

Sem instrumentos musicais associados ao nome de batismo, como Oswaldinho da Cuíca, Jackson do Pandeiro e Royce do Cavaco; sem referências a orixás, santos e divindades, como Xangô da Mangueira, Waldomiro do Candomblé e Paulinho de Ogum; e sem combinações que adicionam 'ginga' à alcunha dos sambistas, como Neguinho da Beija-Flor, Nenê da Vila e João Batucada; a dupla viu a galeria de bambas se abrir para seus dois sobrenomes incomuns neste universo, e genuinamente judeus.

Potolski e Roizen estreiam no Anhembi com criações desvinculadas da cultura judaica. As escolas que eles representam tratam em 2016 de temas do Brasil – país onde ambos nasceram e foram criados. Na Unidos do Peruche, o enredo reverencia os 100 anos do samba. Criada juntamente com Marcelo Madureira, Alex Barbosa, Sukatinha, Bagé, Tubino, Igor Vianna, Thiago Sousa, Gilson, Kaballa, Victor e Meiners, a composição tem sido apontada por especialistas como uma das três melhores do ano.

Na Pérola Negra, com outros parceiros, Jairo Roizen emplacou o samba-enredo que fala sobre a dança. A composição faz um passeio pela história desta arte e por sua influência no país, e foi feita ao lado de Celsinho Mody, Guga Mercadante, Nando do Cavaco, Marcelo Zola, Sidney Arruda, Filosofia Diley e Xandinho Nocera.

Da sinagoga para a avenida

Arquivo Pessoal
Jairo Roizen (ao centro) na cerimônia judaica do casamento de Ronny Potolski e Thais Paraguassu

Ronny e Jairo têm muita coisa em comum, a começar pela história das famílias Potolski e Roizen. Ambas têm raízes na Polônia, Romênia e Lituânia, e vieram ao Brasil entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial em busca de oportunidades longe das zonas de conflito da Europa. Mesmo sem se conhecer, Ronny e Jairo trilharam caminhos quase idênticos em São Paulo.

Estudaram nos colégios judaicos Renascença e I. L. Peretz, curtiram o clube A Hebraica, frequentaram a Congregação Israelita Paulista (CIP) e outras sinagogas, e ouviram os conselhos do rabino Henry Sobel. Mas só foram se conhecer por meio de uma paixão brasileira: o samba. Eles foram unidos pelos bastidores das escolas de samba e por aquele certo glamour do Carnaval que nem todo mundo consegue entender – nem aceitar.

Os dois meninos judeus foram apresentados à maior festa popular brasileira ainda crianças. Jairo se lembra de ter visto o primeiro desfile pela televisão, em 1989, quando tinha 7 anos. Hoje, com 33, é capaz de reproduzir com detalhes a noite em que ficou com a avó grudado ao televisor para ver as escolas, que ainda desfilavam na Avenida Tiradentes. Ronny, 34 anos, também era vidrado nos desfiles do Rio exibidos pela TV. Sua primeira lembrança é de acompanhar uma transmissão aos 4 anos de idade. Com 12, quis viver aquilo mais de perto e passou a colecionar os discos dos sambas-enredo de Rio e São Paulo.

"A gente não celebra o Natal, mas em dezembro há uma festa judaica que também é marcada pela troca de presentes, a Chanuká (Festa das Luzes). Eu sempre pedia o CD dos sambas-enredo", recorda-se Ronny. Dali até virar um estudioso do Carnaval foi um passo, conhecendo de perto as escolas de samba de Santos, frequentando a X-9 Paulistana, na Zona Norte de São Paulo, e indo a desfiles no Anhembi e na Sapucaí.

Para Ronny, os três melhores sambas-enredo da história do Carnaval paulista são o da Rosas de Ouro de 1992 ("Non Duco, Duco - Qual a Minha Cara?"), o da Gaviões da Fiel de 1995 ("O que É Bom É Para Sempre") e o da X-9 Paulistana de 1997 ("Amazônia, a Dama do Universo"). No Rio, seu coração ainda pulsa quando ouve o enredo da Vila Isabel de 1988 ("Kizomba - A Festa da Raça"), da Mocidade Independente de 1992 ("Sonhar Não Custa Nada, ou Quase Nada") e o do Salgueiro de 1993 ("Peguei um Ita no Norte/Explode Coração").

Formado em Ciências da Computação, com duas pós-graduações em tecnologias ambientais e engenharia de software, Ronny ganha a vida como consultor de sustentabilidade. Mas dedica boa parte de seu tempo a um trabalho não remunerado, de diretor-executivo do site da Sociedade Amantes do Samba Paulista (www.sasp.com.br) criado há 15 anos com o propósito de manter acesa a chama do samba no estado, um dia injustamente chamado de Túmulo do Samba.

"Com o site, passei a viver o Carnaval intensamente", diz Ronny, que também se casou com a porta-bandeira Thais Paraguassu, hoje na Unidos do Peruche. Começaram a namorar em 2008, quando ela ainda desfilava pela Tucuruvi, e subiram ao altar em abril de 2015. A noiva se converteu ao judaísmo e reforçou a ainda tímida ala dos judeus no samba paulistano.

A enredo da vida de Jairo não é muito diferente. Depois de amargar a decepção de ver os desfiles do Grupo Especial de 89 só pela TV, ganhou do pai, como prêmio de consolação, a oportunidade de ir à avenida Tiradentes no dia seguinte para conferir ao vivo o desfile do Grupo de Acesso. Naquele ano, o pequeno corintiano viu brilhar a Gaviões da Fiel. "Ali meu pai arrumou um problema...Teve que me levar para ver o desfile todos os anos", lembra Jairo.

Já cursando a faculdade de comunicação da PUC, passou a frequentar a quadra da Rosas de Ouro, por onde desfilou durante cinco anos. Formado jornalista, hoje atua como assessor de Imprensa da Liga das Escolas de Samba de São Paulo e também da Federação Israelita do Estado de São Paulo, além de apresentar o programa semanal Shalom Brasil, pelo canal comunitário TV Aberta.

Como o amigo, também passou a colecionar os CDs de sambas-enredo. Diz que ouve pelo menos um samba por dia, mas jamais pensou em ser compositor. Sua experiência mais próxima havia sido na escola, no I. L. Peretz. Em 1995, quando a Gaviões ganhou o Carnaval de São Paulo com o memorável "Me dê a mão, me abraça, viaja comigo pró céu...", Jairo resolveu se apoderar da canção para fazer bonito em um desfile da escola. Para comemorar o Purim (a mais alegre festa da cultura judaica, que inclui o uso de fantasias), a classe de Jairo criou até um carro alegórico, que desfilou pelo colégio com uma música feita propositadamente sobre a base do samba da Gaviões.

A mão dupla do preconceito

Arquivo Pessoal
Ronny Potolski e a mulher, a porta-bandeira Thais Paraguassu, da Unidos do Peruche

Em 2009, Jairo passou a fazer parte da diretoria da Pérola Negra. Como diretor de Carnaval da escola, sugeriu, em 2011, o enredo "Abraão, o Patriarca da Fé", abrindo caminho para derrubar o preconceito de quem condenava a presença de judeus no samba. Naquele desfile, 300 dos 3.000 componentes da Pérola eram judeus arregimentados na comunidade judaica de São Paulo. "Pensei naquele enredo como uma homenagem aos meus avós, que se orgulhavam de me ver no mundo do samba, apesar da origem deles não ter nada a ver com isso. Foi também uma forma de retribuir aos brasileiros o carinho com que receberam todos os judeus fugidos da guerra", diz Jairo.

Antes, em 2003, a Mangueira já tinha levado Moisés para a avenida com o enredo "Os Dez Mandamentos: o Samba da Paz Canta a Saga da Liberdade". Mas a este enredo da Pérola, ele credita um marco na luta contra o preconceito que, em sua opinião, trafega numa via de mão dupla no país. O problema é que a tolerância das fantasias que se exprimem na passarela não reflete a realidade do mundo real. Tanto assim que, apesar dos esforços, judeus mais ortodoxos veem o Carnaval como uma festa que fere princípios culturais e religiosos do judaísmo. E sambistas mais conservadores ainda se valem de alguns estereótipos para acreditar que um sujeito loiro, branco, de olhos azuis e influência da cultura hebraica não possa fazer samba, viver de samba.

"Ganhar o concurso de samba-enredo em duas escolas do Grupo Especial de São Paulo é uma resposta a tudo isso", acredita Jairo. Ronny concorda e protesta: "Não ter raiz do samba no sangue sempre pesou como um estigma sobre a gente".

Nessa cruzada contra o preconceito, ambos defendem o direito de se expressar como cidadãos brasileiros apaixonados pela arte do samba e sua expressão mais popular, que é o Carnaval. Ser judeu é um detalhe que, evidentemente, não deveria ter o menor significado, como não tem o fato de a passista ser católica, o mestre-sala ser umbandista, o mestre de bateria ser devoto de Ogum – e de São Jorge ser considerado protetor dos batuqueiros.

Uma boa demonstração de que é possível conviver com a tolerância religiosa é o desafio que este ano caiu nas mãos de Ronny. Como Carnavalesco da escola X-9 de Santos, ele tem a missão de levar para a avenida um desfile sobre a importância de Nossa Senhora de Monte Serrat para a história da cidade, da qual é padroeira. Caberá, pois, a um judeu a nobreza de se despir dos preconceitos para encenar na avenida os tantos milagres que são atribuídos à santa da Igreja católica, mostrando em suas criações a diversidade presente na essência do Carnaval.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos