São Paulo

Judeus influenciaram samba carioca no início do século 20, diz livro

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Arquivo Pessoal

    Os judeus Ronny Potolski e Jairo Roizen comemoram a vitória de seus sambas no Peruche e na Pérola Negra, para o Carnaval de 2016 em São Paulo

    Os judeus Ronny Potolski e Jairo Roizen comemoram a vitória de seus sambas no Peruche e na Pérola Negra, para o Carnaval de 2016 em São Paulo

A presença dos judeus no universo brasileiro do samba, especialmente nas raízes do Carnaval carioca, já foi tema de livro. Escrita pela jornalista e roteirista Beatriz Coelho da Silva, a obra "Negros e Judeus na Praça Onze - A História que Não Ficou na Memória" reconstitui o cotidiano de dois grupos que conviveram na Praça Onze, no Rio de Janeiro, no início do século 20.

A autora reconstitui o ambiente em que manifestações culturais genuínas influenciaram fortemente o Carnaval do Rio. Ela mostra como os grupos – de negros e judeus – lidaram com suas diferenças e semelhanças. Vindos de um passado traumático, marcado pela escravidão e por perseguições religiosas, ambos tinham em comum a desconfiança da sociedade, afirma o livro.

Anos antes, ao fazer uma reportagem sobre o advogado e líder da comunidade judaica Samuel Malamud, Beatriz soube que os judeus que fugiam de perseguições religiosas na Europa na década de 40 chegavam ao Rio e se instalavam na Praça Onze. Em um dos depoimentos colhidos, consta que baluartes do samba carioca – entre eles Donga e João da Baiana – frequentavam a casa de famílias judias na vizinhança. "Meu interesse nesse tema é mostrar que negros e judeus, juntos na luta pela sobrevivência, criaram importantes elementos da cultura brasileira", explica Beatriz. Entre as contribuições estão o samba, o chorinho e o Carnaval como conhecemos hoje.

A autora afirma que nas quatro primeiras décadas do século 20, negros vindos da Bahia e da região cafeeira do Rio dividiam ruas, escolas e até casas da Praça Onze com judeus do Leste Europeu. Os grupos vendiam mercadorias, produziam boa música e boa comida. Ao redor da praça, os judeus criaram sinagogas e escolas. Em entrevista ao site da Conib (Confederação Israelita do Brasil), a jornalista dá ênfase à forte presença dos judeus no velho reduto do samba carioca. No livro, Beatriz relata que havia vários casos de negros que trabalhavam como ajudantes dos comerciantes judeus. A boa convivência levou judeus e negros a criarem blocos e ranchos e a dividirem o palco em algumas festas de clubes da Praça Onze.

As pesquisas mostram que, naquela época, havia na Praça seis jornais em iídiche e muitas instituições judaicas, como a Federação Sionista, o Grêmio Juvenil Kadima, a sinagoga Beith Iaakov [A Casa de Jacob, em iídiche], a Sociedade Beneficente das Damas Israelitas e o Centro Obreiro Morris Wintschevsky. No cotidiano, imigrantes solteiros e os que estavam sem família no país ficavam na Praça Onze até altas horas. Após o fechamento do comércio, faziam suas refeições no bairro. Na Praça Onze e nas proximidades, várias pensões forneciam refeições judaicas.

Era também na Praça Onze que desfilavam, até os anos 1930, as primeiras escolas de samba do Carnaval do Rio, entre elas a Mangueira e a Portela. Em 1942, no entanto, o bairro foi demolido para construção da Avenida Presidente Vargas, mas entrou para a história como símbolo da resistência cultural dos cariocas. No Carnaval de 1941, uma marchinha composta por Herivelto Martins e Grande Otelo protestava contra o fim da praça e prenunciava o fim do Carnaval de rua.  "Vão acabar com a Praça Onze/Não vai haver mais Escola de Samba..."

Um clássico samba da Império Serrano, campeã do Carnaval de 1982, entrou para a história da folia como uma das maiores referências ao legado da Praça Onze e das rodas de samba armadas no terreiro de Tia Ciata. "Oh, Praça Onze/Tu és imortal/Teus braços embalaram o samba/A sua apoteose é triunfal", dizia a letra do inesquecível "Bumbum Paticumbum Prugurundum".

"Negros e Judeus na Praça Onze - A História que Não Ficou na Memória", de Beatriz Coelho da Silva, foi lançado em 2015 pela Editora Bookstar. 

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