Rio de Janeiro

Rompendo barreiras, mulheres brilham cantando nas escolas cariocas

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

Poucas funções são de tanta responsabilidade no desfile de uma escola de samba quanto a do intérprete. Afinal, este é o personagem que dá o tom do canto dos componentes e tem a incumbência de motivar toda a Sapucaí para o desfile. Por demandar grande esforço físico e potência vocal, esta função  historicamente foi desempenhada por homens. Presenças femininas sempre foram raras: as mais notáveis são a de Elza Soares, que puxou sambas da Mocidade Independente de Padre Miguel nos anos 70; e a de Eliana de Lima, que marcou época no Carnaval paulistano em escolas como Leandro de Itaquera e Unidos do Peruche. Aos poucos, porém, esse quadro tende a mudar. As mulheres já conquistam espaço nos times de cantores do Grupo Especial carioca.

Uma das veteranas nesta função é Cecília D. Preto, integrante da equipe da São Clemente. A cantora, de 42 anos, fez sua estreia na função há 11 anos e já passou por escolas como Imperatriz, Grande Rio e Unidos da Tijuca. O belo currículo começou inteiramente por acaso. Convidada para ajudar o ex-marido a cantar um samba em uma escola de Grupo de Acesso, ela encarou o desafio, agradou e nunca mais parou. "Eu sempre gostei de cantar, participava até pouco tempo de um grupo de pagode. Mas nunca imaginei que conseguiria fazer carreira cantando samba-enredo", conta Cecília, que também é requisitada para "defender" sambas concorrentes nas disputas das escolas e participar de coros nas gravações.

Reprodução/Instagram/julianapagung
Juliana Pagung defendeu a Mocidade de 2008 a 2015 e agora lança seu CD

De forma pouco usual também começou a carreira de Juliana Pagung. Nascida no Espírito Santo, ela mora no Rio de Janeiro há 12 anos e adaptou-se ao mundo do samba acompanhando a prima Thatiana, ex-rainha de bateria da Mocidade e da União da Ilha. Escorada na sua experiência de cantora de axé e MPB na noite capixaba, Juliana conquistou aos poucos seu espaço.

Em 2008 foi convidada para fazer parte do carro de som da Mocidade e lá permaneceu até o último Carnaval. "No primeiro ano, éramos duas mulheres cantando ao lado do Bruno Ribas (intérprete oficial). Chamamos a atenção e agradamos. Desde então, não parei. Cantar na Sapucaí é um presente e o Carnaval me abriu muitas portas", atesta Juliana, que não desfilará na verde e branco em 2016. Mas por um bom motivo: em janeiro, a cantora lança seu primeiro CD, com participações de Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e Xande de Pilares. "Preciso divulgar meu disco e não poderei me dedicar aos ensaios da Mocidade. Espero que em 2017 eu consiga ajeitar tudo", sonha a intérprete.

Se as cantoras ainda não atingiram o cargo de intérprete oficial, no que depender das escolas de samba mirins, esse quadro mudará dentro de poucos anos. Muitas destas agremiações  que desfilam na terça-feira de Carnaval, já têm intérpretes femininas. E duas de suas crias já estão cantando no Grupo Especial: Júlia Alan (Salgueiro) e Thatiane Carvalho (Estácio de Sá). Júlia, com passagens na Tijuquinha do Borel e Aprendizes do Salgueiro (escolas mirins, respectivamente, da Unidos da Tijuca e Salgueiro), canta no Grupo Especial desde 2011. Após cinco anos na São Clemente, fará sua estreia no time de apoio dos intérpretes Leonardo Bessa e Serginho do Porto.

Felipe Araújo
Thatiane Carvalho, de 19 anos, da Estácio

Thatiane, de 19 anos, canta há cinco e começou sua carreira na Nova Geração do Estácio de Sá. Depois de vencer um concurso de jovens intérpretes em um telejornal da TV Globo, foi convidada a integrar o carro de som da Estácio, que retorna ao Grupo Especial após nove anos de ausência. Enquanto Júlia diz não almejar assumir o cargo principal, Thatiane não nega a pretensão: "Tenho que amadurecer ainda como cantora, mas acalento esse sonho. Quem sabe um dia?"

Enquanto o dia de glória não chega, um obstáculo a ser superado é o preconceito. "Certa vez ouvi um intérprete conceituado falando que não aceita mulher no carro de som dele. Para ele, lugar de mulher é na cozinha. Fiquei indignada", relata Cecília. Thatiane faz coro: "Acontece, sim, mas eu procuro não me importar. Meus companheiros de carro de som e os componentes da Estácio adoram meu trabalho e esse é o meu maior combustível". Júlia Alan, por outro lado, relata que essa barreira está caindo aos poucos. "O preconceito já foi maior. Tanto que, quando chega a minha vez de cantar sambas na quadra do Salgueiro, a repercussão é muito boa. O pessoal faz até pedidos".

A crescente presença feminina nos carros de som das escolas também pode ser atribuída a uma questão melódica. Na visão de Juliana Pagung, os sambas, nos últimos anos, passaram a ter uma predominância de tons altos, o que facilita o canto das mulheres. Júlia Alan faz coro e destaca uma nuance de seu trabalho no Salgueiro: "A segunda parte do samba tem uma melodia com tonalidades que variam muito. Minha função é fazer essa transição mais agradável para os cantores".

Em um Carnaval em que a cantora Lucy Alves gravou a primeira parte do samba da Imperatriz e já garantiu presença no desfile da escola, auxiliando o intérprete Marquinho Art´Samba, fica aberto o debate sobre a possibilidade efetiva de uma mulher ser a intérprete oficial no Grupo Especial. "Acho que, a principio, não será no Especial. Seria uma ousadia muito grande. Acho que isso pode acontecer em breve no Grupo de Acesso. Tem muita gente boa chegando. A nova geração vai conquistar esse espaço", acredita Júlia Alan. Cecília, por sua vez, acha que esse dia está próximo: "Estamos chegando com tudo. Tá na hora de abrir a porta, dar essa oportunidade para a mulherada. Em São Paulo já aconteceu, agora é a vez do Rio". 

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