Rio de Janeiro

Sapucaí tem síndico que mora seis meses por ano na avenida; conheça Machine

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, do Rio de Janeiro

  • Reprodução/Facebook/Jose Carlos

    O síndico da Sapucaí, José Carlos Faria Caetano, o Machine

    O síndico da Sapucaí, José Carlos Faria Caetano, o Machine

Quem nunca teve que lidar com o síndico? Aquele vizinho com senso de liderança e responsabilidade, que zela pelas regras do condomínio e que pode ser acordado no meio da noite para resolver um problema de vazamento. O que quase ninguém sabe é que a Marquês de Sapucaí  também possui alguém com a mesma função. José Carlos Faria Caetano, o Machine, 59 anos, é responsável há 32 por coordenar a preparação do palco por onde desfilam as principais escolas de samba do Rio de Janeiro. "É sacrificante. Deixo de ir a festas de família, de jogar minha bola, de ir ao Maracanã ver meu Botafogo. Mas eu amo o que faço e não me imagino tendo outra vida", diz Machine.

Não há nada que passe despercebido por seu olhar. Desde os trabalhos de montagem das estruturas provisórias, camarotes, praças de alimentação, sala de imprensa e cabines de rádio, passando pela resolução de problemas de fornecimento de energia e água. Além disso, por Machine passa o agendamento de todos os ensaios das escolas de samba na passarela. A partir de novembro, casais de mestre-sala e porta-bandeira, comissões de frente, alas coreografadas e baterias fazem treinos que se estendem pela madrugada.

Por conta do trabalho, Machine passa seis meses do ano morando na Passarela do Samba. Morador do bairro Gardênia Azul (a cerca de 30 km da Sapucaí), na zona oeste, a partir de outubro ele se muda para o seu escritório, montado sob as arquibancadas do setor 3. No local, ele tem toda uma estrutura montada: cama, guarda-roupa, aparelhos de TV e DVD e frigobar. O quartel-general fica montado até o final de abril, período em que tradicionalmente é encerrada a desmontagem da estrutura do Carnaval. Visitas à esposa, Belisane, com quem está junto há 15 anos, são esporádicas. "Só vou lá para resolver pequenos problemas e volto logo. Graças a Deus, ela entende. E olha que ela é evangélica e não gosta de Carnaval. Anteriormente, cheguei a me casar com uma mulher que é de samba, mas após quatro meses de casamento, ela me mandou escolher entre ela e a Sapucaí. Escolhi meu trabalho", relembra.

A rotina de trabalho é puxada. Todos os dias, Machine acorda às 10h e trabalha até por volta das 2h. Para administrar a Passarela do Samba, o síndico conta com uma equipe formada por 21 funcionários. E o ritmo é frenético: apenas no tempo em que a reportagem esteve em seu escritório, o telefone tocou algumas vezes e três pessoas o procuraram para tirar dúvidas de procedimentos ou para perguntar sobre possíveis vagas de emprego nas obras de adaptação da avenida. Por conta dos ensaios, a Sapucaí funciona durante toda a madrugada e, muitas vezes, fica impossível dormir. "Vou deitar por volta das 2h, mas o escritório fica aberto para minha equipe resolver qualquer eventualidade. Só de ouvir a maçaneta girando, eu já acordo. Isso sem falar nos dias em que as baterias ensaiam durante a madrugada", conta.

Para o Carnaval 2016, há mais um desafio no horizonte. Toda a estrutura da Sapucaí terá de ser desmontada em apenas um mês. Normalmente, esse prazo é de pouco mais de dois meses. O motivo: o sambódromo sediará a disputa de tiro com arco e da final da maratona nos Jogos Olímpicos. "O trabalho será mais intenso do que o habitual, mas estamos preparados para entregar o sambódromo pronto para o Comitê Olímpico na data pedida", garante.

Máquina de sambar

Nascido em São João de Meriti, Machine começou sua carreira no samba com apenas oito anos de idade, na ala de passistas mirins da Beija-Flor de Nilópolis. Ao longo dos anos, criou fama como um dos melhores dançarinos do Carnaval carioca. "Nos anos 1970, a black music estava no auge. Eu juntei elementos de passos do soul com quadrilha junina e introduzi no samba. Com isso, fiz muito sucesso e viajei o mundo inteiro me apresentando com a Beija-Flor", lembra.

Em um show na França, o desempenho de Machine impressionou tanto que um espectador francês começou a gritar: "machine, machine". Sem entender o que o empolgado francês dizia, o passista perguntou para Joãosinho Trinta, então carnavalesco da escola de Nilópolis, o que queria dizer aquela estranha evocação. "Ele me disse que eu era uma máquina de sambar. Gostei do apelido e passei a adotar".

Machine, que também foi mestre-sala da Unidos da Ponte -- escola de seu município natal e que teve uma consistente passagem pelo Grupo Especial nos anos 1980 e 1990 -- ainda encontra tempo para desfilar. Habitualmente, passa pela avenida como mestre de cerimônias de casais de mestre-sala e porta-bandeira. "Tenho um orgulho imenso de ter ensinado um pouco de minha arte para mestres-salas como Julinho (Unidos da Tijuca) e Sidclei (Salgueiro). Ver meus pupilos brilhando na avenida é um presente. Faço questão de estar sempre por perto", afirma.

A máquina de sambar virou máquina de resolver problemas e auxiliar os sambistas em sua preparação para o Carnaval. Porém, Machine já prepara a sua sucessão. Viviane, uma de suas quatro filhas, é o seu braço direito e principal candidata a virar a nova síndica. Só que o síndico não consegue vê-la fazendo o trabalho exatamente da forma como ele faz: "É muito sacrificante. Acho que o ideal é ter duas pessoas aqui em revezamento, fazendo turnos de 12 horas. Morar na Sapucaí por seis meses não é para qualquer um".

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