São Paulo

Leitor da apuração do Carnaval de SP, Mestre Zulu diz que nunca errou nota

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Junior Lago/UOL

    Mestre Zulu durante a apuração do Carnaval 2015 de São Paulo, vencido pela Vai-Vai

    Mestre Zulu durante a apuração do Carnaval 2015 de São Paulo, vencido pela Vai-Vai

Quando terminam os desfiles de Carnaval, alguns sambistas sonham com a voz de Antônio Pereira da Silva – e outros têm pesadelos. Mestre Zulu, como é conhecido em São Paulo, é o dono da voz aveludada e firme que lê as notas e revela quem ganhou e quem foi derrotado na avenida. Mas não é só sambista que perde o sono contando as horas para a apuração: o mestre de cerimônias admite que também não dorme direito uns 20 dias antes da folia, levado pela preocupação de não errar, não errar, não errar. "Já errei nome de escola e de jurado, mas nota nunca!"

Ainda que se orgulhe de nunca ter atravessado o samba nos 23 anos em que comandou a divulgação das notas, Mestre Zulu reconhece que a cada ano sente a emoção renovada. Aos 67, em plena forma, não pensa em se aposentar tão cedo. Mas avisa: "Quando deixar de sentir esse friozinho na barriga, pego meu boné e vou cuidar da vida." Ele acha até que já está na hora de a Liga ir preparando alguém para substituí-lo. "Ninguém é eterno!"

O vozeirão impostado, a dicção perfeita e as palavras ditas com todas as letras não compõem um personagem criado só para a apuração. Mestre Zulu fala desse jeito em qualquer lugar. Deixa claro que sua voz é seu cartão de visita, dispensa apresentações formais. Fora do mundo do samba, construiu uma bem-sucedida carreira de técnico de radiologia, boa parte trabalhando ao lado do Dr. Cabello Campos, pioneiro da especialidade no Brasil. Aposentado há 13 anos, guarda da profissão a necessidade de concentração no trabalho e a convicção de que não pode errar no diagnóstico. Cresceu e pretende morrer assim.

A patente de mestre – que distingue personalidades na nobreza do samba – não lhe foi atribuída por acaso. Desde a infância, nos anos 60, o menino criado na Barra Funda frequentava o Camisa Verde e Branco, sua escola do coração. Amor igual só ao Corinthians. "Até meu último suspiro serei Camisa e Corinthians", frisa. No Camisa, exerceu todas as funções que se possa imaginar. Começou servindo água no bar da escola e chegou a disputar a presidência, em 2010, perdendo o pleito para Ribamar de Barros. Não se arrepende de ter entrado na disputa, mas preferiu se afastar da escola para não arrumar encrenca. Prefere ficar com o saldo positivo de sua participação na agremiação. "O Camisa tem 13 títulos de campeão, nove como escola de samba e quatro como cordão. Eu participei de 12 – no de 1954 eu tinha só seis anos", relembra, incomodado com a atual situação da escola, que vive num sobe e desce entre os grupos de Acesso e Especial.

Foi no Camisa, como mestre de cerimônias de eventos, que sua voz começou a chamar a atenção. Até que no Carnaval de 1993 foi convidado pela então diretoria da Liga das Escolas de Samba a comandar a apuração, no Auditório Elis Regina. De lá pra cá, só ficou fora da apuração de 2007, quando foi substituído – e logo em seguida convidado a voltar no ano seguinte.

Marcos Bezerra/Futura Press/Estadão Conteúdo
Mesa de apuração do Carnaval de São Paulo no sambódromo do Anhembi, em 2014

Mestre Zulu define aquele cenário da apuração como um barril de pólvora prestes a explodir. Mas gosta disso. Não teme pressões. "Tem gente que me para na rua e pede para eu aumentar a nota da sua escola. Mas eu não tenho esse poder. Só leio o que os jurados escrevem. Ali é igual jogo do bicho, vale o que está escrito." Mestre Zulu garante a lisura da apuração e jura que ninguém, além dos jurados, sabe antes as notas de cada escola. Para quem duvida, ele lembra que a urna lacrada com os votos sai do Anhembi ao final dos desfiles e fica protegida pela Polícia Militar no quartel da Rota. E só sai de lá, escoltada, para o momento da apuração. "É impossível alguém chegar perto da urna. Lá não tem valente que vá."

Nesses anos todos, sem dúvida, o momento mais crítico foi a tarde de 12 de abril de 2012, quando um homem com a camisa da Império de Casa Verde rompeu o cerco policial, subiu até a mesa de apuração e rasgou as notas dos jurados, antes que Mestre Zulu pudesse ler as papeletas do último quesito. Em sua opinião, aquilo foi um ato orquestrado, ensaiado, previamente planejado – como concluíram as investigações do inquérito policial. "Na vida tem louco pra tudo, mas aquilo já era um fato anunciado. A intenção dele era levar as notas, mas eu tinha que me defender de uma agressão. Se ele viesse pra cima de mim eu ia enfrentar. Mano a mano eu ainda me garanto... E se fosse no passado ele ia se complicar."

Procurado pela reportagem do UOL Carnaval, Tiago Faria, o rasgador de notas, recusa-se a falar sobre o assunto. Seu advogado, Eduardo Lemos de Moraes, pondera que o caso foi arquivado, com seu cliente inocentado.

As histórias do samba vividas por Antônio Pereira da Silva serão contadas em breve, no livro que uma das filhas dele, a engenheira Elizabeth Cristiane, está escrevendo. Mesmo grato com a homenagem, ele não mostra vaidade. Diz que, temente a Deus, vai morrer e não levar nada para o túmulo além de sua própria história. "Na hora da morte a sentença é igual pra todo mundo. Branco e preto, pobre e rico, vai todo mundo pro mesmo buraco. Por isso não tenho vaidade. Só tenho um terno, guardado pra eu usar quando chegar a minha hora."

Sempre às voltas com jurados e sambistas, chegou a hora de Mestre Zulu dar suas notas para alguns quesitos ligados à folia paulistana:

Carnaval de São Paulo: 9.5

Camisa Verde e Branco: 10

Futebol do Corinthians: 10

Atual safra de carnavalescos: 8.5

Respeito à tradição das escolas: 8

Presença de celebridades em postos de destaque das escolas de samba: 5

Carnaval de rua: 9.5

Mestre Sabu (apresentador do desfile das escolas de samba): 10

Seus imitadores -- os que usam o bordão "Dez, nota dez!": 7

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