Recife e Olinda

A 15 dias do Carnaval, oferta de casas para alugar em Olinda ainda é grande

Gabriela Belém

Colaboração para o UOL, no Recife

A menos de 20 dias para o Carnaval, o sítio histórico de Olinda, em Pernambuco, parece um portal de classificados a céu aberto. A culpada pela visível -- e excessiva oferta de imóveis (tanto para aluguéis quanto para vendas de casas instaladas na chamada Cidade Alta) -- segundo os entrevistados pelo UOL Carnaval no local, é a crise econômica.

Ano passado, seria inimaginável avistar tantas placas de aluguel e venda de casas nos pontos turísticos e ruas principais da folia pernambucana nesta época. "A situação piorou muito do ano passado pra cá. Aluguei no Carnaval de 2015 por R$ 15 mil uma casa onde cabem 30 pessoas, com ar condicionado, na Rua 13 de Maio, quase na esquina com a Rua São Bento, uma das principais aqui de Olinda, a da prefeitura. Este ano, fechei por R$ 11 mil -- e quase não consigo fechar o negócio", explica o proprietário Genival Guedes, de 72 anos, que já trabalhou no ramo de imóveis, é ex-proprietário de uma imobiliária e ainda tenta negociar o aluguel de outros seis imóveis no sítio histórico.

A reportagem contabilizou ao menos 30 imóveis com placas de aluguel disponíveis, em cinco ruas e pontos turísticos, considerados os mais movimentados durante o Carnaval de Olinda: na rua de São Bento, na rua do Bonfim, na rua 13 de Maio, na rua Henrique Dias e na rua Prudente de Moraes (até mesmo no final do chamado Quatro Cantos, local de convergência de todas as agremiações e blocos olindenses e de alta aglomeração de foliões).

"Somente na rua 13 de maio, na Henrique Dias e nos Quatro Cantos há mais de 20 casas para alugar. Isso eu garanto, porque tem gente que não coloca a placa na frente", afirma Guedes. Com a alta do dólar, o acesso a acordos de aluguel informais pela Internet e o crescimento do número de pousadas no sítio histórico, muitos estrangeiros e turistas optam por ficar em hostels e pousadas, segundo o morador, o que contribui também para a disponibilidade de imóveis às vésperas do Carnaval. Mas, de acordo com Guedes, o maior número de locações vem da formação de grupos de brasileiros que se reúnem nas casas para brincar o Carnaval juntos.

"Antigamente, havia poucas opções, mas agora, com a Internet, os grupos se formam – e as pessoas responsáveis em fechar os aluguéis fazem bons negócios às vésperas do Carnaval. Por exemplo, eu alugo uma casa a R$ 15 mil. O inquilino, muitas vezes, fecha pacotes individuais para os usuários da casa por R$ 1,5 a R$ 2 mil cada e ainda lucra com o aluguel. Tem gente até que tenta sublocar casas no sítio histórico, o que não é correto do ponto de vista legal, muitas vezes, em contratos de aluguel com os proprietários. E há ainda aqueles inquilinos que chegam na última semana para alugar as casas, porque o valor dos imóveis cai de 30% a 40% nos últimos dias que antecedem o Carnaval", acrescenta.

Outra moradora prejudicada com a crise é Luiza Gomes, de 60 anos, cujo irmão tem uma casa ao lado da residência do cantor e compositor pernambucano Alceu Valença, considerada um dos pontos turísticos mais famosos em Olinda.

"Nesta época do ano, muitos moradores fazem um certo 'pé de meia', com o aluguel das casas. Mas com essa crise, a situação está péssima. Ano passado, essa casa aqui já estava alugada. Em anos anteriores, as pessoas pediam para deixar a casa reservada já no final do Carnaval, fechavam com seis meses de antecedência e podiam se planejar financeiramente", conta Luiza Gomes, de 60 anos, que administra uma loja de artesanato na casa –cujo aluguel sai por R$ 25 mil, com varanda (que pode virar um camarote), onde passam todos os blocos e há a capacidade para alojar até 60 pessoas.

Diante do cenário desfavorável, alguns moradores também estão dispostos a baixar os preços e renegociar os valores. Até mesmo na concorrida e mais elitizada Rua do Bonfim, há imóveis para alugar. A expectativa é que a procura aumente mas próximas semanas. "Aqui nessa casa [na rua do Bonfim] temos dois quartos, dois banheiros e podem ficar umas 15 pessoas na casa, que é quase um camarote. A dona está pedindo R$ 12 mil, mas, pelo que vi, só aluga se baixar para uns R$ 10 mil, eu acho", diz a empregada doméstica José Neta Alexandre Barbosa.

Em geral, os inquilinos recebem as chaves na sexta-feira antes do Carnaval e deixam o lugar na quarta-feira de cinzas. Mesmo com a crise, o aluguel de uma casa no sítio histórico da cidade não sai por menos de 5 mil reais.

Patrimônio da Humanidade x sítio histórico à venda

Além da aparente sobra de imóveis para alugar em Olinda às vésperas do Carnaval em razão da crise econômica, avistam-se, também, muitas placas de venda de casas nos principais pontos turísticos da cidade, considerada um patrimônio histórico e cultural pela Unesco (Organização das Nações Unidas pela Educação), desde 1982.

A especulação imobiliária atingiu a Cidade Alta nos anos anteriores à crise -- e  com o agravamento da situação, muitos imóveis estão sob o efeito do encalhe. "O mercado de vendas deu uma esfriada grande, e há uma baixa de preços significativa agora. Os proprietários que desejam vender casas fazem negociações mais flexíveis e cedem no preço final. Em geral, sentimos uma baixa de 20% a 30% nos preços. E estes descontos aumentaram de oito a dez meses pra cá. Antes da crise, havia também um superfaturamento do mercado. Os preços não eram reais, acontecia a especulação. Hoje, estamos num patamar razoável, de fato o que o mercado pode pagar em nível local", diz o corretor de imóveis Luciano Pernambuco, de 57 anos.

O corretor Sérgio Gallindo reforça que o número de placas de casas à venda cresceu por conta da fraca procura que a crise causou em Olinda. "O preço de uma casa com três suítes e sala para dois ambientes, na rua de São Bento, chega a cerca de R$ 800 mil hoje, podendo chegar a 1,5 milhão. Próximo ao local, uma outra casa à venda com sete quartos", explica.

Outra dificuldade encontrada pelos corretores na hora da negociação advém da idade dos imóveis. "Como muitas casas datam de 1.600 ou 1.700, há sérias dificuldades na regularização em cartório da documentação. Por isso, algumas casas demoram mais a ser vendidas em Olinda".

Pelo visto, num cenário de crise como o atual, a previsão para que esses imóveis desencalhem não é animadora. "As negociações finais, para a venda, são ainda mais demoradas que as dos aluguéis", finaliza Pernambuco.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos