São Paulo

Campeã do Carnaval, Vai-Vai escolhe enredo a partir de plano de negócios

Nélson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

A escolha da França como tema da Vai-Vai para este Carnaval está longe de ser apenas uma homenagem ao país europeu. Mais do que um tributo à história representativa e à relevante herança cultural, a opção pelo enredo "Je Suis Vai-Vai, Bem-Vindos à França!" é resultado de um plano de negócios, como os que são feitos nas grandes empresas para a implementação de grandes projetos.

De acordo com Eduardo Lima, diretor de marketing da agremiação, havia outras propostas sobre a mesa do presidente Neguitão quando o comitê gestor da escola começou a pensar no Carnaval de 2016. A escolha da França foi uma decisão conjunta, com base também na potencialidade do tema para a captação de recursos por meio de ações de marketing, contratos de publicidade e parcerias privadas. "Hoje é comum, quase uma regra, que nas grandes escolas, nas quais impera o conceito de empresa, a escolha do tema faça parte de uma estratégia mercadológica", explica Lima. "A Vai-Vai trabalha o ano todo para poder montar um espetáculo à altura de sua tradição; o desfile é só a cereja do bolo", conclui.

Antes de sair ao mercado oferecendo propostas comerciais, a Vai-Vai buscou apoio do Consulado Francês em São Paulo. As autoridades diplomáticas compraram a ideia e chancelaram o enredo "Je Suis Vai-Vai...", apoio que acabou abrindo as portas para a aproximação com empresas francesas em atividade no Brasil. Silva, no entanto, faz questão de ressaltar que a Vai-Vai não tem um "enredo patrocinado". Para ele, há uma sutil diferença entre uma coisa e outra. "A França é um tema rico culturalmente e daria um bom desfile de qualquer maneira. Mas, a gente se preocupou em buscar parceiros comerciais que viabilizassem um desfile que deixará um legado para a escola."

Faz parte dessa ideia a parceria com a escola de idiomas Aliança Francesa, que não entrou com dinheiro vivo, mas ofereceu um pacote de 100 bolsas de estudos, com duração de 18 meses, para integrantes da escola e representantes da comunidade do Bixiga. "Essa é uma ação que vai perdurar depois do Carnaval e mexer com a vida das pessoas que fazem a Vai-Vai", analisa Silva.

Adriano Pedrozo, gerente de marketing da Aliança, diz que a ação, orçada em R$ 1 milhão, tem mais um caráter institucional, mas não esconde que espera que ela traga dividendos econômicos para a empresa. "Nossa maior entrada de alunos é em fevereiro, por isso é importante estar com a marca em evidência nesse período", reconhece. A escola tem 7 mil alunos matriculados nas seis unidades da cidade de São Paulo e cobra uma média de R$ 2.600,00 por semestre. Segundo ele, o integrante da Vai-Vai que se matricular no primeiro módulo após o Carnaval vai poder chegar em Paris, 18 meses depois, com segurança para se locomover pela cidade falando a língua nativa.

Márcio Peres e Thiago Oliveira Fernandes, dois representantes do marketing da Vai -Vai, fazem o curso, numa espécie de programa-piloto, desde o segundo semestre do ano passado. De acordo com Thiago, as aulas oferecem mais do que o aprendizado da língua, mas também uma oportunidade de conhecer a cultura do país.

O romantismo que cercava a escolha dos temas para enredo das escolas de samba do Brasil é coisa de outros carnavais. Com a crescente profissionalização do show, que resultam em orçamentos cada vez mais robustos, a maioria das agremiações se guia por práticas empresariais. Silva revela que a captação de verbas pela equipe de marketing chega a responder por 50% dos custos de produção do desfile. Além da escola de idiomas, a Vai-Vai firmou contratos com Air France, Chandon, Ticket, Ubisoft e Perfume Salvador Dali, além da cerveja Devassa e da Sincoplastic. "O momento econômico do País é complicado. A Mangueira precisou fazer empréstimo bancário no Rio para poder fazer o desfile desse ano", observa Silva.

Dhavid Normando/Futura Press/Folhapress
Raíssa, rainha de bateria da Beija-Flor, representou as belezas da Guiné-Equatorial no desfile de 2015 no Rio de Janeiro

No Carnaval, vale a máxima de que se um desfile não é feito para dar lucro, não pode dar prejuízo. Para zerar a conta, Rio e São Paulo veem, à cada ano, um número maior de enredos patrocinados e dos chamados enredos-CEP, aqueles que homenageiam uma cidade, estado ou país em troca de verba de governos e empresas locais. Sambistas, no entanto, veem a estratégia com reserva, na tentativa de evitar desfiles parciais, frios e sem emoção. No último ano, o título conquistado no Rio pela Beija-Flor foi alvo de muita crítica por causa do enredo em homenagem à Guiné Equatorial – país pobre da África Ocidental que vive sob o regime do mesmo ditador, Teodoro Obiang, há 35 anos – e pela possibilidade de a agremiação ter supostamente recebido R$ 10 milhões para o desfile.

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