São Paulo

Vai-Vai lembra atentados terroristas em enredo sobre a França e pede paz

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Com a difícil missão de superar o desfile de 2015 -- que emocionou o Anhembi com uma homenagem a Elis Regina e deu à escola seu 15º título -- a Vai-Vai leva para a avenida neste Carnaval o enredo "Je Suis Vai-Vai, Bem-Vindos à França!", uma exaltação à cultura francesa. A atual situação social e política do país, no entanto, impede que o enredo da agremiação seja apenas 'mais um' a falar do tema, já explorado por outras escolas no passado. A série de atentados terroristas registrados recentemente em Paris, que deixou consternadas milhões de pessoas em todo o mundo, dá um novo significado à homenagem.

Ainda que a escolha do tema tenha sido só uma coincidência, porque se deu antes da noite de horror vivida nas ruas e bares parisienses em 13 de novembro do ano passado, seria impossível falar da França sem tocar no assunto, bem como no ataque à sede do jornal francês Charlie Hebdo, registrado em 7 de janeiro de 2015. Sem medo de parecer oportunista, a escola do Bixiga incluiu referências aos incidentes no desfile, programado para a segunda noite do Grupo Especial no Anhembi. "Passar pela avenida sem falar disso seria uma hipocrisia", argumenta a diretora de Carnaval Janaína de Carli.

A escola vai finalizar o desfile com uma mensagem de paz, um alerta ao mundo sobre os efeitos devastadores do terrorismo. Sem revelar detalhes, para não perder o efeito da surpresa, Janaína adianta que a ala que praticamente fecha o desfile fará um protesto em nome da paz mundial. A referência deve dar um toque emotivo à apresentação, uma das marcas da Vai-Vai. "A escola já tem uma tradição de fazer desfiles que falem de perto à comunidade e toquem o público, como foi com Acorda Brasil, em 2008, e os enredos biográficos em homenagem ao maestro João Carlos Martins e Elis Regina", lembra Janaína. "A gente não precisaria desse fato para transformar a homenagem à França em um enredo emocionante", completa.

Há dez anos como diretora de Carnaval da agremiação, Janaína acredita muito na força desse enredo, que está sendo desenvolvido por dois craques: o casal Renato e Márcia Lage, famosos por apresentações memoráveis pela Mocidade Independente de Padre Miguel e pelo Salgueiro. Como os dois moram no Rio, Janaína diz que faz a ponte "entre o imaginável dos carnavalescos e o executável no barracão".

O fio condutor da narrativa é uma viagem imaginária de um personagem -- Criolé, símbolo da Vai-Vai criado na década de 70 pelo chargista Otávio, da Folha de S.Paulo, para representar todos os passistas e ritmistas da escola. Como fez em 98, no enredo "Banzai, Japão!", Criolé  afivela as malas de viajante e aporta na França, com a missão de mostrar sua visão sobre o país e suas influências na cultura brasileira. "A França é mais que um país, é uma civilização, com muita coisa para ser exaltada. Os franceses são inventores de muitas coisas que mudaram a história do mundo, como a câmera de cinema, o neon, a escrita braile... Sem contar a contribuição do país para as artes, a pintura, a filosofia, a gastronomia", enumera Janaina, já dando pistas sobre o desfile.

O risco de repetir recursos visuais já explorados por agremiações que homenagearam a França parece não abalar a confiança da comunidade da Bela Vista. A diretora de Carnaval aposta na veia criativa do casal Lage para fugir do lugar-comum e das referências clichês à França. Segundo ela, as grandes surpresas estarão na comissão de frente, na última ala e na bateria "Pegada de Macaco", conduzida por Mestre Tadeu. "Garanto que não fomos nem olhar os desfiles antigos sobre a França para copiar ou evitar copiar o que já foi mostrado. Nossa proposta é inovadora e se vale da riqueza artística do Renato e da Márcia Lage", diz Janaína.

Mesmo com a crise, a escola promete mais um desfile luxuoso. "Não dá pra falar da França sem luxo", defende-se Janaína. Ela não revela a verba usada em toda a produção. Especula-se, no entanto, que o orçamento tenha girado em torno de R$ 4 a R$ 5 milhões.

Por dentro do desfile, setor por setor

A Vai-Vai repetirá este ano o mesmo padrão do desfile campeão do ano passado, com 3.200 componentes (entre eles, cerca de 300 franceses residentes no Brasil ou viajantes), divididos em 32 alas e cinco carros alegóricos.

O primeiro setor da escola vai mostrar Criolé chegando a Paris e se encantando com os ícones tradicionais da cidade, como a Torre Eiffel, o Louvre e sua Monalisa, a Catedral de Notre Dame e o Rio Sena.

Depois do contato inicial, Criolé cai na noite e se deixa seduzir. O desfile retrata o final do século XIX, quando a cidade de Paris é palco de um dos períodos artísticos mais dinâmicos da modernidade, a Belle Époque. No meio do frenesi, o sambista da Vai-Vai descobre os famosos cabarés da cidade, considerados como perdição para os conservadores e como templos para quem buscava só diversão ou uma nova maneira de entender a arte. O personagem descobre a cultura embalada por goles de absinto, a bebida preferida de personalidades como o poeta Guy de Maupassant e o músico Claude Debussy.

Já no terceiro setor do desfile, Criolé busca referências nos modos e costumes do povo francês, exaltando ícones que capturam os cinco sentidos de qualquer viajante: os perfumes, a gastronomia, a música, a moda... É nessa parte do desfile que o público poderá ver o chef francês Erick Jacquin, entre outros cozinheiros famosos, e participantes do reality show "Masterchef".

Seguindo viagem, Criolé se depara também com uma França moderna, que é o segundo mercado mundial de games e também um dos berços da tecnologia aeroespacial, produtora de símbolos da aviação como o caça Mirage e o Concorde.

Por fim, o enredo faz um link entre França e Brasil, tomando como ponto de partida o Carnaval de Paris, evento cultural da cidade criado no século XI, época em que a burguesia patrocinava bailes à fantasia que integravam representantes de diversas classes sociais. A Vai-Vai finca também o pé no movimento antropofágico de Oswald de Andrade, manifestação artística que serviu de pano de fundo para a realização, em São Paulo, da Semana de Arte Moderna, marco da cultura brasileira.

Originalmente, o enredo previa um encerramento do desfile em tom de festa, com uma grande celebração regada a champagne. Os atentados terroristas a Paris, no entanto, provocaram a inclusão de um protesto contra a escalada da violência e um pedido de paz mundial. "Não queremos sublimar os ataques terroristas em benefício próprio, até porque todo mundo sabe o que aconteceu lá. Mas ignorar isso no desfile seria imperdoável. Por isso nossa opção de fazer um chamamento pela paz", diz Janaína.

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