São Paulo

Combatente da ditadura, Banda Redonda celebra Plínio Marcos em seu desfile

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Aos 82 anos, Carlos Costa, o Carlão, conta os dias para 1º de fevereiro chegar, quando vestirá sua roupa branca de general e comandará o desfile da Banda Redonda no Carnaval de São Paulo. Ela é a mais antiga da cidade, fundada em 1972 por Carlão e o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999), como forma de usar a folia para enfrentar a ditadura civil-militar.

Nos dois primeiros anos, chamou-se Banda Bandalha e, em 1974, trocou de nome para o atual  Banda Redonda. Neste 2016, o desfile celebra os 80 anos de nascimento de Plínio Marcos e conta com a bailarina Dan Sonora como porta-estandarte.

Carlão, que passou por problemas de saúde no último ano — sofreu um princípio de AVC — e ainda se recupera em uma clínica de São Paulo, onde deu esta entrevista ao UOL Carnaval, avisa que garantiu a liberação médica para acompanhar o desfile.

A Banda Redonda desfila na noite da segunda-feira (1/2) anterior ao feriado do Carnaval, dando boas vindas à folia. A concentração começa às 19h no Teatro de Arena, de onde parte às 21h para percorrer as ruas do centro paulistano.

"Sempre saímos com muita gente, geralmente umas 15 mil pessoas", orgulha-se Carlão. Outra coisa que ressalta é a presença de instrumentos de sopro. "Banda tem de ter instrumentos de sopro. Não pode ser só batuque, senão é bloco. O Pixinguinha foi quem nos ensinou", explica.

Resistência à ditadura

Carlão lembra que a Banda Redonda, ainda Bandalha, surgiu no Carnaval de 1972, por iniciativa dele e de Plínio Marcos, em conjunto com outros artistas do Arena, como Chico de Assis, Oswaldo Mendes, Luiz Carlos Parreira, Aldo Bueno e Henrique Lisboa, o Taubaté. A vontade era quebrar o clima tenebroso de perseguição aos artistas, com censura, prisões e desaparecimentos.

"O Rio já tinha a Banda de Ipanema desde 1967, com a Leila Diniz de madrinha. O pessoal de São Paulo também precisava de uma. O nome Banda Redonda veio em 1974 por conta do Bar Redondo, um dos mais famosos da época e que era em frente ao Teatro de Arena, frequentado por artistas, jornalistas, cineastas e intelectuais. E este ficou sendo o público da Banda", conta. Até hoje, a agremiação distribui o Troféu Banda Redonda para as personalidades da cultura. 

Divulgação
Etty Fraser foi a 1ª rainha da Banda Redonda
Carlão lembra que o primeiro desfile foi de forma improvisada. "O Plínio colocou a Etty Fraser de porta-bandeira e o Tony Ramos de mestre-sala. Eles nunca tinham ido a um desfile de escola de samba, e eu tive de ensiná-los como fazer. Na época, já frequentava a Unidos de Vila Maria. Aí falei para a Etty: 'Você pega o estandarte e joga beijinho para o Tony e o público. E Tony, você joga corteja a Etty e dá uns rodopios'", recorda Carlão, bem humorado.

A primeira saída já foi sucesso, com 2 mil pessoas acompanhando a saída no Arena. "Tanta gente já desfilou conosco! Tônia Carrero, Paulo José, Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio Mamberti, Irene Ravache, Walderez de Barros, Geraldo Filme, Zé Kéti, Lolita Rodrigues... além do povo todo, é claro", diz.

No começo, a banda assumiu a contestação ao regime. "A Banda Redonda era uma forma de fazermos um leve protesto, porque as coisas estavam pesadas naquela época. Costumávamos gritar no meio da banda: 'Viva o Carnaval, abaixo a ditadura! Viva o povo, abaixo a ditadura!'", recorda.

Legado carnavalesco

Carlão acompanha com afinco o renascimento do Carnaval de rua em São Paulo nos últimos anos. Gosta de ver o povo fazer a festa de forma democrática. "Vivi o Carnaval da década de 1950, quando o povo brincava nas ruas. Aí veio a ditadura e começou a espantar o pessoal. Muitos blocos acabaram. Mas, nós resistimos com a Banda Redonda e agora vemos esse Carnaval bonito na cidade. Foi para isso que a criamos", declara, satisfeito.

Ainda em recuperação de saúde, Carlão rejuvenesce ao falar da Banda Redonda. "Fiquei muito doente neste último ano, mas mesmo assim eu vou sair. Afinal, estou com 82 anos e são 44 de desfile. Estou preparando um breve discurso em homenagem ao Plínio, meu grande amigo", adianta.

Por conta do tratamento, Carlão precisou delegar funções: "Nomeei uma nova diretoria, que está cuidando de tudo para mim, com o Adriano Mogli, o Edson Lima e o Moisés da Rocha. Mas é gente da minha inteira confiança, que acompanha tudo desde o começo. A Banda Redonda não pode parar. É o meu legado".

Serviço:
Banda Redonda 2016 - Celebração dos 80 anos de Plínio Marcos
Quando:
1º/2/2016, segunda-feira, a partir das 19h (concentração); entrega do Troféu Banda Redonda às 20h e saída às 21h
Onde: Concentração em frente ao Teatro de Arena Eugênio Kusnet - Rua Dr. Teodoro Baima, 94, Consolação, São Paulo
Percurso: Ruas Dr. Teodoro Baima, da Consolação, Xavier de Toledo, Theatro Municipal, Rua Conselheiro Crispiniano, Largo do Paissandu, Av. São João, Av. Ipiranga, Praça da República, regressando ao Teatro de Arena.

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