Rio de Janeiro

Nova geração de sambistas assume posições de destaque em escolas do Rio

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, do Rio

O desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro de 2016 trará à cena uma nova geração de sambistas. Em quase metade das agremiações do Grupo Especial, quesitos importantes estão nas mãos de estreantes. Entre os novatos -- recém-chegados dos grupos de acesso ou da própria base das escolas -- há carnavalescos, intérpretes, mestre de bateria e porta-bandeira.

Em seu segundo ano como carnavalesco, Leandro Vieira, 31 anos, encara uma missão de causar inveja em muito veterano: assinar o Carnaval da Estação Primeira de Mangueira. Ex-ritmista da Portela, Leandro começou a carreira desenhando figurinos para colegas como Mauro Quintaes, Paulo Menezes e Fábio Ricardo. Depois, tornou-se assistente de Cahê Rodrigues na Imperatriz Leopoldinense.

No Carnaval de 2015, mudou de função e virou carnavalesco da Caprichosos de Pilares, que atualmente desfila na Série A. "Me tornaram carnavalesco. Eu estava feliz como desenhista. Se pudesse passar mais dez anos desenhando para os outros, passaria. Mas aceitei o desafio e me apaixonei pelo trabalho na Caprichosos. E consegui, apesar das dificuldades financeiras, fazer um Carnaval bastante elogiado por lá", comemora Leandro.

Além de elogios, Leandro conquistou vários prêmios, e então surgiu o convite para ser carnavalesco da Verde e Rosa. "Foi tudo muito rápido. Outras escolas me procuraram, mas acabei fechando com a Mangueira." Pouco depois, outra novidade deu ainda mais peso à mudança: o enredo que homenageia Maria Bethânia aumentou a expectativa em relação ao desfile da agremiação. "Sinto-me como mais um operário que faz o Carnaval. Meu dia a dia é pautado no fazer. Trabalho muito e espero proporcionar um Carnaval maravilhoso aos mangueirenses".

No barracão da Estácio de Sá está outro carnavalesco com ascensão meteórica. Aos 28 anos, Tarcísio Zanon é o mais jovem do Grupo Especial. Nascido em Cantagalo, no interior do estado, chegou ao Rio há cerca de três anos. Em um curso de figurino de Carnaval, foi convidado por Jack Vasconcelos (então carnavalesco da Estácio, atualmente na União da Ilha) para ser seu assistente na preparação de 2014. Com a saída de Jack, ele assumiu o posto ao lado de Amaury Santos -- e conquistou o título da Série A no ano passado.

Para 2016, a dupla recebeu o reforço de Chico Spinosa, experiente carnavalesco que conduziu a Estácio ao seu único campeonato entre as grandes, em 1992. A presença de um veterano não tira o impacto de ter seu trabalho pela primeira vez avaliado no Grupo Especial. "É uma grande responsabilidade. A Estácio é o berço do samba, com muita tradição e uma comunidade forte. A entrada do Chico facilita porque posso dividir meus anseios e mitigar as minhas debilidades. Ainda tenho muito a aprender, mas também tenho oxigênio e coisas novas para trazer. E isso fica mais fácil ao ter pessoas tão experientes do meu lado", diz o jovem carnavalesco.

Saindo dos barracões e chegando aos carros de som, dois intérpretes farão seu debut no Grupo Especial. Leozinho Nunes, 28 anos, assume o microfone principal da São Clemente, que nos últimos seis carnavais foi de Igor Sorriso, que se transferiu para a Vila Isabel. Revelado na escola mirim Petizes da Penha, Leozinho foi intérprete da extinta Império da Praça Seca, na qual estreou em 2012. Na São Clemente, o jovem ganhou mais visibilidade no ano passado, como um dos autores do samba que conduziu a escola a um elogiado desfile. Com a saída de Igor, sua escolha era a mais natural, mas a promoção foi inusitada. "O presidente da escola [Renato Almeida Gomes] divulgou minha efetivação em um vídeo do Facebook. Eu não acreditei quando vi. A ficha ainda não caiu, tenho certeza de que só vai cair quando estiver cantando na Sapucaí.".

A outra novidade entre os puxadores é Marquinho Art´Samba. Com uma trajetória mais longa, o cantor de 45 anos rodou várias escolas como intérprete de apoio. Em 2013, teve a primeira oportunidade como puxador principal, na Unidos de Padre Miguel, da Série A. Ao aceitar cantar o samba da parceria de Zé Katimba -- que venceria a disputa interna da Imperatriz para 2016 -- Marquinho não imaginava que estava dando um salto em sua carreira. "O namoro com a Imperatriz até já rolava, mas era para ser apoio. Porém, de uma hora para outra, surgiu a proposta de ser o cantor principal. Eu não esperava, mas aceitei na hora. E estou muito feliz com a receptividade da comunidade."

Marquinho vai conduzir a escola na Sapucaí com o enredo que homenageia os sertanejos Zezé Di Camargo e Luciano. "Foi tudo rápido demais. Se me dissessem há um ano que isso tudo aconteceria, eu não acreditaria. É incrível estar numa escola de ponta como a Imperatriz e cantar uma obra de Zé Katimba ao lado de dois dos maiores artistas do país. Isso é um presente de Deus", derrete-se. Entre os puxadores da agremiação, também chama atenção a presença da cantora e multi-instrumentista Lucy Alves, que também faz sua estreia no Carnaval carioca cantando o início do samba-enredo e tocando sanfona. A Imperatriz Leopoldinense, oito vezes campeã, ainda traz uma novidade em sua bateria: assume Mestre Lolo, que regia os ritmistas da União do Parque Curicica, da Série A.

E há novatos com desafios também no chão da Sapucaí. Nas mãos de Shayene Pituba, 27 anos, está o pavilhão de uma das mais queridas escolas do Rio: a União da Ilha do Governador. Depois de seis anos dançando como terceira e segunda porta-bandeira, Shayene foi convidada a assumir o posto principal ao lado de Marcinho, com quem fez dupla entre 2010 e 2013. "No início, eu não acreditei que seria a porta-bandeira da Ilha. Agora estou muito tranquila e confiante na minha parceria com o Marcinho. Temos uma conexão muito forte, nos entendemos pelo olhar. Tenho certeza de que vai dar certo", afirma a estreante.

Defender na avenida 40 pontos em uma escola do Grupo Especial é o coroamento de uma carreira de 20 anos que começou na Acadêmicos do Grande Rio. Por muitos anos, Shayene foi porta-bandeira mirim da Mangueira e, depois passou por várias agremiações dos grupos de acesso. Com a experiência de ter dançado também em grêmios de outras praças, como Uruguaiana (RS), Vitória e Cabo Frio (RJ), a dançarina se diz pronta para defender a escola na elite: "São seis horas diárias de ensaio, além de preparação física e muito cuidado com a alimentação. Estou fazendo de tudo para aproveitar ao máximo esse momento e dar as notas que a Ilha tanto precisa."

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