São Paulo

Com Vanusa e Cadilac, bloco gay quer "Carnaval para todas as famílias"

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

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    Roberto Mafra, presidente da Banda do Fuxico, com Leão Lobo, padrinho da banda

    Roberto Mafra, presidente da Banda do Fuxico, com Leão Lobo, padrinho da banda

"Bom dia, com muita alegria", diz o artista e produtor cultural Roberto Mafra, 41 anos, alagoano de Maceió radicado em São Paulo há 20 anos, ao repórter do UOL Carnaval, ao chegar no Café Vermont, na esquina de av. Vieira de Carvalho e praça da República, tradicional point gay de São Paulo. Foi ele quem escolheu o local da entrevista, no começo da manhã.

Enquanto toma café com leite e come um pão de queijo, Mafra conta as novidades da Banda do Fuxico, da qual é presidente, para o Carnaval de 2016, quando o bloco dedicado à comunidade LGBT completa 16 anos, o que o faz um dos pioneiros na retomada do Carnaval de rua em São Paulo. "Vanusa será a madrinha da Banda, ao lado do padrinho Leão Lobo, enquanto Rita Cadilac assume o posto de madrinha da bateria, desfilando ao lado de Cozete Gomes, a nossa rainha, e de Léo Áquilla, a nossa rainha transex", informa.

O desfile está marcado para o domingo 31 de janeiro. Mas, "será muito mais que um desfile", avisa Mafra, já que a concentração começa às 10h, no largo do Arouche, de onde o trio elétrico só sairá às 18h, para ir ao Theatro Municipal e voltar, num percurso de cinco horas em movimento.

Neste ano, o tema é Bahia de Todos os Santos, com direito a show de capoeira. Além das marchinhas tradicionais, os cantores Velaske Brawn e Vanessa Ajalla tocarão clássicos da música baiana. "Tipo Olodum, Margareth Menezes, Daniela Mercury, Bamdamel, Muzenza e Ilê Aiyê", adianta, afirmando que "a única coisa proibida é ficar parado".

Feira, bate-cabelo e concurso de fantasia

A Banda do Fuxico, que há dez anos é uma ONG, inovará com uma feirinha cultural no largo do Arouche durante todo o domingo de festa, com comidinhas, livros, discos, postos de informações e de distribuição de camisinhas. "Tem de curtir com consciência e também não pode jogar lixo no chão ", implora o presidente.

Um palco garantirá momentos extasiantes, como o concurso de bate-cabelo, no qual drags e travestis se digladiam para ver quem sacode mais a cabeleira, levando o público ao delírio. Estão programados ainda a corrida de salto alto e o concurso de melhor fantasia tanto para gente quanto para cachorro.

"O bloco é democrático", define Mafra que criou a corte mais gigantesca do Carnaval paulistano, além das muitas homenagens. A nobreza da Banda do Fuxico conta com reis, rainhas, princesas, madrinhas e padrinhos. Nesta constelação estão o hair stylist Nandho Brandão, o ex-BBB Dicesar (ou Dimmy Kier) e a drag Silvetty Montilla, que apresenta a festa. "Todos ficam felizes em serem lembrados e valorizados, né?", explica Mafra.

O presidente da Banda do Fuxico pede que foliões caprichem na fantasia para curtir o bloco. "Nem precisa ir à rua 25 de março e gastar muito dinheiro. Na crise, vai no guarda-roupa da mãe, do pai... Bota uma sunga e vira Hércules, bota uma fruteira de plástico na cabeça e vira Carmen Miranda. Ou pega um vestido da mãe e veste, porque a hora é de se liberar, gente!".

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Vanusa, madrinha da Banda do Fuxico
Carnaval para todas as famílias

Ele faz questão de enfatizar que na Banda do Fuxico não há espaço para violência. Tampouco para homofobia ou preconceito. "Somos uma banda família. Aliás, a Banda do Fuxico é de todas as famílias, não só dessa aí que chamam de 'tradicional', porque família todo mundo tem, inclusive gay. Aqui ninguém tem preconceito e todos se respeitam. Temos idosos e crianças que desfilam conosco e curtem muito a nossa alegria", declara.

Por isso, conta, orgulhoso, que "o bloco é assumidamente LGBT e tem apoio de todo mundo, nas esferas municipal, estadual e federal, além do empresariado, da classe artística e da imprensa". E reforça: "Estou fazendo Carnaval de rua, não política".

Mafra lembra que "chegou para enfrentar São Paulo" ainda "molequinho". Uma coisa que lhe chateou foi perceber que o Carnaval da cidade era muito parado, com poucas iniciativas, como a Banda Redonda — a mais antiga da folia, com 42 anos. "Sempre gostei de Carnaval de rua, que acho o mais democrático e liberal".

Foi aí que teve a ideia de criar um bloco no qual gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis pudessem curtir a festa ao lado de seus familiares e do povo sem serem alvo de preconceito.

"O nome Banda do Fuxico eu dei porque bicha adora uma fofoca, né? Então, pensei: 'se colocar esse nome elas vão sair por aí espalhando para a cidade inteira'", rememora. Deu certo. Logo o desfile virou sucesso, com a banda arrastando cerca de 35 mil pessoas pelas ruas do centro.

"Somos pioneiros, ao lado das 12 bandas que formam a Abasp (Associação das Bandas e Blocos Carnavalescos de São Paulo). Hoje, a cidade está cheia de blocos, porque antes nós tivemos coragem de fazer e resistir", discursa. E conclui, dizendo que este ano espera aumentar o público da Banda do Fuxico para "40 mil, 50 mil pessoas": "O centro de São Paulo é gay e tem o coração arco-iris!", encerra, com uma gostosa gargalhada.
 

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