Rio de Janeiro

Escolas cariocas apostam em homenagens a figuras da música e da política

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

  • Montagem/UOL

    Miguel Arraes, Maria Bethânia, Zezé Di Camargo e Luciano são temas das escolas

    Miguel Arraes, Maria Bethânia, Zezé Di Camargo e Luciano são temas das escolas

Durante as décadas de 80 e 90, as escolas de samba cariocas marcaram época com grandes desfiles cujos enredos eram homenagens a grandes personalidades da vida cultural ou política do país. Nomes como Braguinha, Chico Buarque, Betinho, Ary Barroso, Roberto Carlos e Carlos Drummond de Andrade, dentre outros, passaram na Sapucaí retratados em alas e alegorias e conduziram as agremiações a grandes desfiles – em muitos casos, conquistando o título.

No século 21, esse tipo de enredo passou por uma sensível retraída – certamente, pelo predomínio dos temas patrocinados por cidades e empresas. Porém, o Carnaval 2016 apresenta uma tendência de retorno às homenagens. Nada menos do que quatro escolas têm, como tema central, tributos a personagens brasileiros. Sem falar na Grande Rio, que encaixou menções a Pelé e Neymar em seu enredo sobre a cidade de Santos.

Duas escolas se enveredaram pelos ídolos da música e em vertentes totalmente distintas. E, por uma ironia do destino, elas desfilarão na sequência. Quinta agremiação a desfilar na segunda-feira de Carnaval, a Imperatriz Leopoldinense aposta suas fichas em um enredo sobre a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano. Em seguida, a Mangueira encerra o Carnaval exaltando a vida e obra da cantora Maria Bethânia (que, por sinal, gravou "É o amor", grande sucesso da dupla). Outras duas agremiações preferiram figuras da política: a campeã Beija-Flor resgata a história do Marquês de Sapucaí, executivo dos tempos do Império que dá nome à rua do desfile; já a Vila Isabel levará para a pista o trabalho educacional do ex-governador pernambucano Miguel Arraes.

Em tempos de intolerância política, soa como uma grande ousadia a decisão da Vila Isabel de falar do legado de um grande líder da esquerda brasileira do século 20. Porém, segundo o carnavalesco Alex de Souza, o enredo "Memórias do Pai Arraia – um sonho pernambucano, um legado brasileiro" terá um viés totalmente cultural. "Vamos exaltar o projeto de educação e valorização da arte popular que surgiu quando Arraes foi prefeito de Recife e governador de Pernambuco. Foi uma iniciativa que poderia ter se ramificado pelo país, mas foi interrompida pelo golpe militar", explica o carnavalesco.

O enredo, criado por Martinho da Vila e desenvolvido por Alex, é baseado no livro "História do Movimento de Cultura Popular", cujo exemplar foi presenteado ao cantor e compositor pelo próprio Arraes. Ao ler, Alex se disse seduzido pela proposta de retratar na avenida o projeto de alfabetização de crianças e adultos liderado por Paulo Freire e o movimento de valorização da cultura popular conduzido por artistas e intelectuais como Ariano Suassuna, Germano Coelho, Abelardo da Hora, Vicente do Rego Monteiro e Francisco Brennand. "É algo que pouca gente sabe e que vale a pena ir para a avenida. Arraes é o fio condutor da história, mas a mensagem que a Vila quer deixar é de que até no flagelo da pobreza, as pessoas podem se redimir pela educação", conclui.

Já a Beija-Flor de Nilópolis, após um controvertido enredo sobre a Guiné Equatorial, promoveu uma mudança de rumos em sua temática. O enredo "Mineirinho Genial! Nova Lima – Cidade Natal. Marquês de Sapucaí – O Poeta Imortal" joga luz em um personagem pouco lembrado da História do Brasil. Cândido José de Araújo Viana, o Marquês de Sapucaí, foi um dos principais políticos do século 19. Foi deputado na Constituinte de 1823, ministro do Império e ministro do STJ.  Porém, no imaginário popular, é lembrado apenas por dar nome à via onde foi construído o Sambódromo.

Esse é o desafio da azul e branca de Nilópolis. Contar a história de um personagem praticamente ignorado pelos livros escolares. Para a pesquisadora Bianca Behrends, integrante da Comissão de Carnaval, a elaboração do enredo é um grande desafio. "A Beija-Flor resolveu resgatar temas mais tradicionais e esse enredo caiu como uma luva. Durante o Carnaval, a Sapucaí é a rua mais falada do mundo. E todos conhecem muito pouco a história do personagem. Queremos resgatar um pouco da História do Brasil através de uma personalidade que foi expoente em seu tempo e que acabou esquecido", relata Bianca. Como não poderia deixar de ser, ao final do desfile, a Beija-Flor relembra seu caso de amor com a Sapucaí. Afinal, é a escola com maior número de títulos na rua, onde conquistou seus 13 campeonatos.

Marcos Ferreira /Brazil News
Alcione veste túnica com estampa da Maria Bethânia, homenageada pela Mangueira
Maria Bethânia na Mangueira

Em um jejum de 14 anos sem títulos, a Mangueira aposta em "A Menina dos Olhos de Oyá", em homenagem a Maria Bethânia, para retomar uma trilha já aberta em carnavais vitoriosos em tributo a Monteiro Lobato, Braguinha, Dorival Caymmi, Carlos Drummond de Andrade e Chico Buarque. Poucas escolas têm em seu DNA a marca da exaltação a nomes da cultura do que a verde e rosa. E essa é a trilha em que aposta o jovem carnavalesco Leandro Vieira. "A Mangueira tem uma grande tradição popular, de estar junto dos grandes nomes de nossa cultura. A homenagem a Bethânia é apenas mais um capítulo dessa linda história", acredita o carnavalesco, que não se abala com o fato da cantora já ter sido homenageada em 1994 juntamente com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa. "É outro enredo, com abordagem totalmente diferente", atesta.

Segundo o carnavalesco, a proposta é trazer a vida e a obra de Maria Bethânia. A vida é simbolizada através de todas as suas influências musicais e religiosas, através do caldeirão cultural do Recôncavo Baiano. Já a obra é apresentada por um relato dos principais momentos de sua carreira como a estreia no Teatro Opinião, a participação no Tropicalismo e grandes shows e espetáculos em que dialogou com a literatura e a poesia. "Os grandes sucessos não ficarão de fora. 'Abelha Rainha', 'Explode Coração', 'Esotérico' e outras canções serão relembradas nessa grande celebração à cantora que trouxe um toque agreste e inconfundível à nossa música", explica Leandro.

Se a Mangueira adota um certo tom biográfico para tratar de Bethânia, a Imperatriz encontrou uma saída diferente para apresentar o enredo "É o amor… que mexe com minha cabeça e me deixa assim… Do sonho de um caipira nascem os filhos do Brasil". Se decepcionará quem pensa em ver na avenida uma coleção de hits de Zezé Di Camargo e Luciano. O enfoque do carnavalesco Cahê Rodrigues é levar para a Sapucaí a vida do campo e sua música tão característica. "Está sendo um grande desafio construir um carnaval com tema sobre a música sertaneja e levar esse conteúdo para o palco do Sambódromo. Talvez a Imperatriz seja a escola mais aguardada na segunda-feira por ter um tema diferente de tudo", acredita.

Em um primeiro momento criticada por sua escolha, a Imperatriz virou o jogo com uma sinopse elogiada e um dos melhores sambas do ano. "Acho que a força do samba acabou jogando por terra todo o preconceito que as pessoas ainda tinham com o enredo", afirma Cahê. A escola de Ramos, caracterizada por desfiles históricos e de pouca comunicação com o público, vive em um momento de graça. Com um tema popular, a escola está recebendo pedidos de fantasias de todo o país. "Está havendo uma verdadeira comoção entre os fãs da dupla. Caravanas estão se preparando para vir para a torcida ou para desfilar. Acredito que a Imperatriz trará o momento de grande emoção no Carnaval 2016", espera o carnavalesco.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos