São Paulo

Pinah, a Cinderela Negra do samba, é homenageada em SP e estreia no Anhembi

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Reis, rainhas, princesas, marquesas... O que não falta no Carnaval é título de nobreza para as "autoridades" do samba. Entre tantas personagens da imaginária realeza de Momo, a que esteve mais próxima de um príncipe de verdade foi Pinah Maria Ferreira Ayoub, a modelo negra de cabelo raspado e sorriso escancarado que dançou com o príncipe Charles – herdeiro do trono britânico – em uma recepção dada pela prefeitura do Rio em 10 de março de 1978.  Desde então, ela ganhou o apelido de Cinderela Negra do samba. Sua dança virou manchete internacional e guindou a eterna destaque de chão da Beija-Flor à corte do Carnaval.

Pinah jura que não sabia com quem estava dançando. Conta que, antes do evento, Joãosinho Trinta reuniu 400 pessoas para o show da Beija-Flor, e o protocolo advertia que ninguém podia chegar perto do príncipe. Nos bastidores, as mulatas, passistas e destaques do grupo se perguntavam, em tom de brincadeira, a quem caberia a honra de ser a cinderela da noite. "Quando a bateria começou a tocar, começamos a dançar e, de repente, se aproxima de mim um sujeito de smoking, dançando uma espécie de charleston... Eu achei que era o segurança do príncipe", conta Pinah.

Ela só percebeu o tamanho do equívoco quando, no dia seguinte, foi acordada pela mãe, Nancy, reclamando da barulheira na rua. "Ela me perguntou o que eu tinha aprontado na noite anterior porque a porta de casa estava cheia de repórteres e fotógrafos. Só aí eu me dei conta de que eu tinha dançado com o futuro rei da Inglaterra". Em março de 2014, repetiu a honra ao ser convidada para um jantar com o Príncipe Harry, filho de Charles com Diana, numa recepção diplomática no Brasil. "Tem coisas que já estão escritas na vida da gente e não tem como sair dessa trilha, mas acho que a sorte bateu na minha porta".

Esse histórico encontro é um dos elementos com que a Acadêmicos do Tatuapé espera ilustrar no enredo deste ano, em homenagem à Beija-Flor. A supercampeã do carnaval carioca é responsável, especialmente nos tempos de Joãosinho Trinta, por alguns dos mais célebres enredos do Carnaval, como "Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia", de 1989, ano em que uma imagem do Cristo Redentor censurada desfilou coberta por lona preta num carro rodeado por mendigos e maltrapilhos famintos. Pinah será uma das homenageadas pela escola paulista, à qual abriu um precedente jamais imaginado: será a primeira vez, em 40 anos de Beija-Flor, que ela vai desfilar por outra escola. 

Além dela, estão confirmadas também as presenças do primeiro casal de mestre-sala e porta bandeira da escola carioca, Claudinho e Selminha Sorriso. Neguinho da Beija-Flor, a voz do samba de Nilópolis, pode aparecer de surpresa. O problema é que a Tatuapé encerra os desfiles da primeira noite em São Paulo, enquanto a Beija-Flor já é a terceira escola a desfilar na primeira noite na Sapucaí, com um intervalo curto entre as duas apresentações. Mesmo sabendo que vai ser uma maratona, Pinah estará nas duas passarelas.

"Só confirmei minha presença há menos de duas semanas. Pedi autorização para o meu presidente da Beija-Flor e estou liberada. Eu respeito a hierarquia do samba. Tenho certeza que será uma emoção diferente", disse Pinah em entrevista exclusiva ao UOL Carnaval, entre as toneladas de plumas, paetês, brilhos, adornos, cordões e brocados do estoque do Palácio das Plumas, a loja que ela e o marido, o comerciante libanês Elias Ayoub, mantêm em São Paulo há mais de quatro décadas.

Aliás, foi ali que ela conheceu o marido. Como quase tudo que aconteceu em sua vida, o romance também teve a interferência de Joãosinho Trinta, que ela venera: "Se ele foi meu criador, eu fui sua criatura". Há 33 anos, Pinah foi à loja de Elias comprar plumas encomendadas pelo carnavalesco da Beija-Flor, e foi atendida pelo próprio dono. "Ele me deu as plumas erradas, já de caso pensado, para eu voltar no dia seguinte. Em pouco tempo, estávamos casados", recorda-se Pinah.

Arquivo pessoal
Conhecida como a Cinderela Negra, Pinah Ayoub ficou famosa nos anos 70 após dançar ao lado do príncipe Charles

Na época, no auge da fama, era improvável que ela chegasse a qualquer lugar sem ser notada. O visual careca, adotado no início dos anos 70, compunha o personagem de uma mulher exótica e provocativa. "A ideia de raspar a cabeça foi um desafio que me propôs o estilista Luís Carlos Ribeiro. Ele fez uma fantasia chamada Odetá - a escrava de xangô, e perguntou seu eu tinha coragem de raspar a cabeça para o desfile. Deu tão certo que nunca mais deixei o cabelo crescer".

Mesmo sem a mesma aptidão da esposa para lidar com os holofotes da fama, Elias não se esconde atrás do glamour de Pinah. Pelo contrário, sempre que pode, faz questão de demonstrar o quanto se orgulha de tê-la como sua companheira. Não raro, diante de novos clientes, ela costuma brincar com leve ironia: "Conhece a Pinah? É ela ali... Não é linda?"

Na entrada da loja, referência entre carnavalescos e aderecistas, um manequim ostenta a fantasia usada pela filha deles, Cláudia, no desfile do ano passado da Beija-Flor. A jovem também é destaque e ama a escola de Nilópolis. A artista plástica, que tem 24 anos e é mais alta que a mãe (que anuncia 1,80 m), Cláudia integra a curadoria de uma exposição sobre o Carnaval que está em cartaz no prédio da Fiesp, na avenida Paulista. Lá está o adereço de cabeça usado por Pinah na noite em que bailou com o príncipe britânico.

"Essa é uma peça rara. Tenho muita coisa guardada, mas ainda preciso catalogar. Já pensei em fazer um memorial", diz Pinah, que não se mostra muito preocupada em viver do passado. Nem mesmo a ideia de registrar sua história num livro biográfico parece seduzi-la. "Já recebi a proposta de três escritores, mas ainda não chegou a hora..." Não que ela ache que sua trajetória no Carnaval está incompleta, pois já se considera realizada. "Agora com o desfile da Tatuapé eu fico quites com São Paulo e com o Rio. Já posso sair de cena certa de que estive sempre no lugar certo, na hora certa. Missão cumprida, já realizei todos os meus sonhos." Recusar uma biografia também garante a Pinah um segredo que ela guarda bem: sua idade. "Isso eu não conto pra ninguém".

A trajetória de Pinah – que será lembrada pela Acadêmicos do Tatuapé – é curiosa e poderia ter guinado para longe do samba. Mesmo sendo filha de um mestre-sala (o pai desfilava pela Tupi de Brás de Pina, no Rio), ela jamais imaginou virar um ícone do Carnaval. Nascida em Muriaé, Minas Gerais, foi com os pais para o Rio aos dois anos de idade. Na adolescência, enveredou pelo mundo da moda até tornar-se modelo e manequim formada pelo Senac. Tirou ainda diploma de contadora e pensava seguir assim, no brando anonimato de um escritório. Fez sem compromisso seu primeiro desfile pela escola Em Cima da Hora, e no ano seguinte foi apresentada a Joãosinho Trinta, na época carnavalesco do Salgueiro. Aí sua vida virou

No Salgueiro, juntos, ganharam o bicampeonato de 1974 e 75. No ano seguinte, ela ficou para tentar o tri, mas quem ganhou mais um campeonato foi seu guru, que se havia mudado para a Beija-Flor e emplacado o histórico enredo "Sonhar com o Rei Dá Leão", referência ao jogo do bicho, principal atividade do presidente de honra da escola, Anísio Abrahão. No ano seguinte, Pinah foi atrás de Joãosinho Trinta e nunca mais largou a Beija-Flor. Ela foi homenageada no enredo de 1983, "A Grande Constelação de Estrelas Negras", cujo refrão dizia "Pinah êêê, a Cinderela Negra que ao príncipe encantou no Carnaval com seu esplendor". 

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