Salvador

Nova voz do Carnaval baiano rima "minissaia" com "especulação imobiliária"

Alexandre Matias

Colaboração para o UOL, em São Paulo

O casamento entre a guitarra baiana e os soundsystems jamaicanos pode roubar a cena no Carnaval de Salvador deste ano e confirmar a entrada do grupo BaianaSystem para o primeiro escalão do pop nacional. O grupo formado por Roberto Barreto, Russo Passapusso, Marcelo Seko e Filipe Cartaxo está prestes a lançar seu segundo disco, gravado no final do ano passado, e vai usar o Carnaval para apresentá-lo pela primeira vez ao vivo. A faixa "Lucro (Descomprimindo)" dá o tom do novo disco ao questionar disparidades sociais e políticas sem perder o groove - o que dizer de uma letra que rima "especulação imobiliária" com "minissaia" sem perder o rebolado?

"O Carnaval é uma grande referência estética para nós em muitos sentidos", explica o guitarrista Beto Barreto, que antes de montar a banda em 2009 já havia tocado com a Timbalada e feito parte do grupo Lampirônicos. "A ideia de pensar o trio elétrico como um grande soundsystem abre muitas possibilidades. A festa popular e todos os signos envolvidos nisso, o canto dos blocos afros e a percussão, as imagens que passam por caretas, máscaras, pinturas, fantasias etc. É um universo muito lúdico, que durante muito tempo para nós aqui em Salvador ficou estereotipado e perdido dentro de todos os problemas trazidos pela indústria da música e do Carnaval."

O grupo começou a participar do Carnaval no ano seguinte à sua fundação, quando fizeram um trio aberto ao público - sem a famigerada "corda" que separa os foliões populares daqueles que pagaram para ficar mais próximo do trio. O primeiro trio teve participações de BNegão e Lucas Santtana e homenageou Ramiro Musotto, percussionista e produtor argentino radicado na Bahia, cujas pesquisas de ritmos e beats foram cruciais para o surgimento do grupo - e que morreu no final de 2009. "Ninguém conhecia o BaianaSystem e o som causava um estranhamento. Mas ao mesmo tempo era um estranhamento que trazia referências muito próximas daquele ambiente, Russo trazia a experiência de mestre de cerimônias das festas de Soundsystem que comandava no MiniStereo Público, e isso tem muita liberdade, muito de festa de rua, de carnaval", continua Beto.

O estranhamento inicial passou e aos poucos o Baiana foi levantando sua principal bandeira: a de misturar sons e culturas diferentes, a partir de uma divisão natural que existe em qualquer grande cidade do país e que se acentua em Salvador, melhor exemplificada pela divisão entre ricos e pobres no Carnaval da capital baiana. "Pensamos sempre no Carnaval como parte criativa e importante, tanto artisticamente como no que isso pode colaborar com o mercado como um todo", continua Beto. A questão do Carnaval participativo, de rua, mais democrático onde sejam respeitados os espaços e a diversidade são assuntos que nos interessam e tentamos colaborar no que pudemos com essas mudanças que são fundamentais para que a festa sobreviva

Essa tônica veio surtindo efeito com o passar dos anos mas explodiu no ano passado, quando a a tradicional axé music, que dava as cartas no Carnaval baiano, começou a perder força, e o grupo reuniu um público absurdo em suas aparições, chegando a puxar uma massa de 20 mil foliões em um dos dias. "Entendemos isso como resultado desse trabalho que plantamos desde o início, esse primeiro trio de 2010, o Carnaval sempre pra rua e na contramão do que se tinha estabelecido", explica o guitarrista. "E tem também os show no Pelourinho. Desde o começo fazemos sempre temporadas lá a partir de setembro, o que serve como um grande laboratório de músicas, improvisos, e também dessa relação com o público. O Baiana foi crescendo por essa relação direta com o público."

O primeiro resultado rumo ao novo disco foi a faixa "Playsom", hit imbatível de 2015, gravada com o vocalista do grupo Psirico, Márcio Vítor. As bases eletrônicas e o pulso jamaicano da faixa - que sampleava o próprio grupo na faixa "Terapia" - conquistaram o público do grupo para além do Carnaval - e do Brasil, uma vez que a música foi escolhida para a trilha sonora da edição de 2015 do jogo Fifa 16, ao lado de grandes nomes do pop mundial, como Beck, Disclosure e Icona Pop.

O estouro em 2015 não aumentou a expectativa para 2016. "Esse ano vamos sair novamente no mesmo formato: um trio pequeno, bem menor do que os tradicionais, coisa que temos feito de três anos pra cá, mas com um som que aos poucos estamos conseguindo que chegue num resultado bem legal. Colocamos mais graves para reforçar isso pois é um elemento muito importante no nosso som. Tocaremos também em palco, no Pelourinho e em Cajazeiras, um bairro popular muito grande, o maior de Salvador", enumera Beto.

A grande novidade para o ano, no entanto, é o lançamento de seu segundo disco, gravado entre o final de 2014 até o final do ano passado, entre São Paulo e Salvador, com produção de Daniel "Ganjaman" Takara, ex-integrante do coletivo Instituto que já produziu Nação Zumbi, Mombojó, Mano Brown, Curumin, Emicida e Criolo. "Conhecemos e admiramos o trabalho dele há muito tempo, e queríamos justamente para esse segundo disco um olhar de fora, alguém que pudesse traduzir o que tínhamos em mente e trazer uma sonoridade e timbragens mais fortes, juntando as nossas referencias de arranjos, composição e percussão com beats e programações eletrônicas de um outro universo", explica Beto.

O novo disco ainda não tem capa nem nome - tudo quase definido, mas esperando o Carnaval chegar - e conta com várias participações. "As participações nesse disco foram muito em cima dos instrumentistas, da colaboração de cada um como músico dentro do que pesquisam e trabalham", continua o guitarrista. "(O pernambucano) Siba, por exemplo, participa de uma faixa instrumental tocando rabeca, e traz uma carga muito forte de referencias quando isso de junta com a guitarra baiana por exemplo. Márcio Vitor concebeu e gravou a percussão de três faixas, além de 'Playsom'. Outra participação bem marcante nesse disco foram as Ganhadeiras de Itapoã, grupo vocal tradicional de Salvador que traz o canto popular de maneira incrível para esse disco. E também a participação de músicos que realizam trabalhos muito importantes como Juninho Costa, o Junix 11, – guitarra - que já colabora com o BaianaSystem há alguns anos, Rowney Scott no sax, Marcelinho Galter no piano e Cássio Nobre na viola Machete."

A previsão de lançamento do disco está para o início de março, mas ele já começa a ser testado em diferentes espaços, pouco a pouco. "Foi uma construção lenta de todo o processo, com algumas mudanças no caminho, e sempre tivemos por perto uma figura que nos acompanha desde o início que é BNegão. Ele participou do primeiro disco e foi a primeira pessoa que começou a falar da gente fora da Bahia, com músicos, produtores, jornalistas. Desde o trabalho dele com o Planet Hemp até os seus trabalhos seguintes, onde ele foi pioneiro nos formatos colaborativos, nos trabalhos com MCs e DJs e sempre de forma aglutinadora, BNegão é uma referência. Ele nos ajuda enxergar melhor nosso trabalho e saber por onde podemos caminhar. Esse disco é dedicado a ele!"

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