Rio de Janeiro

Para fazer diferença na avenida, foliões se desafiam em maratona de ensaios

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

Em cada escola de samba, eles são cada vez mais numerosos. São médicos, advogados, contadores, universitários, office boys e donas de casa. Submetem-se a uma exaustiva rotina de ensaios por duas, às vezes, três vezes por semana e se dispõem a desfilar em uma escola de samba nas posições mais inusitadas, como de cabeça para baixo ou com o corpo coberto de lama. Estes são os componentes de carros e alas coreografadas, um verdadeiro exército de foliões anônimos que fazem sacrifícios para ver o sucesso de uma escola na avenida.

Sempre correndo de um ensaio para outro em plena Cidade do Samba está o casal Marcelo Mattos e Márcia Neiva. Os dois, que desfilam em escolas de samba há três anos, dividem-se entre os ensaios de Unidos da Tijuca, Portela e Unidos de Vila Isabel. A rotina do casal é tomada por ensaios para alas e carros: segunda-feira é dia de Portela; quarta-feira, de Tijuca e Vila; quinta-feira, de Tijuca novamente; e sexta é dia de voltar à Portela. A rotina é árdua, mas o casal não desanima. "É uma terapia. Quando estou aqui, esqueço de tudo lá fora. Mesmo com a responsabilidade de ensaiar sempre e fazer bonito na avenida, é muito gostoso. E ainda me ajuda a perder um quilinhos no verão", afirma o representante comercial.

Márcia, que é corretora de imóveis, diz que o sonho de desfilar em uma escola de samba sempre existiu e que fazer parte de um grupo coreografado foi a forma mais fácil de realizá-lo. "Eu até sei dançar, mas não sou bailarina. Aqui eu consigo fazer meu papel da melhor forma e, principalmente, ajudar a minha escola a ser campeã", acredita.  A coreógrafa Andréa de Cássia,  responsável por preparar componentes de uma ala e dois carros da União da Ilha,  faz coro com Márcia. "É uma nova leitura de folião. Se der uma fantasia para ele em uma ala comum, não rola. Nosso componente típico é aquela pessoa que não sabe sambar e descobriu uma forma de ser importante para o desfile, através das coreografias". Andréa, que tem 2 mil pessoas cadastradas para seus grupos, tem vários integrantes que saem em várias escolas. E ela se diverte com a situação, tanto que criou um apelido para eles: Renata Banhara, em alusão à modelo que desfilou em todas as escolas do carnaval paulista em 2001.

A coreógrafa também destaca outra particularidade desse componente. Ele raramente pertence às comunidades originais das agremiações. "O morador do bairro procura diretamente as escolas e desfila em uma ala de comunidade. Aqui, recebemos gente de todas as partes. Como a Cidade do Samba fica perto do centro da cidade, os componentes trabalham ou estudam por aqui e vêm nos horários de folga". Quem se dispôs a desfilar nos grupos preparados por Andréa encara ensaios de duas horas de duração nas noites de terça e quinta-feira.

Veterano no assunto, o bailarino Fábio Costa coordena cerca de 600 componentes que desfilarão em três carros e duas alas da Unidos da Tijuca. Integrante do histórico carro do DNA, criado por Paulo Barros, que popularizou as coreografias em alegorias no desfile da Tijuca de 2004, Fábio acredita que esses componentes são atraídos pela possibilidade de contribuir para o desfile -- mesmo maquiados ou com um figurino que os deixe irreconhecíveis. "O espetáculo seduz essas pessoas. A vontade de fazer parte e de se dizer responsável pela vitória da escola é o que motiva essas pessoas a passarem por cinco meses de ensaios, duas vezes por semana", analisa Fábio, que também se diz movido pelo desafio de transformar pessoas comuns em astros da avenida. "Temos todo um trabalho de pesquisa para montar a coreografia e fazê-la da forma que seja mais acessível a pessoas com vários graus de habilidade para a dança. Esse é o maior desafio".

Ricardo Almeida
O estatístico Thiago Gotelip de Freitas, de 31 anos, vai encarar uma maratona no Carnaval carioca de 2016, em 11 escolas

Entre os foliões que se dispõem a fazer diferença para as escolas de samba está o estatístico Thiago Gotelip de Freitas. Aos 31 anos, ele se prepara para uma maratona por todas as passarelas cariocas, pois desfilará em nada menos que onze agremiações. No Grupo Especial, serão quatro: Estácio de Sá, Vila Isabel, Tijuca e Portela. Na série A, ele defenderá Império da Tijuca, Império Serrano e Acadêmicos do Cubango.E Thiago sairá também por quatro escolas de outros grupos, que desfilam em Campinho: Unidos de Lucas, Acadêmicos do Engenho da Rainha, Tradição e Embalo Carioca. Em quais funções? Ala coreografada, ala da comunidade, ala dos compositores e até na ala dos tamborins.

"Só não ensaio na terça-feira, mas não me queixo. Adoro Carnaval e sempre quis participar de uma forma bem ativa. É a minha válvula de escape. Se não tiver minha agenda de ensaios, eu surto", afirma. Para dar conta de todos os desfiles, ele compra ingressos de frisa ou cadeira de pista e se vale da ajuda dos amigos para guardar as fantasias enquanto ele samba na avenida. "Fui fazendo amizades e recebendo convites. E assim estou, cheio de ensaios e de fantasias para carregar no Carnaval."

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos