São Paulo

Peruche encena enfrentamento entre policiais e manifestantes em desfile

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Miguel Arcanjo Prado

    Régis Santos (centro) ao lado de seus assistentes durante os ensaios do Samba Cênico

    Régis Santos (centro) ao lado de seus assistentes durante os ensaios do Samba Cênico

Ensaios exaustivos numa tarde de domingo demonstram que Régis Santos, 45, sabe que precisa impactar o Anhembi com a passagem da ala Samba Cênico. Afinal, depois de quase uma década de sucesso na Rosas de Ouro, sua ala defende em 2016 exclusivamente o pavilhão da Unidos do Peruche, primeira escola a desfilar no sábado (6).

De forma sucinta, ele explica o motivo de sua saída da Rosas, escola na qual desfilou por 40 anos, "desde pequenininho, na ala das crianças": "Incompatibilidade criativa". 

O artista conta que logo após sua saída recebeu "duas propostas" de escolas concorrentes, entre elas "o irrecusável" convite da Peruche. A agremiação já era sua conhecida, pois seu grupo Samba Cênico já havia desfilado por lá no último ano, em um carro alegórico, mesmo com ele ainda na Rosas. Com esse desfile, a Peruche foi campeã do Grupo de Acesso, subindo para o Especial. "O Carnaval se profissionalizou, e o Samba Cênico é de uma excelência que pode estar em qualquer escola", discursa Régis.

Carnavalesco da Peruche e velho conhecido de Régis, Murilo Lobo fez o convite, percebendo que seria uma boa aposta contar com uma ala cênica no retorno à elite do Carnaval de São Paulo. Régis logo foi abençoado pelo presidente Sidney de Moraes, o Ney, e recebeu mais funções. "Também vou fazer a encenação do carro abre-alas da Peruche, com 43 pessoas, que terá coreografias inspiradas nos orixás", entrega. "Eu vou causar na avenida."

Desta vez, a ala Samba Cênico deixará de lado os monstros que fizeram sua fama na Rosas de Ouro e encenará com 90 pessoas um enfrentamento entre policiais e manifestantes nas ruas. "A escola vem falando dos cem anos do samba, e o samba foi lugar de resistência à ditadura. Por isso esta encenação. E vai ser muito atual, porque nestes últimos dias a gente tem visto manifestantes sendo espancados nas ruas de São Paulo", explica Régis. Ele adianta que tudo será dinâmico. "A ação toda acontece durante um samba, se repetindo várias vezes ao longo do desfile."

Miguel Arcanjo Prado
Os atores Neusa Maria e Thiago Meiron serão os manifestantes no desfile
Teatro e Carnaval

Para Régis, seu lema é um só: "Teatralizar o Carnaval e carnavalizar o teatro". Para isso, sempre contou com colaboradores, como os artistas Teca Pereira, Ludy Anderson, Carla Barbisan, Dedé Ladeira, Christiane Gomes, Carlos Gardin e Carlos Sá, além de Raphael Bueno e Janaína Mello, seus atuais assistentes.

Desde pequenino, na ala mirim da Rosas de Ouro, Régis sonhava em fazer mais no Carnaval. Após trabalhar como ator no teatro e no cinema — ele esteve em "Carandiru", de Hector Babenco, em 2003 — decidiu que já tinha currículo para assumir novas funções.

Em 2008, conseguiu a autorização do então carnavalesco Jorge Freitas — atualmente na Império de Casa Verde — e da presidente da Rosas, Angelina Basílio, para montar uma ala encenada a 20 dias do desfile. Mesmo com prazo curto, emocionou a avenida ao recriar o filme "O Perfume" com 80 pessoas.  "Todo mundo amou", recorda.

Após um hiato de desfiles mais simples, a ala voltou gloriosa em 2012, quando a Rosas foi vice-campeã homenageando Roberto Justus. Em vez de encenar a vida do publicitário, Santos preferiu algo mais impactante: com 150 pessoas na ala, fez nobres húngaros se transformarem em caveiras, arrepiando o Anhembi. "Foi um trabalho que teve um grande impacto", lembra.

Mortos e trem fantasma

A partir daí, Régis passou a ficar cada vez mais exigente. É difícil fazer as pessoas do Carnaval entenderem que uma ala cênica é diferenciada e precisa de maior cuidado. Aos poucos fui conseguindo o respeito, apesar de muita gente dizer que sou chato. Na verdade, sou um profissional exigente

Em 2013, viveu mais um êxito na Rosas ao retratar a Festa dos Mortos do México com 180 pessoas. Despachado, foi ao Consulado do México pedir ajuda e acabou sendo convidado do governo mexicano para viajar ao país para conhecer a festa de perto. "Sempre corri atrás", afirma.

Outro Carnaval memorável foi o de 2014, quando enfrentou uma chuva de granizo na concentração e, mesmo assim, fez o Anhembi vibrar com a passagem de um trem fantasma, com 140 artistas fantasiados de zumbis e personagens clássicos de filmes de terror. O auge era quando todos dançavam "Thriller", de Michael Jackson, no ritmo do samba enredo, o que rendeu muita repercussão para a Rosas. "Sempre amei as Noites do Terror do Playcenter", diverte-se Régis ao lembrar do desfile.

Perfeccionista

Mesmo com tanto sucesso, Régis diz que não se deslumbra."O Carnaval é muito grande. Não adianta achar que vai ser um mar de rosas só porque foi reconhecido pelo público e pela mídia". Por isso, esmera-se em seu trabalho. Sua ala ensaia cinco meses antes do Carnaval. E ai de quem faltar. Outra coisa: desengonçados não têm vez. "É preciso saber reconhecer o espaço. Afinal, nossa ala é importante em notas como evolução, fantasia, harmonia e alegoria", explica.

Por isso, Régis faz questão da presença maciça de atores, bailarinos ou pessoas com algum tipo de afinidade artística, como revela sua equipe. "Trabalhamos com muita intensidade e cobrança, buscamos a qualidade, é um trabalho árduo", conta Raphael Bueno, assistente de Régis. Sua colega na assistência de direção, Janaína Mello, concorda: "O Régis é muito perfeccionista e criativo. E tem outra qualidade: consegue colocar uma sementinha de paixão pelo que faz em todos nós. Por isso, trabalhar na ala é emocionante", afirma.

E os integrantes sentem o mesmo. O ator Thiago Meiron, apaixonado pelo Carnaval desde criança, une profissão e folia. "No desfile do trem fantasma era o padre do filme 'Exorcista' e depois era um dos zumbis, agora vou ser manifestante", conta, sobre seus personagens. Neusa Maria, também atriz, aumentou a parceria que já tinha com Régis no teatro. "Estou na ala desde o comecinho. É uma família", diz. Novata na ala, a estudante de medicina veterinária Érica Para-Assu, membro da comunidade da Peruche, da qual já foi porta-bandeira por dez anos, diz que o frisson é exercitar o teatro na avenida. "É diferente de tudo que já havia feito no Carnaval. Estou adorando".

Diante de tudo isso, Régis se considera muito mais que um diretor de ala. "A direção que faço não é só cênica, é também coreográfica e, sobretudo, de produção. Sou eu quem aprovo tudo e cuido para que cada detalhe saia perfeito e impactante na avenida", orgulha-se.

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