São Paulo

Carnavalesco da Pérola Negra vê desfiles iguais e propõe estética das joias

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Nove entre dez carnavalescos do país considera ingrata a missão de abrir os desfiles do Carnaval. Fábio Borges, da Pérola Negra, é a exceção que comprova a regra. Mesmo numa escola que há anos tem sofrido com o efeito iô-iô (num sobe e desce de grupo), ele acredita que a Pérola vai fazer em 2016 um espetáculo fora da curva, capaz de levá-la ao menos ao Desfiles das Campeãs na sexta-feira seguinte. O carnavalesco aposta em duas estratégias: uma nova linguagem estética no visual da escola e a correção dos crônicos problemas de harmonia e evolução que costumavam roubar pontos da agremiação na avaliação técnica dos jurados.

Apresentar uma nova concepção de desfile virou obsessão para Borges, que admite uma certa mesmice nos últimos anos. "Não dá para negar que há um certo déjà vu na composição de algumas fantasias e alegorias. Alguns carros são grandes demais, altos demais, e funcionam como um paredão que tapa a visão do todo para quem está na arquibancada e até mesmo para os jurados. Hoje você só consegue ver o conjunto da escola de helicóptero", critica.

Sua contribuição para mudar essa realidade vem do refinamento da ourivesaria. Nos últimos três anos, período em que esteve longe dos desfiles de Carnaval, Fábio Borges dedicou-se ao design de joias. Mestre em artes plásticas, ele promete levar conceitos da joalheria para a avenida. "A ideia é fazer uma coisa realmente inovadora, fora dos padrões", diz. A mudança deve ser percebida logo no carro abre-alas, batizado de "Dança da Natureza". Idealizado a partir de uma linguagem mais clean, mais chique, o carro tem elementos vazados que permitem visão total do que vem atrás dele. O fundo da alegoria é um imenso painel em forma de arabesco, arte difundida pela cultura islâmica.

O terceiro carro, em homenagem às danças afro-brasileiras, foi inspirado no povo Ashanti, importante grupo étnico de Gana que teve a joalheria como uma de suas maiores contribuições à cultura africana. Outra sutileza poderá ser vista na ala das baianas, cujas saias rodadas foram construídas como imensos "tutus" -- as microssaias de tule usadas pelas bailarinas clássicas. "Como muitos enredos já falaram de dança, eu não podia recorrer a modelos repetitivos e recursos óbvios", diz Borges, em defesa de sua proposta de um desfile bonito e provocador.

O carnavalesco atribui o padrão vigente nos desfiles, entre outros fatores, à influência dos artesãos de Parintins, que lideram muitos dos barracões de escolas de samba. Fábio exalta a qualidade artísticas dos profissionais, mas coloca luz sob um tema para reflexão. "As alegorias de Parintins são muito coloridas porque lá o espetáculo do boi é apresentado na penumbra. Aqui, não. A luz do sambódromo sugere, e até pede, uma linguagem diferente, mais leve, mais harmônica".

Para propor o novo, Fábio Borges apoia-se em sua trajetória. Criado nas fileiras da Estação Primeira de Mangueira, trabalhou ainda na Leão de Nova Iguaçu e no Salgueiro. Sua história em São Paulo inclui carnavais no Peruche, Rosas de Ouro, Tucuruvi e Vila Maria. Esta é sua segunda passagem pela Pérola. No ano passado, ele assinou o enredo "Pérolas", que levou a escola ao vice-campeonato do Grupo de Acesso e garantiu seu retorno à elite. Além desse desfile, Fábio considera marcante o enredo desenvolvido em 1990 na Mangueira, "Deu a Louca no Barroco", que contava a origem de Ouro Preto. "Naquele ano não ganhamos porque um carro quebrou no meio do desfile e isso nos custou muitos pontos nas notas de harmonia e evolução", relembra, orgulhoso.

Para evitar que esses quesitos voltem a penalizar um Carnaval sob sua gestão, ele conta que a diretoria fez um trabalho para "melhorar o chão" da escola. Em linguagem carnavalesca isso significa que a Pérola Negra investiu mais nas alas da comunidade, que normalmente são as mais comprometidas com os ensaios, com a obrigação de decorar o samba e com a entrega de corpo e alma ao desfile. "Como a Pérola, tradicionalmente, sempre atraiu muita gente de fora da comunidade, por conta da afinidade das pessoas com o bairro, a gente perdeu um pouco dessa garra no desfile. Garanto que este ano vai ser diferente."

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