São Paulo

Enredo guardado há 22 anos é renovado para contar história da Vila Madalena

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

O carnavalesco Fábio Borges tinha um enredo sobre danças pronto na sua cabeça, guardado havia 22 anos. O presidente da Pérola Negra queria um desfile que contasse a história do bairro-sede da escola. Borges juntou as duas coisas, adaptando seu tema original para a homenagem pretendida. A Vila Madalena, afinal, é um bairro festeiro, reduto de bares, boemia, alegria – e muita dança. E assim nasceu "Do Canindé ao Samba no Pé. A Vila Madalena nos Passos do Balé", que vai abrir os desfiles do Grupo Especial do Carnaval paulistano.

A história do bairro conduz o desfile, montado sobre uma linha do tempo imaginária. A apresentação começa no passado, quando o bairro tinha apenas a Mata Atlântica. O carro abre-alas, denominado "Dança da Natureza", é a representação de uma floresta, da qual o carnavalesco extrai o movimento das plantas sob a ação do vento, o zigue-zague dos rios, o voo dos pássaros e o acasalamento dos animais. Sobre o carro, um grupo de bailarinas com sapatilha de ponta, lideradas pela solista Isabella Rodrigues, representará a dança das águas.

O segundo carro é dedicado às danças indígenas, homenagem aos tupiniquins do período do descobrimento. Atrás da alegoria, Fábio Borges distribui alas que formam a "Vila dos Farrapos", antigo nome da região da Vila Madalena. De acordo com a pesquisa do carnavalesco, nos idos de 1.600, o local era a passagem dos tropeiros e bandeirantes que seguiam para o litoral paulistano, além de ponto estratégico dos negros que fugiam do trabalho escravo. Foi essa presença que deu origem ao batuque, semente do samba que conhecemos hoje.

O desfile conta a história do bairro associada às manifestações culturais lideradas pela dança. A instalação da Companhia Cisne Negro – fundada pela coreógrafa Hulda Bittencourt – dá a licença para o carnavalesco imaginar que um cisne negro voou até a Vila para ali fixar moradia. A ala antecede o terceiro carro da escola, que faz referência às danças afro-brasileiras. Uma escultura do Rei do Congo remete às congadas, festas originadas na coroação do rei, que hoje são comuns no Interior de todo o Brasil.

O enredo, então, dá um salto no tempo e chega à Vila Madalena dos anos 70, quando a efervescência política muda a cara do bairro com a presença de estudantes da USP e hippies. Este processo, anos mais tarde, inseriu a 'Vila Madá' na cena urbana como um bairro festeiro. A representação desse cenário está no quarto carro alegórico, "O Santo Lar da Boêmia". O destaque da alegoria é o coreógrafo e bailarino Carlinhos de Jesus, representante de todos os ritmos da atualidade, como rock, gafieira e discoteca. O dançarino famoso é dono de um dos bares mais emblemáticos do bairro, o Lapa 40 Graus.

Para finalizar o desfile, Fábio Borges combinou alas e alegorias que reafirmam a vocação cultural da Vila Madalena. Entram em cena novas referências ao balé clássico, ao maracatu, aos blocos carnavalescos, às micaretas e até ao povo na rua nos dias de jogos da seleção. Neste clima de alto-astral, o quinto e último carro mostra que não dá para resistir ao samba da Pérola Negra e que, na Vila, ninguém fica sem "balançar o esqueleto". Nem os mortos que repousam no Cemitério São Paulo e "despertam" quando chega o Carnaval.

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