São Paulo

Linha dura da Vai-Vai, Mestre Tadeu coleciona 10 na bateria há 43 anos

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Wanezza Soares /UOL

    Mestre Tadeu no comando da bateria da Vai Vai, durante ensaio em novembro de 2013

    Mestre Tadeu no comando da bateria da Vai Vai, durante ensaio em novembro de 2013

Se a bateria é o coração de uma escola de samba, Mestre Tadeu é o responsável pela adrenalina que faz pulsar o samba da Vai-Vai. É ele quem dá o ritmo e marca o andamento na avenida há 43 anos, com direito a 15 títulos de campeão e uma invejável coleção de notas 10 -- em mais de quatro décadas, a bateria só não tirou nota máxima em três ocasiões. Ciente de sua importância, ele compara seu trabalho à regência de um maestro. "A única diferença é que os maestros ficam milionários, e os mestres de bateria não ganham dinheiro. A gente aqui trabalha por amor", diz, sem demonstrar arrependimento por ter dedicado dois terços da sua vida à escola de samba do seu coração. "Dediquei a minha vida a essa escola, sou Vai-Vai até morrer. E serei o mestre da bateria até quando Deus permitir."

Antonio Carlos Tadeu nasceu em berço de sambistas e desde muito jovem frequentou escolas de samba, mas não esperava chegar à elite do Carnaval. Sua primeira parada foi na Lavapés. Depois, fez parte da fundação da Gaviões da Fiel, quando ainda era um bloco, chegando a ser o primeiro mestre de bateria. Na Vai-Vai, começou como ritmista, tocando surdo e caixa. Três anos depois de ter pisado na sede do Bixiga, foi elevado à patente de mestre da bateria. Junto com o orgulho, a honraria também lhe trouxe preocupação. "Isso aqui é uma enorme responsabilidade. Carnaval mexe com muita gente, com muita emoção, com muitos interesses, não dá pra bobear."

Durante todo esse período, Mestre Tadeu dividiu sua dedicação à Vai-Vai com o trabalho de servidor público. E todas as horas vagas continuam sendo dedicadas ao aprimoramento de sua arte. No carro, o som está sempre sintonizado em algum samba-enredo, de qualquer escola, de qualquer tempo, do Rio ou de São Paulo. Perfeccionista, rigoroso e às vezes duro nas cobranças, admite que exerce seu trabalho na Vai-Vai pregando a disciplina em primeiro lugar. "Não acho que os ritmistas me respeitem por terem medo de mim, mas sim pela hierarquia. A bateria funciona que nem um time de futebol, todo mundo é importante, mas cada um no seu lugar", argumenta, assumindo a patente de general da banda.

Nas escolas de samba, os sinais de comando do mestre para os ritmistas são feitos com as mãos, sempre precedidos por um apito que chama a atenção do grupo. Na Vai-Vai, o apito poderia ser dispensável. Mestre Tadeu fala com os olhos -- e os ritmistas sabem quando seu olhar é de desaprovação. "De vez em quando é preciso dar uma bronca, faz parte do trabalho. Ninguém é perfeito, nem eles nem eu". O músico, no entanto, não gosta de ser apontado como mal-humorado. Ele admite que não é de dar muita risada, mas prefere outra qualificação: "Digamos que eu seja um cara mais fechado..."

Em sua bateria, há comportamentos proibidos, como tocar de costas para o mestre. Passistas que sambam muito perto, à frente da bateria, também não agradam. Ganha advertência quem faz intervenção no samba, e vai para o fim da fila quem desagrada o ouvido do mestre. Ganha bronca também quem chegar atrasado no ensaio. Mas o estilo linha-dura não afasta os 270 ritmistas da Vai-Vai, entre os quais um de seus filhos, que toca caixa. Centenas de músicos estão à espera de uma oportunidade para tocar na bateria da escola, além dos garotos da comunidade que chegam à bateria mirim por meio de um projeto social da agremiação, supervisionado por ele.

Para brigar pelo título do Carnaval, Mestre Tadeu põe a mão no fogo pelo êxito de sua bateria e confia no trabalho feito ao longo dos seis meses de preparação. Todo ano é assim. Em cima do samba-enredo da ocasião, ele e seus diretores de bateria buscam soluções que confiram uma nova identidade ao desfile da Vai-Vai. Claro que ele não revela o que tem preparado para este ano, mas garante que o Anhembi vai ver e ouvir coisas novas. "O samba desse ano é muito bom, mais uma vez, e a gente sempre faz um Carnaval para ser campeão".

O apelido que ele deu a sua bateria comprova esse confiança no grupo: Pegada de Macaco. Mestre Tadeu diz que a inspiração veio do gorila King Kong, do cinema, e que o nome simboliza o jeito de tocar da agremiação. "A minha bateria tem um ritmo próprio, agressivo. É o nosso ritmo, não precisamos copiar nada de ninguém."

Alexandre Schneider/UOL
A bateria da Vai-Vai, apelidada de Pegada da Macaca, no Carnaval de 2013

Aos 64 anos, Mestre Tadeu é considerado patrimônio da Vai-Vai. Faz parte da Embaixada do Samba e é denominado "mestre dos mestres", reconhecido pelos representantes de outras escolas. Mas nem sempre foi assim. Ele costuma dizer que quando começou na carreira, durante a ditadura, o samba era visto como uma atividade subversiva e o sambista, como vagabundo.

Das glórias que acumulou, guarda com especial distinção a noite de 25 de setembro de 2011, em que se apresentou no Lincoln Center de Nova York, ao lado do maestro João Carlos Martins e da Orquestra Filarmônica Bachiana Sesi-SP. Foi a primeira vez que a bateria de uma escola de samba participou de um concerto no teatro. Juntos, maestro e mestre mostraram a influência rítmica africana no Brasil desde o século 18, com músicas de Villa-Lobos e de outros grandes compositores brasileiros. Como dizia o enredo da própria Vai-Vai em homenagem ao maestro, naquela noite a música venceu mais uma vez.

 

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