São Paulo

Porta-bandeira da Vai-Vai se prepara com muay thai para fantasia de 25 kg

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL

Há menos de uma semana do desfile que pode dar o 16º título para a Vai-Vai, a porta-bandeira Paula Penteado se dedica a uma rotina espartana para fazer bonito na avenida, ao lado do mestre-sala Pingo -- parceiro com quem se habituou a tirar só nota dez desde o primeiro desfile juntos, em 2006. Para manter essa escrita, ela se desdobra para conciliar o trabalho (é publicitária e professora de dança na academia de Carlinhos de Jesus), a família (ela é casada e mãe de uma filha de 15 anos) e uma agenda de ensaios, provas de fantasia, shows, ajustes na coreografia, alimentação balanceada e cuidados com o corpo.

É aí, na hora de malhar, que ela descarrega todo o estresse pré-Carnaval com uma prática incomum entre as porta-bandeiras. Há dois anos, Paula trocou a musculação pelas aulas de muay thai, na academia de artes marciais comandada pela família Gracie, no bairro do Caxingui, zona oeste da capital. Pelo menos duas vezes por semana, ela troca golpes com o mestre Duda Salles para preparar os músculos e articulações para desfilar pelos 530 metros do Anhembi carregando uma fantasia de 25 quilos.

"É impossível chegar no fim do desfile sem sentir alguma dor. Quando acaba a pista, a fantasia deve pesar uns 40 quilos", diz Paula. Ela admite que, algumas vezes, durante sua passagem pelo sambódromo, sentiu dores muito fortes, especialmente na cintura e nas costas, mas a adrenalina de um desfile pela Vai-Vai sempre relativizou o incômodo. Nessas horas de aflição, sempre contou com a cumplicidade do parceiro. Como o regulamento impede que eles conversem durante todo o desfile, Paula conta que Pingo sabe identificar essas dificuldades pelo olhar. "A gente está muito afinado", diz Paula, que fora da escola é comadre do mestre-sala. "Sou madrinha do filho dele, o Hugo".

Paula trocou a musculação habitual pelas aulas de boxe tailandês a conselho de um primo. E não se arrepende da escolha. "O muay thai trabalha muito a parte aeróbica, e isso acabou me dando mais resistência para o desfile. Além de fortalecer os músculos dos ombros, pernas e costas, aprendi a alinhar o corpo." Por conta disso, chega a perder de 1.000 a 1.200 calorias por aula. O trabalho faz diferença para quem carrega 25 quilos extras e ainda desfila com uma sandália salto dez. "Tem porta-bandeira que sai de tênis, mas eu aprendi a sambar com salto alto e não consigo usar outra coisa no desfile."

A fantasia deste ano é luxuosa e deve ultrapassar a média dos 25 quilos dos últimos desfiles. Como a Vai-Vai fará um enredo em homenagem à França, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira representará a corte do império francês. Pingo estará na pele do todo-poderoso Luís XV, e Paula, no papel de uma das muitas rainhas do país. Por conta desses personagens, Paula adianta que a coreografia desse ano vai explorar ainda mais os passos do minueto, a dança que é a base do bailado do casal de mestre-sala e porta-bandeira de qualquer escola. O minueto é de origem francesa e chegou ao samba por meio de escravos que tentavam imitar os passos que damas e cavalheiros faziam em saraus e bailes da corte.

"Todo casal tem um protocolo a cumprir na avenida, com passos obrigatórios para a avaliação dos jurados. Entre um jurado e outro, podemos executar uma coreografia mais livre e será aí que eu e o Pingo vamos dar maior ênfase à dança do minueto, nossa homenagem à França", explica Paula. Para a nota dos jurados vale a beleza da coreografia, a presença e boa execução dos movimentos obrigatórios, a fantasia (que só passou a fazer parte da avaliação do jurado deste quesito no ano passado), a comunicação/empatia com o público e, claro, a sincronia de movimentos do casal. "Como em qualquer dança, a dama obedece aos comandos do cavalheiro. Eu sigo o que o mestre-sala propõe", ensina Paula.

Até chegar a este ponto, Paula passou por uma espécie de curso de formação de porta-bandeira dentro da própria comunidade da Vai-Vai. Ela é de uma família de sambistas. Ou melhor, de uma família que tem o sangue da Vai-Vai nas veias. Seu bisavô, Frederico Penteado, e seu avô, João Penteado, foram fundadores do cordão que daria origem à escola. Fredericão também foi o criador do pavilhão preto e branco que hoje Paula carrega nos desfiles. Seu pai, Fernando Penteado, é diretor de harmonia, mas já exerceu diversos cargos na escola. É dono, inclusive, da carteirinha número 1 da ala dos compositores do Bixiga. Foi através de um pedido para o pai que Paula viu tornar possível o sonho de ser porta-bandeira.

"Fiz meu primeiro desfile em 86, com cinco anos de idade. Eu já fazia balé, e vendo a Dona China dançar como porta-bandeira, eu a achava parecida com uma bailarina. E queria ser igual a ela. Pedi e meu pai me deixou sair como porta-bandeira mirim, em 89, último ano em que os desfiles aconteceram na avenida Tiradentes", recorda-se Paula. Ela aprendeu os segredos do posto de porta-bandeira com três lendas da agremiação, apelidada de "escola do povo". "A Dona China e a Dona Neusa me ensinaram como uma porta-bandeira deve se comportar, qual o gestual apropriado para o desfile, como carregar o pavilhão. E foi a Edja que me ensinou a girar de verdade, no tempo da batida do surdo. Ela me levava para a casa dela e me ensinava tudo o que sabia", diz, agradecida.

Da estreia ainda menina para a fase atual, Paula não parou mais de aprender e evoluir. Em 94 estreou como terceira porta-bandeira e foi subindo na escala de formação das grandes estrelas da comunidade, até chegar a ser a primeira porta-bandeira, em substituição a Fabíola, no Carnaval de 2006. "Como primeira porta-bandeira tenho três campeonatos. Mas dos 15 títulos da Vai-Vai, participei de 13", orgulha-se. Aos 34 anos, hoje é ela quem dá aula de samba, gafieira, bolero e suíngue. Apaixonada pela arte, espera poder viver dela assim que o Carnaval passar. "Não sei se volto mais para uma agência de propaganda. Meu desejo é viver da dança e para a dança!"

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