São Paulo

Angolana que fugiu da guerra estreia no Carnaval como rainha de bateria

Gisele Alquas

Do UOL, em São Paulo

A angolana Carmem Mouro vai estrear no Carnaval no Brasil logo na realeza. A advogada e empresária de 38 anos é a rainha de bateria da escola de samba paulista Pérola Negra e se prepara para fazer bonito na avenida. O convite inusitado veio de Camila Quintino, funcionária de Carmem na Angola, e que durante seis anos foi rainha de bateria da agremiação.

"Foi através de uma brincadeira que se tornou realidade. A Camila me convidou e foi tudo rápido. É um desafio maravilhoso, mágico, pois sou uma estrangeira e a comunidade da Vila Madalena me recebeu de braços abertos, com muito carinho, como se fosse uma família. Foi uma recepção calorosa", conta Carmem, que garante que tem muito samba no pé.

"Todo o africano samba, tem um estilo diferente, então a única coisa foi aperfeiçoar, ter mais agilidade. Mas o samba é de nossas tendências africanas", explica ela, que teve aulas com a professora brasileira Roberta Kelly.

A exigência de Carmem para aceitar o convite da Pérola Negra era que a escola viesse com um carro alegórico homenageando a Angola. A agremiação leva para a avenida a história do bairro Vila Madalena através da dança. "Esse carro contará a história das danças de origem africana, com influências da Angola e da Guiné. Infelizmente não consegui trazer minha família para desfilar porque é muito grande. Mas teremos africanos na avenida", comemora.

Alex Pires/Divulgação
Aos 38 anos, Carmem Mouro exibe corpão na quadra da escola

A angolana veio para o Brasil pela primeira vez aos 15 anos para fugir da guerra civil em seu país, em 1994, que na Angola durou de 1975 a 2002. "Meus pais queriam algo estável e nos proteger. A melhor decisão foi vir para o Brasil. E não foi nada como um bicho de sete cabeças. Me adaptei rápido", conta a empresária, que mantém um Spa na Angola e outras empresas em Dubai.

A família morou por três meses no país e depois se mudou para Portugal. Carmem retornou ao Brasil em 1999 para cursar a faculdade de direito em Salvador (BA). Entre idas e vindas, ela morou no Brasil por nove anos.  "Morei no Rio também. Fiquei casada com um carioca por um ano e meio", lembra.

Carmem só conhecia o Carnaval de Salvador. Atualmente vivendo entre Angola e Dubai, ela retornou ao Brasil há um mês para se preparar a folia. "Trabalho há muitos anos no ramo empresarial e tenho uma equipe competente que cuida dos negócios enquanto estou fora", afirma. E ela faz questão de marcar presença na quadra da Pérola Negra. "É estando lá, com a comunidade, que aprendo mais. É muito importante esse convívio. Me faz muito bem, é uma terapia", diz.

Mãe de três filhos – de 17, 7 e 5 anos – Carmem Mouro conta que recebe o apoio deles, mesmo estando longe: "Não puderam me acompanhar por causa da escola. Mas eles são extraordinários".

A Pérola Negra abre o Carnaval de São Paulo na sexta-feira (3). Apesar do nervosismo por ser a primeira vez e a primeira rainha de bateria a pisar no Anhembi, Carmem afirma que tem as melhores expectativas. "Não dá para explicar a emoção que estou sentindo. Vou entrar com garra, meu único objetivo é fazer um bom desfile e contribuir com a comunidade e lutar para a Pérola Negra ser campeã", torce.

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