Camarote privado provoca polêmica entre blocos e Prefeitura de BH

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Laura Fonseca/Divulgação

Belo Horizonte espera 1,6 milhão de pessoas neste Carnaval. Com 200 blocos espalhados pela cidade, a festa enfrenta polêmica com a criação do Camarote Belô — um evento privado durante a folia — e o enfrentamento entre blocos e a Prefeitura de Belo Horizonte.

Além de afirmar que não tem ligação com o camarote, a Prefeitura reconhece, em nota, que "o Carnaval é uma festa que ressurgiu e cresceu pelas mãos da população da cidade". Sob comando do prefeito Márcio Lacerda (PSB), a Prefeitura de BH ainda diz que "cabe ao órgão público municipal garantir a infraestrutura necessária para a manifestação espontânea dos foliões", afirmando que dialoga com todos os representantes da festa.

A força da atual folia na capital mineira é fruto de um movimento popular que reativou a tradição do Carnaval de rua de forma espontânea, sobretudo a  partir de 2009, quando blocos organizados por artistas e movimentos sociais passaram a desfilar pelas ruas da capital mineira, inclusive na periferia, "como forma de resistência", como enfatizam seus representantes.

O movimento Cidade que Queremos BH, que tem representantes de blocos periféricos como Filhos de Tcha Tcha e Tico Tico Serra Copo, afirma que, juntos, fizeram "a revolução da festa, ocupando anarquicamente com corpos em êxtase o espaço público que os poderes instituídos querem ver negados, regulamentados e mercantilizados".

"Nenhum Camarote"

O movimento Carnaval de Rua BH, representando mais de 50 blocos, entre eles o Então, Brilha, Juventude Bronzeada e Filhos de Olorum, divulgou nota de repúdio ao camarote e também à Prefeitura de Belo Horizonte. O texto, batizado de "Nenhum Camarote", afirma que a retomada do Carnaval partiu do desejo das pessoas de "estarem juntas nas ruas da cidade" e que é "um contraponto a um modelo de cidade excludente, privatista, individualista".

A nota ainda afirma que "quem faz a festa é a rede anárquica e deliciosa de pessoas que botam seus blocos na rua, que cantam e tocam, que inventam fantasias, que reinventam a cidade em seu ocupar pedestre". O movimento afirma também quem "em 2009 e 2010, a Prefeitura ignorou a festa que vinha sendo feita. Em 2011, decidiu combatê-la [...] A partir de 2012, [a Prefeitura de BH] tentou se apropriar da festa e distorcê-la". A Prefeitura de Belo Horizonte nega.

"Mais uma opção"

Em nota, a DM Promoções e a Avisrara Produções, empresas responsáveis pelo Camarote Belô, reiteram que o evento é "uma iniciativa privada" que "não possui qualquer vínculo com a Prefeitura de Belo Horizonte".

O camarote ainda afirma que seu objetivo "não é segregar e muito menos se apropriar do Carnaval de Belo Horizonte, que teve uma retomada impressionante graças ao empenho e à persistência dos foliões da cidade". Segundo os produtores, o camarote "foi criado para ser mais uma opção" e que o horário dos shows, entre 20h e 4h, não compete com os blocos, que saem durante o dia.

"A organização do Camarote Belô acredita na democracia do Carnaval, a qual permite a realização de festas abertas na rua, assim como eventos privados. O público tem o direito de escolher onde quer curtir o Carnaval", afirmam os representantes do Camarote Belô.

"Politização, consciência e liberdade"

Frequentadores dos blocos defendem o Carnaval de rua e são contra o camarote. Gente como o ator Marcos Coletta, que vê no Carnaval de rua "uma defesa da ocupação do espaço público como lugar de manifestação popular e livre". Coletta diz mais: "O camarote parece piada, de tão cafona e oportunista. Camarote não tem nada a ver com o nosso Carnaval".

A pedagoga Silvia Regina, que vai desfilar no bloco afro Angola Janga, lembra que "antes, no Carnaval, a cidade ficava toda quieta" e que diversão só se encontrava indo para as cidades históricas. Em sua visão, o Carnaval de rua belo-horizontino é resultado "de muita luta dos movimentos sociais de ocupação do espaço urbano".  Tal postura de "politização, consciência e liberdade" durante a folia persiste na cidade ao longo do ano.

A professora de português Rayana Almeida, para quem "criar um camarote é elitizar o Carnaval", assim como Silvia vai seguir o bloco afro Angola Janga. "É composto por negras e negros da cidade. É a demonstração de força do pobre e preto de periferia que ainda existe e resiste", explica. Para ela, não há dúvida de quem deve ser dono da folia belo-horizontina: "Com certeza quem fez a festa crescer foi o povo da periferia, claramente excluído das baladas caras. Estas pessoas querem fazer a festa para fugir do caos da cidade".

Diante de toda essa polêmica nas ruas da capital mineira, chama a atenção o tema escolhido pela Belotur para o Carnaval de BH 2016: "A Cidade É Sua. A Festa É na Rua". 

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