Recife e Olinda

Por que cancelar o Carnaval não vai ajudar a tirar o país do buraco

Anderson Baltar*

Do UOL, no Rio

  • Arquivo pessoal/Lorraine Alves

    28.jan.2016 - Foto do Carnaval 2015 mostra desfile no Rio de Janeiro de bloco com críticas ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT)

    28.jan.2016 - Foto do Carnaval 2015 mostra desfile no Rio de Janeiro de bloco com críticas ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT)

Entra Carnaval, sai Carnaval, a história se repete: enquanto centenas de milhares de brasileiros aproveitam o período para extravasar e esquecer dos problemas, há sempre aqueles que bradam aos quatro ventos que o "festival da carne" é um desperdício de tempo e de dinheiro. Neste 2016, quando o país enfrenta uma de suas piores crises econômicas e políticas dos últimos anos, não poderia ser diferente. Basta correr os olhos por reportagens de Carnaval publicadas aqui mesmo no UOL para ver que muita gente acredita que "o zé povinho" não tem motivos para festejar e que o Carnaval deveria mesmo é ser cancelado por decreto - diante da falta de verbas, não foram poucas as prefeituras que abriram mão da folia. Mas será que cancelar o Carnaval vai ajudar a tirar o país do buraco?

"Até entendo que, por conta da crise, o Carnaval tenha sido cancelado em cidades em que ele não traga turistas. Mas, no Rio, ele é uma marca registrada da cidade, é um dos principais atrativos. Não há como se pensar nisso, principalmente pelos benefícios que ele traz para a cidade", afirma Antônio Pedro Figueira de Melo, secretário municipal de Turismo do Rio de Janeiro.

Dados da Riotur, órgão executivo da Secretaria, estimam que o Carnaval de 2016 atrairá um milhão de turistas e injetará cerca de R$ 3 bilhões na economia da cidade. Onze transatlânticos estarão atracados no porto (em 2015, eram quatro) e trarão para a cidade 130 mil turistas.

A Ambev patrocina o Carnaval de rua e cerca de 70% dos gastos dos desfiles das escolas do Grupo Especial são bancados pela venda de ingressos e CDs, direitos de televisionamento e patrocínios.  Toda a estrutura da Marquês de Sapucaí é montada e custeada pela Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba).

 

Por outro lado, o poder público empregou R$ 70 milhões em investimentos estruturais e apoio a blocos de rua e escolas de samba – as do Grupo Especial contam com formas próprias de arrecadação e patrocínio.

 

"O Carnaval, para a prefeitura, é um investimento com retorno certo. Movimenta a economia e fomenta a criação de milhares de empregos diretos e indiretos. Tem toda a cadeia produtiva envolvida nas escolas de samba, os fornecedores, o faturamento nos bares, restaurantes e hotéis. O retorno é gigantesco perante o investimento", diz o secretário.

O vice-presidente de Hotéis do SindRio (Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro), Alexandre Sampaio, afirma que, em 2016, já houve um incremento de 5% nas vagas de empregos no setor por causa do Carnaval. "O setor de serviços e turismo estão com o nível de contratação alto, ao contrário do comércio e indústria, que estão em retração. E o Carnaval potencializa isso demais. É o principal evento do Rio de Janeiro", afirma Sampaio.

Segundo estimativas do SindRio, as taxas de ocupação deverão chegar ao menos a 85% dos hotéis e de 95,91% dos albergues do Rio de Janeiro. "Com o dólar alto, estamos recebendo muitos estrangeiros e brasileiros que desistiram de viajar para o exterior. Os principais hotéis da Zona Sul já estão esgotados", relata o hoteleiro, que também destaca como dado favorável a previsão de crescimento de 15% a 18% do número de clientes nos bares e restaurantes durante o Carnaval.

"Aqui ninguém reclama muito do investimento no Carnaval e não na Saúde, na Segurança. [Cancelar a festa] Seria um grande prejuízo. A movimentação econômica supera em muito o gasto total e é de extrema importância. O Carnaval é o principal produto de Salvador"
José Carlos Arerê, presidente da União de Entidades de Samba da Bahia

Em Salvador, onde a folia já começou e terá um total de dez dias, a expectativa é de que R$ 1,5 bilhão entre na economia da cidade. Segundo a Saltur (Empresa Salvador Turismo), a ocupação dos hotéis chega a 96% dos quartos.

Para um dos carnavais mais tradicionais e procurados do país, o custo chega a R$ 50 milhões, dos quais, R$ 35 milhões são desembolsados pelos patrocinadores (Schin, Itaipava, Itaú e Air Europa). "A maioria da verba para o Carnaval é da iniciativa privada. O poder público contrata as atrações, monta a infraestrutura e oferece serviços públicos, como saúde, bombeiros e segurança. No Carnaval, não temos obras como na Copa do Mundo, por exemplo. Ao contrário, a estrutura do Carnaval se adapta à cidade. São estruturas temporárias em locais definidos", afirma Isaac Edington, presidente da Saltur.

O Governo do Estado da Bahia investiu R$ 69 milhões na folia de 2016. No ano passado, o montante foi de R$ 80 milhões. Desse total, R$ 42 milhões vão para pagamento de horas extras de policiais. Os profissionais da área de saúde também ganham adicional nesse período, recebendo um total de R$ 3,4 milhões.

"Aqui ninguém reclama muito do investimento no Carnaval e não na Saúde, na Segurança. Até porque esses setores também recebem investimentos", atesta José Carlos Arerê, presidente da União de Entidades de Samba da Bahia (Unesamba). Festeiro por natureza e sabedor do potencial turístico de sua festa, o soteropolitano nem cogita a hipótese de cancelar o Carnaval. "Seria um grande prejuízo. A movimentação econômica supera em muito o gasto total e é de extrema importância. O Carnaval é o principal produto de Salvador", afirma Edington.

Já está longe o tempo em que São Paulo era considerada, maldosamente, o "Túmulo do Samba". De acordo com pesquisa da Spturis (São Paulo Tuirsmo),  estima-se que o Carnaval na capital paulista movimente R$ 278,6 milhões de reais somente com gastos de turistas e paulistanos que curtem a folia.

O curioso é que, embora tenha um investimento cinco vezes menor que as escolas de samba, os blocos independentes movimentam 85% mais dinheiro do que os desfiles. Enquanto na folia nas ruas faça girar R$ 181 milhões,  a festa no Sambódromo movimenta R$ 97 milhões, segundo o órgão.

Isso se faz refletir na economia. De acordo com o Censo do Samba Paulistano de 2014, o Carnaval gera cerca de 5,4 mil empregos nas agremiações e outros 4,7 mil pessoas trabalham na organização e realização do evento.

O investimento da Prefeitura de SP é de R$ 50,5 milhões de reais dos cofres municipais. Desse total, R$ 34 milhões são destinados para os desfiles das escolas de samba, bandas, blocos e cordões carnavalescos. O dinheiro é entregue como subvenção a 110 agremiações. Outros R$ 10 milhões são gastos com infraestrutura para a realização dos eventos, o que inclui equipamentos, serviços, produtos e pessoal técnico e operacional. 

Por sua vez, o Carnaval de rua está recebendo um investimento de R$ 10, 5 milhões de reais. Desse montante, R$ 7 milhões de reais são da administração pública, e o restante  – o equivalente a R$ 3,5 milhões – vem dos patrocinadores Amstel e Caixa Econômica Federal.

Já Pernambuco recebeu, no Carnaval 2015, 905 mil turistas, garantindo a ocupação de 92% da rede hoteleira. Dos visitantes, 91% era formado por brasileiros. A folia representou a injeção de R$ 1 bilhão na economia do Recife e Região Metropolitana, Bezerros, Nazaré da Mata, Triunfo e Garanhuns. No total, 1,5 milhão de pessoas brincaram nos folguedos locais. No período do Carnaval, foram contabilizados 63 voos extras, vindos principalmente de São Paulo, Campinas, Porto Alegre e Brasília.

* Colaboraram Ana Cora Lima, Felipe Branco Cruz e Jussara Soares

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