Rio de Janeiro

Cordão da Bola Preta arrasta mais de 1 milhão de pessoas no centro do Rio

Mariana Costa*

Do UOL, no Rio

Uma multidão de mais de 1 milhão de pessoas, segundo a Riotur, ocupou as ruas do Centro do Rio neste sábado (6) para brincar o 98º Carnaval do Cordão da Bola Preta, o maior e mais antigo bloco de carnaval da cidade e um dos maiores do mundo. Foram quatro horas de folia sob forte calor, pouco policiamento e muita confusão. O Bola disputa com o Galo da Madrugada, no Recife, o título de maior bloco de rua do planeta. De acordo com o Comando do 5º Batalhão da PM, duas pessoas foram presas durante o desfile. 

A concentração começou cedo, às 7h30, na rua Primeiro de Março. O desfile teve início com atraso de uma hora, às 10h. Com o fechamento da avenida Rio Branco, por causa das obras para implantação do VLT, pelo segundo ano consecutivo o Bola desfilou na rua Primeiro de Março e avenida Presidente Antônio Carlos. A multidão foi se formando ao longo do percurso, e, uma hora depois, vias como Nilo Peçanha e Almirante Barroso estavam completamente tomadas de gente até onde a vista alcançava.

Na folia, houve crítica aos políticos e à crise na saúde pública brasileira. Bonecos do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, e do agente da Polícia Federal Newton Ishii, conhecido como "o japonês da Federal", responsável por conduzir presos da Operação Lava Jato, eram carregados pelos foliões e deram o tom político à festa.

Também não faltou o mosquito aedes egypt e o "pixuleco", boneco do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva vestido com roupa de presidiário. Havia também muitas camisetas com a frase "Quem é essa aí, papai?" e um protesto solitário em uma singela placa de papelão onde se lia "Je Suis Mariana".

A situação da saúde foi o tema da fantasia do professor de educação física Rafael de Jesus Silva, de 29 anos. Morador de Campo Grande, bairro da zona oeste do Rio, ele participou do tradicional Cordão da Bola Preta vestido de mosquito Aedes aegypt, transmissor da dengue, febre amarela, chikungunya e zika vírus. "Achei o momento oportuno para brincar sem esquecer a crítica ao descaso no combate ao mosquito, tanto dos políticos quanto da população. Acho que vou ajudar na prevenção", disse.

Destaque entre os foliões, um grupo de 40 moradores de Bangu, na zona oeste do Rio, acordou cedo para viajar até o centro da cidade, por cerca de uma hora, para participar do desfile. Fantasiados de homens da caverna e reunidos em um pequeno bloco de amigos e parentes, que batizaram de "Uga Uga do Catiri", chamavam a atenção por causa dos corpos e rostos pintados de preto, além dos machados de plástico que carregavam nas mãos. "Desde 1996 venho para o Bola Preta, sempre com a mesma fantasia. É uma tradição de amigos", contou o auxiliar de produção Fábio Prince, de 26 anos.

Novidades

Entre as novidades que o Bola trouxe este ano, houve a estreia da nova rainha, a funkeira Ludmilla, que chegou bastante atrasada, mais de quarenta minutos após o início do desfile. "Muita emoção ver minha 'nêga' hoje aqui", rasgou-se a avó de Ludmilla Vilma Salles, que iniciou a neta no Bola aos seis anos. "São mais de vinte carnavais aqui", lembra dona Vilma que, ao contrário da neta, chegou cedo.

"Carregar esse estandarte é sempre o dia mais feliz do meu ano, sempre", disse a porta-estandarte Leandra Leal. A madrinha, a cantora Maria Rita, chegou em cima da hora e falou rapidamente com a imprensa. Aparentemente foi confundida com a funkeira Ludmilla, ao ser questionada por uma repórter sobre a mistura do funk com o samba. "Culturalmente, têm tudo a ver", respondeu, educadamente.

O Bola abriu seu desfile com a marchinha que leva seu nome, seguida de tantas outras músicas centenárias como "Cabeleira do Zezé", "Sassaricando" e tantas outras que resistem ao tempo, apesar do conteúdo politicamente impróprio para os dias atuais. O "set" mais contemporâneo apareceu em "Descobridor de Sete Mares" e "Não Quero Dinheiro" de Tim Maia, além dos sambas-enredos consagrados e outros temas carnavalescos.

Menos calor

Para alegria geral, apesar do forte calor, o sol deu uma trégua durante as primeiras horas do desfile. Por volta de meio-dia, a temperatura girava em torno dos 33 graus. Alheia aos problemas na coluna que a obrigam a usar uma bengala, Angela Quaresma, de 63 anos, acompanhou todo o desfile, dentro do cordão de isolamento: "Já perdi as contas de quantos Carnavais passei aqui no Bola. Amo isso aqui".

Prova de resistência quem deu foi a equipe de apoio, composta por dezenas de integrantes, a maioria homens, responsáveis pela difícil missão de controlar a multidão fora do cordão de isolamento durante o desfile. Muitos caíam no samba e demonstravam impaciência inesgotável e muito bom humor para lidar com as investidas dos foliões.

Depois de uma hora de desfile, com a temperatura e o nível de embriaguez subindo, começaram as primeiras confusões, com dezenas de roubos, arrastões e brigas. Muitas vítimas reagiam e a confusão se armava. Um mesmo rapaz acusado de furtar foliões foi detido pelos seguranças do Bola em ao menos dois momentos.

A festa teve que ser interrompida em vários momentos. Por volta de 12h40, uma tentativa de assalto resultou em uma grande confusão. Um rapaz ficou ferido e teve que ser atendido pelos bombeiros, que tiveram dificuldade em chegar.
 
A retomada do desfile ficou com a rainha Ludmilla, que reacendeu a galera com versos de "É Hoje" e "24 Horas por Dia". Infelizmente, poucos minutos depois, a festa foi novamente interrompida por roubos e brigas.

 "Vocês reclamam do governo e dão o mau exemplo. Carnaval é festa, quem está fazendo confusão é porque tentou pegar o que não é seu. Deixem o povo festejar", ralhava do alto do carro, o presidente do Bola, Pedro Ernesto Marinho, na tentativa de apaziguar as brigas e retomar a festa. Sobrou até mesmo para os quarenta músicos da banda do Bola, que sofreram arremessos de gelo e latas.

Reprodução/GloboNews
Suspeito é detido durante o Cordão da Bola Preta no início da tarde deste sábado (6)
Policiais militares e guardas municipais foram vistos em ação apenas no fim do desfile, na altura da rua Araújo Porto Alegre, sendo muito aplaudidos pelos foliões. Segundo a polícia, o efetivo deslocado era de 200 agentes. Quando o desfile chegou ao fim, pontualmente às 14h, a multidão ainda lotava o quarteirão da avenida Presidente Antônio Carlos com a rua Araújo Porto Alegre.

Carnaval pago e renovação com Ludmilla

Antes do início do desfile, o presidente Pedro Ernesto comentou sobre as dificuldades que muitos blocos têm enfrentado em tempos de crise. "Tivemos preocupações, mas chegamos ao Carnaval a salvo e com tudo pago. Todo esse grande esforço tem esta recompensa, que é a alegria, a saudação e o comprometimento das pessoas com o Bola", comemorou.

Ele também falou do convite à funkeira Ludmilla, foliã antiga do Bola. O objetivo foi bem definido: renovar a turma do bloco. "A chegada da Ludmilla teve função de renovar, de trazer o jovem para o Bola. Sem isso, morremos", avaliou.

*Com informações da Agência Brasil e Estadão Conteúdo

 

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