São Paulo

Segunda noite de Carnaval no sambódromo de SP tem desfile da campeã Vai-Vai

Nelson Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Douglas Pingituro/Estadão Conteúdo

    Campeã do Carnaval de 2015 -- quando fez um tributo à cantora Elis Regina -- a Vai-Vai tenta um novo título com um enredo que homenageia a cultura francesa

    Campeã do Carnaval de 2015 -- quando fez um tributo à cantora Elis Regina -- a Vai-Vai tenta um novo título com um enredo que homenageia a cultura francesa

O segundo dia de desfiles do Carnaval 2016 de São Paulo, no Anhembi, vai começar com uma roda de samba e acabar em uma procissão de fé. Nesta noite disputada passam pela avenida a campeã de 2015, Vai-Vai, e a vice-campeã, Mocidade Alegre. Até às 19h30, chovia muito na região do Anhembi. Apesar das pancadas de chuva, a previsão para esta noite, segundo o Jornal do Tempo, é de céu nublado, com temperatura média de 23° C.

A Unidos do Peruche abre a passagem das sete escolas da noite, a partir de 22h35 --com transmissão ao vivo pela TV Globo-- com uma homenagem aos cem anos da chegada do samba ao Brasil, mesmo enredo escolhido pela Mocidade Alegre.

Já no amanhecer de domingo, a X-9 Paulistana encerra a folia com uma representação da famosa procissão do Círio de Nazaré, dentro de um enredo que fala do açaí e de tradições culturais de Belém do Pará. A ideia do carnavalesco da escola da zona norte de São Paulo é que a última ala passe pela avenida como se ali estivessem os fiéis em sua caminhada de devoção à Virgem de Nazaré.

O Círio e a religiosidade do brasileiro também estarão presentes no desfile da Tucuruvi, que vai falar sobre as festas de fé que se espalham pelo país. As viagens criadas pelos carnavalescos de São Paulo têm ainda outros destinos. Campeã do ano passado, a Vai-Vai quer levar o público à França, numa apresentação que tentará repetir a atmosfera de emoção causada pelo tributo, feito no ano passado, à cantora Elis Regina.

Completando a noite, a Império de Casa Verde promete um desfile cheio de mistérios a serem revelados na avenida; e a Dragões da Real espera fazer de sua apresentação um presente para o amante do Carnaval. 

Veja o resumo do que as escolas prepararam para a última noite do desfile do Grupo Especial de São Paulo:

Unidos do Peruche – 22h35

No ano em que completa 60 anos, a Unidos do Peruche vai para a avenida com uma homenagem a outro aniversariante: o samba, que completa cem anos de seu primeiro registro no Brasil. Campeã do Grupo de Acesso em 2015, a "Filial do Samba" volta à elite após cinco anos, sonhando em se manter no grupo principal. O fio condutor do enredo desenvolvido pelo carnavalesco Murilo Lobo é uma cronologia do centenário do samba no Brasil, com seguidas referências a grandes compositores e sucessos inesquecíveis desse gênero musical no país. O desfile começa com a chegada dos negros ao Rio de Janeiro e, junto com eles, as tias baianas, que amorosamente abriam seus quintais para o batuque, ponto de origem do candomblé e do samba.

O terreiro de Tia Ciata é um marco desse movimento cultural por ser frequentado por grandes músicos da época. Foi lá que nasceu, em 27 de novembro de 1916, "Pelo Telefone", samba composto por Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e o jornalista Mauro de Almeida. A bateria está no primeiro setor, dedicado às canções inesquecíveis, e seus integrantes virão como arlequins em fantasias feitas com retalhos de cetim. Em seguida, a Peruche vai retratar alguns clássicos do samba, como "As Rosas Não Falam", "Trem das Onze", "Foi um Rio que Passou em Minha Vida" e "O Bêbado e a Equilibrista". Encerrando o desfile, uma alegoria fará homenagem ao samba paulista, uma resposta àqueles que ainda insistem em se referir a São Paulo como o "túmulo do samba".

Império de Casa Verde – 23h35

Reconhecida pela grandiosidade de seus carros alegóricos, a Império de Casa Verde entra na avenida sob uma nova ótica. O responsável por essa mudança é o carnavalesco Jorge de Freitas, que tem o desafio de fazer um desfile com a sua assinatura, mas sem perder a identidade luxuosa do "Tigre Guerreiro". Para isso, Jorge investiu pesado na aproximação com a comunidade para que a escola seja reconhecida também pela harmonia, evolução e entrega dos componentes na defesa do samba. O enredo, cujos detalhes não foram revelados, vai falar do mistério da vida. A proposta é viajar por tudo aquilo que o homem busca explicação, como os mistérios da fé, da morte, de civilizações e da vida em outros planetas.

O abre-alas --uma gigantesca composição dividida em três módulos-- é a representação da cidade do Eldorado. A segunda alegoria representa a fé, com predominância de cores que remetem à vida religiosa, como o dourado e o vinho. Na sequência, as alegorias representam a Atlântida e o calendário Maia, e são chamadas pelo carnavalesco de nave-mãe. Quem visitou o barracão garante que o desfile deixará latente a combinação da grandiosidade da Império e do estilo do carnavalesco, que gosta de alas coreografadas e absoluto rigor nas fantasias. A rainha de bateria, Valeska Reis (assistente de palco de Rodrigo Faro na Record), vai se utilizar de truques de mágica para trocar de figurino diversas vezes durante o desfile. Outro destaque feminino junto ao time de ritmistas é a atriz Lívia Andrade, musa de Silvio Santos no SBT, que está de volta à escola na condição de madrinha.

Acadêmicos do Tucuruvi – 0h40

Terceira escola a entrar na avenida, a Acadêmicos do Tucuruvi vai propor uma viagem pelo Brasil no caminho da fé, com o tema "Celebrando a Religiosidade, Tucuruvi Canta Festas de Fé". O enredo, que pelo sétimo ano consecutivo tem a assinatura do carnavalesco Wagner Santos, aborda as mais diferentes práticas de rituais, muitos dos quais acabaram incorporados aos costumes do povo brasileiro. No Carnaval de 2015, a Acadêmicos do Tucuruvi ficou em 6º lugar, sua melhor colocação na folia paulistana foi em 2011, quando foi vice-campeã.

A narrativa da escola tem valor histórico, e começa no tempo do descobrimento. A comissão de frente será uma representação da festa da Santa Cruz, ocasião em que os jesuítas plantam a cruz em solo brasileiro e os naturalistas reverenciam o cristianismo. A bateria vai representar os feiticeiros que tinham permissão para tocar dentro da igreja em algumas festas de fé. No segundo setor, a escola passará por caminhos percorridos por milhares de romeiros do Brasil, como o Círio de Nazaré, a romaria à basílica de Aparecida e a prece ao pé do Padre Cícero. O clima de festa religiosa ganha mais força no terceiro setor da escola, com a celebração de Santo Antônio, São João e São Pedro, que transformam o desfile num grande arraial com muitos balões, fogueira e comida típica. Encerrando a apresentação, o último carro trará um presépio, representando o Natal, a maior festa religiosa do mundo.

Mocidade Alegre – 1h45

Com um enredo em homenagem ao centenário do samba no Brasil, a Mocidade Alegre promete ir além da efeméride. Em busca de seu 11º título no Grupo Especial, a agremiação levará ao sambódromo do Anhembi o enredo "Ayô - A Alma Ancestral do Samba", com o qual pretende reafirmar sua tradição de desfiles impecáveis. A proposta desenvolvida pelo carnavalesco Sidney França é apresentar a história do samba por meio de uma lenda africana que conta o nascimento do orixá Ayô. Segundo o enredo, a lenda surgiu em um festejo tribal africano, quando Exu conta a Xangô que um irmão estava aprisionado dentro de um tambor. O rei Xangô parte esse tambor ao meio e dele surge Ayô, que é tido até hoje como o orixá do som e da música. Liberto, Ayô consagra os tambores de diversos povos da mãe África. Uma vez tocados, enfeitiçam homens e deuses, que tomados pela sua alegria se entregam às mais sublimes expressões da felicidade: cantar e dançar.

O destino de Ayô será zelado por mais quatro divindades encantadas: Oyá, que o levará para outro continente; Oxumaré, que espalhará seu axé pela imensidão do território; Omolú, que o transformará em símbolo de uma nação, e Ogum, que o eternizará. A teatralização do episódio da libertação de Ayô é a base da coreografia da comissão de frente e dará a sustentação para o desenvolvimento de todo o desfile da escola. Nessa linha, as baianas vão representar Tia Ciata, considerada a mãe do samba brasileiro. É no quarto setor do desfile que a escola passa a dar mais ênfase à presença do samba no Brasil, tornando-se o gênero musical símbolo do país e do Carnaval, cultuado e sacramentado dentro do coração do povo. A escola encerra o desfile narrando como o samba se enraizou, até ser criada a escola de samba.

Reinaldo Canato/UOL
A rainha de bateria da Vai-Vai, Camila Silva, no desfile das campeãs do Carnaval 2015

Vai-Vai – 2h50

Com a dura missão de superar o vitorioso desfile do ano passado em homenagem à Elis Regina, a Vai-Vai aposta em um novo tributo para faturar seu 16º título do Carnaval paulista. Desta vez, a agremiação vai fazer reverência à França no enredo "Je Suis Vai-Vai. Bem-Vindos à França!". A missão de criar um Carnaval campeão foi confiada ao casal Renato e Márcia Lage, artífice de grandes desfiles em grandes escolas do Rio de Janeiro. É de se esperar uma Vai-Vai mais refinada, com maior capricho nas alegorias e fantasias, além de inovações que marcam a trajetória da dupla. Parte disso poderá vir no abre-alas, que vai ser a junção de três carros acoplados, representando a Paris Cidade Luz, com menções ao Museu do Louvre, à Torre Eiffel e à Catedral de Notre Dame. A segunda alegoria retrata a vida, a moda e os costumes de Paris, representados pelo famoso cabaré Moulin Rouge. O quarto carro dá um salto no tempo e mostra uma França moderna, berço da indústria de games e da engenharia aeronáutica. Finalizando a passagem da escola, a quinta alegoria representa o povo brasileiro absorvendo a cultura francesa a partir do manifesto antropofágico de 22.

A história a ser contada na avenida tem como fio condutor uma viagem imaginária do personagem Criolé, mascote da escola. Ele sai da Praça 14 Bis, coração do Bixiga, na região central de São Paulo, e desembarca na capital francesa, onde se deslumbra com suas especialidades e os grandes personagens da história que ajudaram a fazer da França o destino turístico mais visitado do mundo. O enredo se completa com a influência da cultura francesa no Brasil, a partir da Semana de Arte Moderna de 22. O desfile vai além da homenagem e reserva espaço para um protesto, pacífico, contra a onda de terror que fez centenas de vítimas nos ataques à redação do jornal "Charlie Hebdo" e às ruas de Paris no ano passado. Incluída na última hora ao enredo, a referência aos atentados será tratada como um manifesto pela paz mundial.

Dragões da Real – 3h55

Se a primeira noite foi dos corintianos, a segunda reserva um momento de glória para os torcedores são-paulinos, que poderão conferir, mais uma vez, a passagem da Dragões da Real no Grupo Especial. Quinta colocada no ano passado, a escola volta para a avenida cheia de moral. Na comemoração dos seus 15 anos de história, a Dragões criou um enredo falando sobre o ato de dar e receber presentes, um gesto de amor e felicidade tanto para quem presenteia quanto para o presenteado.

Valendo-se da magia do Carnaval, quem contará essa história será o próprio presente, que ganha vida na proposta de desfile desenvolvida pela comissão integrada por Dione Leite, Junior Schall, Rogério Félix, Flávio Campelo e Jorge Silveira. O enredo está divido em cinco partes, mostrando a importância do presente nas relações humanas. O presente é mostrado como um símbolo em várias culturas, a ponto de ser oferecido a deuses, santos e entidades. Trata-se de um ato de amor e fé, seja oferecido em forma de oração, em forma de canção ou da forma que for. Um dos destaques do elenco da escola é a rainha de bateria Simone Sampaio. Aos 36 anos, ela sai pela quinta vez à frente da bateria da Dragões, exibindo boa forma e o título de "rainha das rainhas".

X-9 Paulistana – 5h

A escola da Parada Inglesa promete encerrar o desfile do Grupo Especial de São Paulo de uma forma inusitada. A proposta é fazer com que a última ala a entrar na avenida simule, dentro do mais real possível, a procissão do Círio de Nazaré, uma das festas religiosas mais importantes do país. O quinto e último carro da escola será cercado por uma corda segurada por mais de 200 integrantes da escola, exatamente como fazem os fiéis na procissão oficial. Até o carnavalesco André Machado estará lá. A encenação tem tudo a ver com o enredo, que vai contar a lenda do açaí, a fruta guardiã do Pará, e a influência da cultura de Belém.

A escola tem dois títulos em sua história, de 1997 e 2000 (quando dividiu o primeiro lugar com a Vai-Vai), e nos últimos anos ficou sempre na metade da tabela de classificação. A aposta é virar esse jogo neste ano. A comissão de frente vai retratar a lenda indígena que conta a descoberta do açaí como um vigoroso alimento na floresta. A cidade de Belém do Pará também ganhou espaço no enredo. O desfile dará ênfase à figura de Castelo Branco, que fundou a cidade há 400 anos. Há também referência ao Forte do Presépio e ao tradicional mercado Ver-o-Peso, cartão postal da cidade e principal ponto de comercialização do açaí.

Veja como é a noite de quem desfila em SP

  •  

UOL Cursos Online

Todos os cursos