Recife e Olinda

Amigo de Suassuna, artista usa a folia de Bezerros para vender suas obras

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em Bezerros (PE)

Aos 80 anos e com dificuldade para caminhar, o pernambucano José Francisco Borges permanece firme como um dos principais Patrimônios Vivos de Pernambuco (mestres da cultura popular do estado). Seus trabalhos com cordel e xilogravura são reconhecidos internacionalmente e mantêm a essência ingênua que caracteriza este tipo de literatura, surgida no século 16.

O artista recebeu a reportagem do UOL em seu ateliê, localizado no município de Bezerros, no agreste pernambucano, em pleno domingo de Carnaval. Enquanto 300 mil pessoas lotavam as ruas da cidade, de 60 mil habitantes, para ver os desfiles dos mascarados papangus, J. Borges permanecia trabalhando. O local, instalado à margem da rodovia BR 232, que corta o estado de Pernambuco, é simples, mas guarda verdadeiros tesouros da cultura popular.

"A literatura de cordel é misteriosa. Antigamente ela era consumida por analfabetos e pobres. O cordel é uma cultura autêntica do Nordeste. O que contamos naquelas páginas é a história de um povo", diz enquanto olhava para a ilustração do Monstro do Sertão, criado por ele para representar o sol que castiga essa região do país.

Felipe Branco Cruz
J Borges mantém o Museu da Xilogravura

Batizado de Museu da Xilogravura, o lugar é repleto de ilustrações feitas por J. Borges e livros de cordel feitos por ele e sua família. Ele é pai de 18 filhos, sendo que o mais novo tem 11 anos, e todos ajudam no trabalho.

J. Borges decidiu virar escritor aos 29 anos, mas não encontrou ninguém para ilustrar suas obras. Então, ele próprio decidiu fazer os entalhes em madeira que formam as xilogravuras. Entre suas ilustrações mais notáveis estão a capa de "As Palavras Andantes", de Eduardo Galeano, e a abertura da novela "Roque Santeiro" (Globo). Muito amigo de Ariano Suassuna, Borges era considerado pelo escritor como o maior artista de Pernambuco. "Ele foi meu padrinho na arte", lembra Borges.

Com Suassuna, o artista guardou também uma saudável disputa pelo melhor time do estado. Torcedor doente do Náutico, Borges recebeu a reportagem usando o novo uniforme do clube, que ganhou de aniversário de 80 anos, completados em dezembro de 2015. "Acho que na minha vida eu nunca desenharia o escudo do Sport, time do Suassuna. Mas um dia me pediram para fazer o desenho e dar de presente para Ariano. Não teve jeito. Eu tive que fazer, porque ele era um grande amigo", lembra.

Borges conta que vende seu trabalho em todo o mundo, mas que os americanos têm supervalorizado a sua obra. "Eu vendo para eles uma ilustração por US$12 e eles revendem por US$250. Aí depois eles vão dizer que está em crise", disse.

Em Recife, seus trabalhos podem ser comprados no Centro de Artesanato Pernambucano. Em março, ele deverá inaugurar uma exposição em Campinas (SP), maio em Salvador (BA) e no final do ano em Lisboa, Portugal.
 

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