Rio de Janeiro

Jurado é barrado do Carnaval do Rio por suposta amizade com Zezé e Luciano

Luna D'Alama

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook/fabianoe.bonatto

    Fabiano Rocha (esq.) também é cantor sertanejo e já abriu show de Zezé & Luciano

    Fabiano Rocha (esq.) também é cantor sertanejo e já abriu show de Zezé & Luciano

O músico Fabiano Rocha, que seria um dos julgadores do quesito "bateria" no Carnaval 2016 do Rio, foi impedido pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) de trabalhar por suposta amizade com a dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano, homenageada este ano pela escola Imperatriz Leopoldinense.

Fabiano também tem uma dupla sertaneja, chamada Fabiano & Bonatto, e em 2014 abriu um show de Zezé Di Camargo & Luciano no Rio, mas nega ser amigo dos cantores. "Sou parte integrante desse meio, é humanamente impossível que eu não conheça as pessoas, nem que seja de 'oi'. Acabo conhecendo todo mundo por osmose, não tenho culpa. Mas não tenho amizade com eles [Zezé e Luciano]. O único acesso que tenho a eles é pelo Instagram, sigo os dois, mas nada além disso. Acompanho também o Luciano Huck e várias outras celebridades", defende-se o cantor e baterista.

O jurado acredita, porém, que para a Liesa isso parece ter pegado mal. "A decisão da Liga foi tomada no sábado à noite, mas não fizeram contato comigo no domingo. Fui avisado quando já estava lá pronto, com credencial, só faltava uma preleção do presidente [Jorge Luiz Castanheira Alexandre] com as últimas recomendações aos jurados. Foi nesse momento que ele me chamou num canto, numa reunião particular, e foi tudo muito rápido, porque o cronograma já estava atrasado. Ele apenas disse que achou por bem, pela lisura e transparência do julgamento, que eu não participasse. Ainda que a suspeita não tenha fundamento, eles viram ligação", contou.

Fabiano afirma que foi pego de surpresa, mas acatou a decisão de Castanheira. "Ele falou que gosta muito de mim e que conversaria comigo depois do Carnaval, mas não entrou em detalhes. Na correria, fiquei até sem argumento, deixei o dito pelo não dito. O que eu ia fazer nessa altura do campeonato?", questiona. Em seguida, ele defende a atitude da Liga e nega qualquer mágoa eventual: "A Liesa é um órgão muito sério, que conduz o Carnaval há anos, tem suas regras, e o presidente é uma pessoa superidônea. Saí por pequenas divergências em relação ao próprio regimento", analisa.

Segundo o jurado, o presidente da Liga ainda perguntou se ele gostaria de ir até a Sapucaí e acompanhar os desfiles do camarote, mas ele estava chateado e queria evitar especulações da imprensa, por isso foi embora para casa. "Aí na internet surgiram milhões de teorias conspiratórias, falaram que sofri um acidente, que fui sequestrado, mas a única verdade é essa. Isso acontece, já ocorreu em vários carnavais, só não lembro de ter sido tão em cima do laço. Quando eles [a Liga] sentem que há alguma suspeita, algo no ar, entre o sim e o não, optam por isso. Para mim, resta a defesa: sou desse meio, tenho dupla sertaneja desde 2010, mas nenhuma ligação com Zezé di Camargo & Luciano", repete.

Até familiares e amigos de Fabiano ficaram sem entender o que houve. "Alguns acham que sumi, que surtei, e estão sabendo agora. Fiquei o mais quieto possível, desativei todos os meus perfis pessoais, até para me preservar. Lá pela semana que vem, depois do Carnaval e da minha reunião com o presidente, devo lançar uma nota oficial, até porque devo uma satisfação aos torcedores, às escolas e às pessoas que gostam de mim. Como ficou uma situação chata, tenho que me retratar", diz.

Jurado desde 2011

Integrante da comissão julgadora do Grupo de Acesso do Carnaval do Rio desde 2011, Fabiano estreou como jurado do Grupo Especial no ano passado. Este, portanto, seria seu segundo ano de avaliação das escolas da Série A. Sem as notas dele e com apenas três jurados em 2016, as agremiações cariocas terão suas maiores notas duplicadas no quesito bateria, segundo o regulamento. "Se o anúncio tivesse saído com maior antecedência, daria para ter me substituído. E eu também tinha me programado, deixei de fazer coisas com a minha família, mas faz parte do jogo", afirma o cantor sertanejo, que receberia um pró-labore pelo julgamento.

O músico diz que não é nenhum segredo que ele seja julgador do Carnaval. "Inclusive moro próximo da comunidade da Tijuca e do Salgueiro, então é comum eu descer para comprar pão e as pessoas falarem: 'Dá uma força aí pra gente', mas não passa de brincadeira. Se fosse assim, os julgadores precisariam ficar um ano trancados num hotel para não falar com ninguém. Eu jamais deixei de dar uma nota alta ou baixa por qualquer motivo", destaca. Em 2015, Fabiano atribuiu 9,8 para a bateria da Imperatriz, a pior nota da escola entre os quatro jurados – que foi descartada no final. "Todas querem dez, mas nem todas são dignas de dez. Qualquer nota que eu desse este ano poderia ser mal interpretada", completa.

Fabiano revela que viu um pouco dos desfiles pela TV, já em casa, mas que o som que se ouve da televisão não é o mesmo da avenida, onde há mais nuances e a bateria para em frente aos julgadores por cerca de 1 minuto. "Eu ficaria no módulo um, são quatro no total, e tradicionalmente esse é um dos lugares mais difíceis – tanto para quem está se apresentando quanto para quem julga. Os artistas ainda estão frios e tensos", explica.

Assim como um comentarista de futebol em início de campeonato, que sabe quais são os times mais fortes daquela temporada, os julgadores do Carnaval têm suas apostas sobre as escolas, mas ele prefere se resguardar.

Se Fabiano vai voltar no Carnaval de 2017? "Não tenho informações sobre isso. Mediante toda essa confusão, ficou muito ruim para mim, pela forma como aconteceu. Tudo bem que a Liga deu uma declaração a meu favor, de que quis me preservar, de que foi de comum acordo. Mas não sei se quero voltar no ano que vem, me expus demais, foi uma exposição gratuita", diz o músico, que já tocou ao lado de percussionistas de escolas de samba – "mas nunca em quadras ou desfiles" – e não torce para nenhuma agremiação. "Não tenho ligação com o Carnaval, minha ligação é com a música", enfatiza ele, que pretende gravar um CD ao vivo com o parceiro Bonatto este ano. "Agora em tom de brincadeira, claro: já que sou tão amigo do Zezé Di Camargo e do Luciano, quem sabe eles não participam do meu disco novo?", finaliza.

Zezé e Luciano não ficaram sabendo

A assessora de Zezé Di Camargo e Luciano, Arleyde Caldi, diz que ficou sabendo pelo UOL sobre o imbróglio envolvendo o jurado. "Conhecer alguém não quer dizer que a pessoa seja amiga. É um procedimento natural [do meio] conhecer muita gente", afirma.

Segundo Arleyde, com certeza os cantores não tomaram conhecimento do ocorrido. Ela acredita que a atitude de Fabiano foi íntegra e que, se a Liga tomou essa decisão, foi para evitar problemas, pois "eles são muito organizados e sérios".

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