Salvador

Cordeiros do Carnaval de Salvador passam calor e aperto por R$ 50 ao dia

Ana Cora Lima

Do UOL, em Salvador

Separando os foliões que vestem abadás de até R$ 900 dos demais, que curtem o Carnaval de Salvador na pipoca, estão grupos de trabalhadores que também passam aperto e calor nos blocos, mas não é para se divertir. Chamados de cordeiros, as pessoas que seguram as cordas em volta dos trios elétricos encaram o sacrifício por cerca de R$ 50 ao dia.

O trabalho dos cordeiros consiste em manter a corda de separação "esticada", controlando a entrada e saída dos foliões de abadá, e principalmente impedindo as invasões dos que não pagaram ingressos (são muitos os foliões da pipoca que tentam curtir alguns momentos dentro da corda). Tudo isso em movimento, acompanhando a velocidade do trio elétrico, durante o desfile que dura em média 6 horas, muitas vezes sob o sol.

"É muito sofrimento. Se você pensar bem, não vale a pena, mas a necessidade fala mais alto. Em seis dias, vou ganhar R$ 300 e isso é um dinheiro e tanto para quem está desempregada há cinco anos", contou Cristiane da Conceição, de 41 anos.

Ela e mais sete amigos, de Nova Brasília, um bairro do subúrbio de Salvador, chegam às 10h para tentar a sorte e conseguir vaga em uma das cordas. "Tem gente que faz parte do grupo de um bairro e já chega aqui no esquema, mas quem não conhece ninguém e precisa de um bico para arrumar um trocado chega cedo e corre de trio e trio até conseguir uma vaga",  explicou Alessandro Souza, de 35 anos.

Há 22 anos trabalhando com produção de trios na parte organizar os cordeiros, Rogério Oliveira confirmou que a seleção de cordeiros é feita junto às associações de moradores, que uma semana antes de começar o Carnaval entrega uma lista com os nomes das pessoas que vão trabalhar.

"Há cordeiros que trazem vizinhos e amigos, mas tem também as pessoas que chegam para tentar a sorte na hora. Alguns conseguem, outros, não", disse Rogério." Esse ano a procura aumentou uns 30%, só que a oferta, não. Geralmente um bloco com 5 mil associados sai com 1.500 cordeiros. De 3 a 4 mil associados, com 1.200. E os menores, com 800. Só que tem bloco cortando os gastos e aí fica complicado", afirmou Rogério, responsável pelo bloco Me Abraça.

Um produtor de um bloco que preferiu não se identificar disse que todo bloco assina com a Superintendência Regional de Trabalho um Termo de Ajustes de Conduta (Tac), mas que alguns não cumprem. "Para ser um cordeiro precisa ter de 18 a 60 anos e não pode ser gestante. Se você procurar bem, vai ver menores e grávidas. Outra coisa: é obrigatório fornecer luvas e protetores auriculares, e isso não acontece. A mesma coisa com relação a alimentação e passagem. Tem muita coisa errada", entregou.

A falta de condições ideais de trabalho desanimou muitos cordeiros, que pretendem não repetir a dose. "Esse é o meu segundo ano e juro que não venho no próximo. Deu para mim. Por mais que eu precise é muita humilhação receber um minipacote de biscoito e duas garrafas pequenas e quentes de água. Eu trago tudo de casa para não morrer de fome e sede", entregou Luciene Santos.

 

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