Recife e Olinda

"Ele não estaria feliz", diz Roger, amigo de Chico Science, sobre Carnaval

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em Recife (PE)

  • Felipe Branco Cruz/UOL

    Roger fantasiado de lutador de telecatch no Carnaval de Recife

    Roger fantasiado de lutador de telecatch no Carnaval de Recife

No início dos anos 90, Chico Science começava a despontar no Brasil e ficou preocupado de que seus amigos achassem que ele estava ficando mascarado e distante de todos. A preocupação aumentou ainda mais após ele viajar para os Estados Unidos com a sua banda, Nação Zumbi. Para evitar ser tachado de metido, Chico passou a cumprimentar todo mundo na rua.

Em uma dessas ocasiões, ao sair do Soparia, um bar no bairro do Pina, em Recife, Chico viu que no ponto de táxi havia cinco taxistas. Ele bateu na janela de todos os carros e cumprimentou um por um e embarcou com o primeiro. Após o gesto extremo de gentileza, os motoristas que ficaram no local perguntaram entre si: "Quem é esse doido que saiu falando com todo mundo?".

A história acima ilustra bem a personalidade gregária de Chico e foi contada por Roger, ex-dono do Soparia, à reportagem do UOL durante o Carnaval na capital pernambucana. Foi no Soparia onde a carreira de Science e o movimento Manguebeat começaram a tomar forma. Anos mais tarde, Chico homenagearia o amigo com o refrão chiclete "Cadê Roger, cadê Roger, cadê Roger ô", do hit "Macô". "O Soparia foi uma espécie de CBGB's do Mangue", descreve Roger, se referindo ao lendário bar de Nova York onde o punk surgiu.

Como Chico já havia cantado, não foi fácil encontrar Roger. Ele estava fantasiado de lutador de telequete dançando frevo em frente a um palco montado no Pátio São Pedro, no centro da capital pernambucana. "Esse é o verdadeiro Carnaval de Recife. Não são esses shows para multidões que o governo tem feito", disparou.

Neste ano, quando Science completaria 50 anos, o Carnaval de Recife resolveu homenagear o seu ilustre compositor. Pela cidade, era possível encontrar imagens do músico em cartazes e painéis de divulgação. Além disso, o bloco Galo da Madrugada também homenageou o músico com direito, inclusive, a carro alegórico e boneco gigante do cantor. Mas a homenagem não agradou o amigo. "Recife está se transformando em um grande camarote. O Carnaval tem que ser nas ruas e não em um lugar que custa R$ 300 para ficar", disse, apontando o camarote do Galo da Madrugada.

Para Roger, só não "gourmetizaram" o manguebeat porque ainda não entenderam o que é o movimento. "Hoje em dia, usam a palavra mangue para tudo. É manguefest, polomangue, mangue daqui, mangue de lá... Transformaram o mangue em uma marca. É mais fácil botar o nome de mangue nas coisas do que ouvir a opinião das pessoas", reclamou.

Desde os anos 90, Roger é um dos principais agitadores culturais de Recife. Atualmente, ele toca o projeto Som na Rural, com o objetivo de ocupar os espaços públicos da capital. "Critico a 'camarotização' do Galo. Se Chico estivesse vivo, ele não estaria feliz", afirmou. "Toda homenagem para o Chico é merecida, mas é impossível falar de Carnaval sem falar de políticas públicas", completou.

O produtor cultural foi além e criticou também os governantes do estado. "Recife está sob ataque de um prefeito e de um governador coxinhas, órfãos diretos de Eduardo Campos, sem experiência política nenhuma e sob pressão dos financiadores de suas campanhas", alfinetou.

Grandes shows no Carnaval

Roger também não aprova a promoção de um Carnaval com grandes shows, a exemplo do que ocorre no Marco Zero. Na segunda-feira, por exemplo, Nação Zumbi, O Rappa e Jota Quest levaram quase 200 mil pessoas para o local, deixando o centro antigo intransitável, bem distante do Carnaval tradicional do estado.

"O que aconteceu no show da Nação Zumbi é um exemplo da política higienista dos camarotes e do carnaval de shows. O palco faz com que as pessoas e as novas gerações se afastem dos blocos e da beleza maior que é a síntese de todo Carnaval – que é a nossa cultura popular. O multicuturalismo do Carnaval de Pernambuco é uma falácia mal entendida, mal explicada e oportunamente aplicada", explicou. "Eu sei disso, porque um homem roubado nunca se engana", disse o produtor cultural, citando a letra da música "Da Lama ao Caos", do Nação Zumbi.

Para Roger, estes grande shows durante o Carnaval deixam a festa popular mais parecida com uma Virada Cultural de São Paulo do que com uma tradição carnavalesca tipicamente pernambucana. "Vem bandas de fora, tipo Titãs ou Pitty, e não tocam uma música de Carnaval. Não deveríamos nos esquecer de nossas tradições", finalizou o produtor.

Chico Science

De fato, mesmo fora do Carnaval, é muito fácil encontrar referências sobre Chico Science em qualquer lugar do Recife. Na Rua da Moeda, no Recife Antigo, por exemplo, inauguraram uma estátua do cantor em tamanho real em frente ao bar Novo Pina. Este bar, aliás, é o herdeiro direto do Soparia, que fechou as portas no bairro do Pina, para ser batizado com o novo nome, agora no centro, que ficou sob o comando de Roger por alguns anos até ele vender a sua parte.

A própria banda Nação Zumbi, da qual Chico Science fez parte, está intimamente ligada com a capital. O show que o grupo fez durante o Carnaval registrou cenas de comoção coletiva difíceis de entender para quem não mora na cidade. 

Jorge DuPeixe, vocalista do Nação, conversou com o UOL após o show. Para ele, as apresentações em Recife são sempre muito intensas. "Sempre fazemos um show em tom de reverência ao Chico", disse Jorge.

O repertório do show contou com as músicas novas da banda, lançadas depois da morte de Science, porém cerca de 70% das faixas ainda eram da época de Chico, como "Maracatu Atômico", "A Praieira", "Manguetown" e "Da Lama ao Caos". "Essas músicas são nossas também. A Nação é a mesma banda da época do Chico e sempre seremos a banda do Chico", finalizou.

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