Rio de Janeiro

Suor e strass: Duas francesas têm o Carnaval de suas vidas no Rio

AFP/Yasuyoshi Chiba
Dançarina francesa Maryam Kaba durante ensaio com a Vila Isabel Imagem: AFP/Yasuyoshi Chiba

22/02/2017 13h09

"É a aventura mais louca da minha vida". É assim que a francesa Maryam Kaba descreve sua experiência no Sambódromo, dançando em cima de um carro alegórico durante um ensaio técnico do principal desfile do Carnaval do Rio.

Sua amiga, a também francesa Anne Cécillon, corre nos bastidores para colar - um a um - o strass de sua fantasia.

Anne e Maryam estão no Brasil há cinco e três anos, respectivamente, e vivem uma experiência excepcional. Embora vários estrangeiros desfilam nos dias 26 e 27 de fevereiro, comprando fantasias para apoiar as escolas de samba, poucos são os que se dedicam de corpo e alma a esse projeto.

Maryam, de 38, integra a Comissão de Frente da Vila Isabel, e é a única mulher a desfilar ao lado de 14 homens - todos com corpos esculturais, inclusive ela.

"O coreógrafo me alertou. Ele me disse: 'você é a primeira na avenida, você carrega toda a escola nas costas'. Se a Comissão de Frente for mal, toda a escola vai mal", conta ela, encharcada de suor depois de mais um dos vários ensaios que terminou depois das três da manhã.

Da Afrovibe ao samba

"Não era realmente um sonho desfilar no Carnaval do Rio. Nunca pensei em fazer isso. Era uma coisa super distante para mim. Eu dizia para mim mesma: precisa ser brasileiro para realmente amar o Carnaval, precisa ter isso no sangue", confessa a jovem francesa, que foi descoberta no Facebook.

"Deus a colocou diante dos meus olhos. Eu procurava uma grande mulher e a encontrei. É a francesa mais brasileira que eu já vi. Ela tem um sangue extraordinário", emociona-se o coreógrafo Patrick Carvalho.

Maryam chamou a atenção de Patrick, graças ao Afrovibe, uma nova modalidade, que ela criou com uma amiga e que mistura fitness e dança africana. As aulas acontecem pela manhã, quase sempre na praia.

Além do desafio artístico, essa ex-atleta de ginástica rítmica orgulhosa de seu penteado afro se sentiu atraída pelo tema escolhido pela escola: "O som da cor", sobre a influência dos negros na música.

"Nosso grupo representa os escravos, mas somos os primeiros a entrar. No Brasil, há graves problemas de desigualdade racial, então, o que a gente representa no Carnaval é super forte", comenta a filha de um marfinense e mãe francesa.

AFP/Yasuyoshi Chiba
Anne Cecillon prepara o figurino das dançarinas na Grande Rio, em seu ateliê na Cidade do Samba Imagem: AFP/Yasuyoshi Chiba

"Com amor"

Já Anne Cécillon, bailaria por formação, não estará sob a luz dos holofotes no Sambódromo. Recém-chegada do México, onde tinha uma companhia de cabaré, ela sempre se interessou pelas fantasias. No Rio, dedicou-se a estudar moda especializada em Carnaval e começou a bater nas portas dos barracões das escolas.

Depois de muito insistir, essa loira de 46 anos conseguiu fazer parte - como voluntária - de um ateliê da Grande Rio. E não foi qualquer oficina, e sim a de "fantasias especiais", destinadas, principalmente, às musas da escola que saem como destaque nos carros alegóricos.

"Como isso passa na televisão, com closes, é preciso ter atenção com cada detalhe. Cada fantasia é feita a mão, com amor", afirma, enquanto mergulha a mão avidamente em um grande saco de strass.

O chefe do ateliê, Fernando Abreu, que ainda não havia trabalhado com uma estrangeira, está satisfeito de poder contar com esse novo olhar. "Trocamos nossas experiências sem parar e aprendemos muito um com o outro", elogia.

Mesmo com o aumento da pressão à medida que o grande dia se aproxima, Anne espera ansiosamente pelo desfile. "Vai ser maravilhoso. Para mim, é realmente um sonho. Vou ficar muito emocionada, acho que vou até chorar", admite.

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