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Com poucos enredos patrocinados, sambas das escolas do Rio trazem qualidade

Douglas Shineidr/UOL
Ala do desfile da Mangueira, campeã do Carnaval 2016, que homenageou Maria Bethânia Imagem: Douglas Shineidr/UOL

Anderson Baltar

13/12/2016 07h00

Como em todo fim de ano, chegam às lojas e plataformas virtuais o CD das escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval carioca. E, se a receptividade do mercado não é a mesma dos áureos anos 1970/1980, quando o álbum figurava na parada de mais vendidos, a culpa não pode ser atribuída aos sambas-enredo.

Como visto em 2016, é perceptível o bom nível das obras para o próximo Carnaval, resultado de uma retomada iniciada no início da década. Ao invés de fórmulas batidas e da eterna busca pelo refrão pegajoso, os compositores das escolas estão, cada vez mais, apostando em letras mais elaboradas e estruturas diferentes para os hinos. Outro fator que não pode ser desprezado é que, em tempos de crise, os patrocínios esdrúxulos sumiram dos enredos, que, em sua grande maioria, trazem enfoques de natureza cultural e não mercadológica.

Na Sapucaí em 2017

Um dos sambas que se destaca na safra demonstra claramente esta tendência. A Beija-Flor de Nilópolis, que se especializou em enredos patrocinados por governos de qualquer esfera, levará para a avenida “Iracema”, o clássico romance de José de Alencar. Para ilustrar o tema, a escola de Nilópolis aposta em um samba bastante melodioso e com um refrão longo, porém extremamente grudento. Basta uma audição para que os versos “Vou cantar juremê, juremê, juremê/ Vou cantar juremá, juremá!” se reproduzam em lopping em nossas mentes pelo resto do dia.

Dona de um dos mais belos acervos de sambas da história, a União da Ilha do Governador há muitos anos devia um grande samba. No Carnaval 2017, essa dívida será paga com juros e correção monetária. A partir de um enredo de inspiração afro, “Nzara Ndembu, glória ao Senhor Tempo”, a tricolor levará para a Sapucaí um samba de força, com belas passagens harmônicas e um refrão que tem tudo para levantar o público. Também com pegada africana, a Vila Isabel se destaca retratando a influência negra na música latino-americana. O samba da escola de Martinho (que, neste ano, não participou do concurso de samba-enredo) tem melodia envolvente e lembra os bons tempos de carnavais como “Kizomba” (campeão em 1988).

Se, em um primeiro momento o patrocínio se mostra como impeditivo para a composição de um bom samba, a Mocidade Independente de Padre Miguel subverte essa premissa. Contando as belezas e tradições do Marrocos, os compositores da verde e branco (capitaneados pelos experientes Altay Veloso e Paulo Cesar Feital) conseguiram fazer uma obra de beleza melódica e poética e com uma pegada que os componentes da escola adoram. A Mocidade, que ficou apenas em 10º lugar no Carnaval passado, irá para a Sapucaí com outro espírito.

A safra de 2017 ainda tem particularidades interessantes. Como a Grande Rio, que ao exaltar a cantora Ivete Sangalo, conseguiu fazer um samba dentro do espírito da homenageada: empolgante e irreverente. Não à toa, a faixa da escola de Caxias está entre as 20 mais ouvidas em uma plataforma de streaming – dado nada desprezível no atual momento mercadológico do samba. A São Clemente, tida com uma escola brincalhona, traz um samba classudo para contar o enredo “Onisuáquimalipanse" (Envergonhe-se quem pensar mal disso), criado por Rosa Magalhães a partir da história da construção do Palácio de Versailles.

A campeã Mangueira traz um samba com sua marca: raçudo, de refrões fortes e com melodia empolgante, dando a seus componentes mais uma possibilidade de fazer mais um desfile “arrasta-povo”. A Portela, exaltando a importância dos rios para a humanidade, pega carona no clássico de Paulinho da Viola e traz uma obra que caiu no gosto de seus desfilantes e torcedores, honrando a tradição de bons sambas de Oswaldo Cruz e Madureira. O Salgueiro, por sua vez, enfocando uma visão carnavalizada da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, aposta em um samba sem refrão principal, mas não menos empolgante. Exaltando o Xingu, a Imperatriz Leopoldinense apresenta um samba de bela letra (talvez, a mais bonita do ano), porém cansativo em alguns momentos.

Clichê

O tom dissonante vem de Unidos da Tijuca e Paraíso do Tuiuti, que trazem obras em um nível um pouco abaixo das demais. A Tijuca, contando a história da música americana, apresenta um hino repleto de clichês, cuja melodia nos remete a sambas recentes da própria agremiação. E o Tuiuti, de volta ao Grupo Especial após 16 anos, não soube aproveitar o belo enredo sobre o Tropicalismo, trazendo um samba convencional e que certamente será esquecido após a quarta-feira de Cinzas.

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