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Estreando na União da Ilha, Carlinhos de Jesus está de volta à Sapucaí

Francisco Cepeda/AGNews
O dançarino Carlinhos de Jesus em março de 2015, após seu último desfile pela Mangueira Imagem: Francisco Cepeda/AGNews

Anderson Baltar

Especial para o UOL, no Rio

10/01/2017 12h38

Criado no subúrbio carioca de Cavalcante, Carlinhos de Jesus deu seus primeiros passos no samba ainda criança, desfilando pela Em Cima da Hora, tradicional escola de seu bairro que já brilhou no Grupo Especial com sambas como “Os Sertões”. Porém, foi na Mangueira, a partir de 1998, que o dançarino e coreógrafo marcou seu nome na história do Carnaval. Com comissões de frente criativas e arrebatadoras, ajudou a modificar o perfil do quesito, fazendo com que os cortejos ganhassem um show de abertura. Depois de deixar a verde e rosa após o Carnaval 2015 -- e de breves passagens pela Vila Isabel e Beija-Flor -- Carlinhos está de volta, comandando a comissão de frente da União da Ilha do Governador. “A União da Ilha é a segunda escola de todo carioca, e todos a conhecem pela leveza e alegria. É isso que levarei para a avenida”, promete.

Carlinhos de Jesus não tinha a intenção de trabalhar em nenhuma agremiação tão cedo. Apresentador de um programa de rádio, dono de uma das mais importantes casas de show da Lapa e com agenda de espetáculos e workshops em vários países, o coreógrafo tinha outro planejamento, mas foi tentado pelo convite da União da Ilha. “O Carnaval é um bichinho que não nos dá paz, é uma boa cachaça. A Ilha me convidou e eu tive que repensar. Adoro a Ilha, já morei no bairro e ela é uma das poucas escolas em que eu nunca desfilei. A única condição que dei foi que pudesse levar toda a minha equipe junto comigo”, conta Carlinhos. Com uma trajetória construída na Mangueira, o dançarino encara com tranquilidade o desafio de trabalhar em uma adversária. Tanto que veste a camisa da escola e evita até pisar na quadra da verde e rosa. “Todo mundo sabe que sou mangueirense. Mas, se hoje você me chamar pra ir na Mangueira, eu não vou. Não tenho problema nenhum com ninguém da escola, mas não acho legal pelo fato de eu estar defendendo outra bandeira. Vou lá fazer o quê? Hoje sou Ilha. Boto calça vermelha, camisa azul-rei, e vou pra quadra da União. E vou me dedicar com o mesmo afinco”.



Com um estilo artístico que chega a se confundir com a identidade mangueirense, Carlinhos de Jesus explica como vai se apropriar do DNA da tricolor insulana na coreografia de abertura do enredo “Nzara Ndembu, Glória ao Senhor Tempo”. “Eu acabei criando um estilo na Mangueira. Mas, quando chego a um ambiente, eu me adapto rapidamente. E hoje me sinto completamente integrado à União da Ilha e vou casar suas características à minha linha de trabalho. Vou trazer uma comissão de frente irreverente, com a cara da Ilha. É uma escola leve, comunicativa e, por isso, não posso vir com uma alegoria enorme, óbvia, que vai esconder alguma coisa”.

A comissão de frente, até meados dos anos 80, era um dos segmentos mais tradicionais das escolas de samba, em que desfilavam, namaioria das vezes, os integrantes da velha guarda. Ao longo da década de 90, o quesito passou por várias transformações, incorporando coreografias e adereços até se transformar em uma performance à parte nos desfiles – processo que atingiu o auge na última década após inovações trazidas pela Unidos da Tijuca. Hoje, Carlinhos de Jesus acredita que as comissões precisam deixar a pirotecnia um pouco de lado, além de ter critérios de julgamento mais bem-definidos. “Os jurados não consideram mais um bom trabalho coreográfico e só se importam com efeitos especiais. Eles procuram impacto. E tem impacto maior do que uma coreografia bela, ousada, com um lindo figurino? Para que alegorias imensas, que muitas vezes não permitem ver a comissão direito e impedem a visão do início da escola? O desfile é um espetáculo? É. Mas tem muita coisa que a gente vê em Las Vegas”, afirma.

De passista mirim a ídolo do Carnaval

Carlinhos de Jesus iniciou sua carreira na Em Cima da Hora, escola que atualmente está no Grupo B (equivalente à terceira divisão do Carnaval carioca). Desde criança, empolgava-se com os sambas que ouvia de casa, que ficava próxima à quadra. Aos dez anos de idade, seu pai, que já havia presidido a escola, permitiu que ele desfilasse como passista. “Eu me senti um verdadeiro homem, me apaixonei por todas as passistas (risos). A Em Cima da Hora foi fundamental para a minha formação como sambista e pessoa”. Pela tradicional escola de Cavalcante, Carlinhos ganhou o prêmio de melhor passista do Carnaval de 1985.

Humberto/AgNews
O coreógrafo na Sapucaí, no comando do desfile da Mangueira, em 2015 Imagem: Humberto/AgNews
Simpatizante da Portela, Carlinhos se aproximou da Mangueira por conta de sua paixão por Cartola. Por intermédio do jornalista Sérgio Cabral, foi apresentado ao compositor mangueirense e passou a frequentar a escola. Nos anos 1990, estreou como coreógrafo na comissão de frente da Unidos da Tijuca. Após três anos, desistiu da função. Decidiu que seria apenas folião, até que recebeu um chamado da Mangueira. “Eu pensava que eles iriam me chamar para sair de passista, mas eles queriam que eu fizesse a comissão de frente para o enredo sobre Chico Buarque (1998). Eu disse que não queria, mas comecei a dar várias sugestões. O presidente Elmo (José dos Santos) me pediu para pensar uns dias e, ao chegar em casa, minha mulher me convenceu a aceitar”.

O sucesso foi imediato. A comissão de frente com 15 malandros marcou a história do Carnaval. A avenida foi seduzida pela dança sincronizada e, principalmente, pela encenação de briga protagonizada pelos dançarinos. “Pouca gente da escola sabia e, quando começou a encenação, os componentes ficaram desesperados. Os seguranças da avenida vieram ver o que acontecia e a gente correu para dizer que era tudo teatro”, lembra, às risadas.

O trabalho do Carnaval de 1998 junta-se ao do ano seguinte na memória afetiva de Carlinhos como os seus preferidos. Para o Carnaval de 1999, a Mangueira trouxe o enredo “O século do samba” e, na comissão de frente, os integrantes vieram caracterizados como 15 grandes sambistas, todos falecidos. “Foi um trabalho primoroso do (maquiador) Vavá Torres. Nunca vou me esquecer da Dona Zica, abraçando e beijando o meu filho, que fazia o papel do Cartola. A Lígia Santos, filha de Donga (autor do primeiro samba), queria invadir a apresentação da comissão em frente aos jurados para pedir bênção ao pai”, relata. A Mangueira ficou em sétimo lugar e não conseguiu uma vaga no Desfile das Campeãs. Porém, a comissão foi convidada a participar do evento. Carlinhos se negou: “Eu disse que sem a escola, não fazia sentido ter a comissão. Soube depois que, por causa disso, eu conquistei o amor dos mangueirenses de uma vez.”

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