São Paulo

Igreja abençoa enredo sobre Nossa Senhora e quer evangelizar no Carnaval

Jussara Soares

Colaboração para o UOL

31/01/2017 11h45

Quando a Unidos de Vila Maria entrar no Anhembi na sexta-feira, 24 de fevereiro, exaltando os 300 de Nossa Senhora Aparecida, um marco se estabelecerá. Pela primeira vez, uma escola de samba no Brasil vai desfilar não apenas com a bênção da Igreja Católica, mas também com o apoio histórico para toda pesquisa do enredo e até mesmo com a torcida dos religiosos pelo título. Uma comitiva de aproximadamente 300 pessoas, entre padres e funcionários do Santuário Nacional, se prepara para acompanhar de perto a homenagem à padroeira do Brasil.

Para a igreja, o Carnaval virou uma oportunidade de levar a palavra de Deus ao mundo. “Estamos vendo uma oportunidade de evangelização”, diz padre João Batista, reitor do Santuário Nacional, que deu todo o amparo bibliográfico para a agremiação desenvolver o enredo. A mudança de postura tem a ver com os ensinamentos de Papa Francisco de uma igreja menos reclusa e mais próxima do povo.

O diálogo entre a festa profana e o sagrado é inédito, e pode encerrar uma história de embates. O mais famoso deles ocorreu em 1989, quando a Igreja Católica proibiu o carnavalesco Joãosinho Trinta, da carioca Beija-Flor, de colocar o Cristo Redentor estilizado como mendigo na Sapucaí no enredo “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”.  O gênio da avenida, então, levou a alegoria coberta por sacos plásticos pretos. A Beija-Flor perdeu o título para a Imperatriz Leopoldinense naquele ano, mas fez a história.

Flavio Moraes/UOL
Imagem de Nossa Senhora em destaque na quadra Imagem: Flavio Moraes/UOL
Desde então, carnavalescos passaram a evitar a divulgação antecipada de qualquer imagem ou símbolo religioso que pudesse ter a interferência da Igreja antes da escola ir para a avenida.  O próprio carnavalesco Sidnei França, que assina o desfile de Nossa Senhora Aparecida na Vila Maria, chegou a ser notificado por que usou a imagem de ostensório em um costeiro de uma fantasia da Mocidade Alegre, em 2010.  “É uma quebra de paradigma. Com a aproximação com a Vila Maria, a Igreja passou a entender o processo de pesquisa e o respeito ao espectador”, diz França.

“Na verdade, sempre existiu um preconceito dos dois lados. Um acha que o Carnaval é o lugar do pecado, e o outro acha que a igreja é muito puritana”, analisa o padre João Batista.

Para receber a bênção, a Vila Maria também se comprometeu em seguir algumas regras, como não levar a cópia fiel da imagem para o desfile e não fazer menção ao sincretismo religioso. Por exemplo, nas religiões afro-brasileiras, a padroeira é Oxum, mas essa relação não poderá ser mostrada. Não poderão ainda fazer qualquer exaltação que não for à santa, seja ela política ou esportiva. Exemplo: “Vai, Corinthians” ou “Fora, Temer”.

A igreja pediu ainda que não fossem mencionados os atentados à santa. Em 1978, um jovem protestante de 19 anos, durante uma missa na basílica, a agrediu e a quebrou em mais de 200 pedaços. Outra agressão que não será citada é a do pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que chutou a imagem durante um programa de televisão, em 1995. “Em vez disso, vamos falar dos restauradores, que reconstruíram a imagem original”, explica Marcelo Müller, professor de literatura e diretor de Carnaval da Vila Maria, responsável pela pesquisa do enredo.

Cláusula contra nudez

Outra recomendação da igreja foi que nudez e erotização fossem evitadas.  Para garantir que nada fugisse do combinado, o presidente da escola Adilson José de Souza pediu que todas as musas assinassem um termo de compromisso garantindo que não fariam alterações em suas fantasias. Ele afirma que a cláusula não tem a ver com o incidente ocorrido com a Unidos do Peruche em 2016, quando a modelo Ju Isen, proibida de desfilar com tapa-sexo com o rosto da ex-presidente Dilma Roussef, resolveu tirar a fantasia bem-comportada no meio do desfile. “Todas desfilam há muito tempo conosco e estão aceitando bem essa condição. Pensamos em quem vai confeccionar a fantasia”, diz. 

Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo, o padre Tarcísio Marques Mesquista, que também é pároco da Igreja Nossa Senhora do Bom Parto, no Tatuapé, recebeu de Dom Odilo a missão de acompanhar de perto todo o desenvolvimento do enredo. De acordo com ele, as regras têm o intuito de respeitar a fé das pessoas. 

Todos os desenhos de fantasias e alegorias são aprovados tanto pela Arquidiocese de São Paulo quanto pelo Santuário Nacional. As interferências foram poucas.  “Fizemos poucas observações. Em algumas fantasias havia símbolos excessivos, muito terço, muita cruz. Pedimos para não exagerar nisso”, diz padre Tarcísio.

Outro “pitaco” foi no samba-enredo. O verso original da letra campeã dizia: “É lindo ver o povo te adorando”.  Os religiosos pediram para alterar para “venerando”. “Para nós, católicos, adorar é somente Deus. Todas as demais coisas sagradas, como santos e símbolos religiosos, nós veneramos”, explica o padre, que elogia a canção que será apresentada na avenida. “É um samba lindíssimo e a letra pode ser cantada na igreja, como acontece com Romaria e Nossa Senhora, de Roberto Carlos”, compara.

Procissão na avenida

No Anhembi, o desfile da Vila Maria está sendo preparado sob medida para emocionar. O presidente da escola, Adilson José de Souza, acredita em predestinação da escola para levar o tema ao Carnaval. “Somos uma escola muito religiosa, colonizados por portugueses. Acredito até que fomos escolhidos porque senão não teríamos condições de levar isso adiante”, diz o dirigente.

Flavio Moraes/UOL
A Vila Maria virá sem rainha de bateria, sublinhando a importância da santa. Dani Bolina é a madrinha Imagem: Flavio Moraes/UOL
Uma prova da força de Nossa Senhora de Aparecida, exemplifica o presidente, foi na escolha da rainha de bateria. “Não conseguíamos escolher ninguém, quando nos demos conta que nesse enredo a única rainha é a nossa homenageada e, por isso, não teremos uma à frente da bateria”, explica Souza. A estrela maior à frente dos ritmistas será a madrinha Dani Bolina, que não vê problema em estar em segundo plano. “A protagonista é Nossa Senhora. Somos todos coadjuvantes”, diz a musa.

A religiosidade da escola impressionou os padres. “Na sala da diretoria, tem mais santos que na minha casa”, observou padre Tarcísio. “Descobri dentro da escola pessoas que participam da igreja ativamente, com espiritualidade fortalecida. Se havia algum preconceito meu, caiu ali. São pessoas que amam tanto Deus quanto eu”, diz padre João Batista, reitor do Santuário Nacional.

O desfile da Vila Maria será dividido em seis partes e poderá ser comparado a uma procissão. De acordo com o carnavalesco Sidnei França, o enredo tem um forte conteúdo histórico e começa com três pescadores lançando a rede no Rio Paraíba do Sul, na cidade de Guarantiguetá, onde a imagem foi encontrada.  Em seguida, será mostrada como a santa se propagou em todo país, por meio dos bandeirantes e dos tropeiros que a levavam nas viagens.

A imagem ganhou ainda mais devotos quando princesa Isabel, com dificuldade para engravidar, fez uma promessa por um filho e ofertou um manto à santa. E prometeu que se fosse atendida daria a coroa. Com a graça alcançada, Nossa Senhora foi coroada.

Os milagres da santa também serão retratados. “É um setor intimista, que mostra a simplicidade, que a fé não ostenta”, pontua Sidnei França. O desfile ainda vai passear pelas canções, cinema, televisão e mostrar como a imagem está presente na identidade do povo brasileiro.

Escola e igreja sabem que as críticas surgirão, mas acreditam no poder de emocionar do espetáculo. “Na internet, já há muitas críticas, mas vamos emocionar, educar e evangelizar”, diz o Marcelo Müller, diretor de Carnaval, lembrando que há 15 anos a escola faz uma romaria à Aparecida para apresentar o enredo.
“Acredito que será um Carnaval vitorioso, de integração, cultura e alegria. E ainda poderemos mostrar que religiosos podem ser normais, sem intolerância, exagero e exclusões”, acredita Padre Tarcísio.

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