Blocos de rua

Vale tudo? Marchinhas politicamente incorretas geram debate entre blocos

Marcelo Piu/UOL
Foliões no bloco Céu Na Terra, no Rio, que pretende manter o repertório intacto para o Carnaval, com as marchinhas "incorretas" Imagem: Marcelo Piu/UOL

Giselle de Almeida

Do UOL, no Rio

01/02/2017 16h06

Tocar ou não tocar, eis a questão. A menos de um mês da folia, algumas marchinhas clássicas, com versos considerados preconceituosos, foram parar na berlinda em alguns blocos de Carnaval, como A Espetacular Charanga do França, em São Paulo, que cortou "O Teu Cabelo Não Nega", por conta de frases como 'Mas como a cor não pega, mulata / Mulata eu quero teu amor".

Segundo o músico Thiago França, criador do bloco, a decisão de tirar a música do repertório veio depois de alguns anos de questionamento a respeito do assunto. 

"É uma afirmação racista. Deixar essa música de fora não deixa a festa menos animada e a gente consegue fazer um baile em que todo mundo se diverte numa boa. Sou responsável por 50 músicos, 20 pessoas da produção e cerca de 10 mil pessoas que vão com a gente para a rua. Tenho essa preocupação de não ofender quem está ali. A sátira deve existir com quem é opressor, não com quem é oprimido. Por outro lado, não quero insinuar que quem toca é racista. Cada um sabe de si. Essa decisão faz sentido para mim", afirma ele, que afirma não haver consenso, por exemplo, sobre "Cabeleira do Zezé", que ele próprio considera ter "um viés de brincadeira, de sacanagem".

Thiago de Souza, do grupo Marcheiros, que já cantou sobre o "Japonês da Federal" no Carnaval passado, este ano faz alusão à polêmica com "Minha Última Marchinha (a marchinha do fim das marchinhas)", com os versos "Mamãe eu não quero mais nada / Devolveram o coração do jacaré / As águas que iam rolar secaram / E até cortaram a cabeleira do Zezé".

RAFAEL ARBEX/ESTADÃO CONTEÚDO
Casal curte Carnaval de 2016 na Charanga do França, na zona oeste de São Paulo, torcendo pela tolerância entre Uber e táxi Imagem: RAFAEL ARBEX/ESTADÃO CONTEÚDO
"A música não precisa ser crucificada, mas talvez seja incompatível com os dias de hoje. Mas se você proibir, quem tocar vai ser implicado nas leis de racismo por apologia? Os efeitos disso são enormes. O debate é válido. Quem somos nós para dizer como achamos que o outro deve ou não sentir", diz.

Grupos ouvidos pelo UOL, no entanto, como os cariocas Céu na Terra e o Mulheres Rodadas, fogem da polêmica e garantem que não vão mexer no setlist por causa da discussão, que já virou alvo de críticas no tribunal da internet. Segundo a reportagem apurou, uma confusão durante um desfile de pré-Carnaval no Rio, em que um grupo de mulheres ritmistas teria se ofendido com algumas músicas tocadas na ocasião, motivou o auê. 

Envolvido na polêmica mesmo não tendo marchinhas em seu repertório, o Mulheres Rodadas não pretende abrir mão de "Tropicália", de Caetano Veloso - "enquadrada" por apresentar o termo "mulata". Renata Rodrigues, uma das líderes do coletivo, é a favor de discutir o repertório se houver reação adversa, mas não da patrulha.

"O debate é positivo, a festa do Carnaval não é igual para todo mundo. Existem grupos que sofrem racismo e assédio dentro do Carnaval e questionar as músicas que são tocadas faz parte desse processo de tomada de consciência. Estamos atentas a esse debate", afirma Renata.

Autor de hits da folia como "Maria Sapatão" e "Cabeleira do Zezé", o compositor João Roberto Kelly diz que não deu importância à discussão, que considera um exagero. 

"Os blocos evidentemente vão tocar. Isso é uma bobagem. Eu não tenho nada contra e respeito todo mundo que possa criticar, minha vida é pautada por respeitar todo mundo. Mas são músicas com mais de 50 anos, consagradas pelo povo. Ninguém fez nada com intenção de ofender. Carnaval é uma grande brincadeira, a gente se fantasia de mulher, goza do careca, do barrigudo... Dentro desse contexto nada pode ser ofensivo", defende ele, que, por sua vez, critica letras com palavrões e incitação a drogas e violência.

Jean Beyssac, um dos coordenadores do tradicional Céu na Terra, também minimiza o assunto. 

"Nossa orientação é se manter neutro. Somos um coletivo e prezamos pela pluralidade no Carnaval. Nem todo mundo precisa pensar igual. 'O Teu Cabelo Não Nega', por exemplo, é datada. A gente tem que olhar para o contexto, tem que entender como ela foi feita. Hoje ela tem uma importância por estar trazendo essa discussão. Não quer dizer que a gente deva rechaçar. A gente entende a importância de debater o preconceito racial, o machismo e tudo mais, mas Carnaval não é o lugar do politicamente correto. Não é ter um olhar permissivo, mas contemporizar", diz.

Já Vitor Velloso, da Orquestra Royal (da marchinha "Pinto por Cima", que ironiza o prefeito de São Paulo, João Doria), afirma que o grupo já havia deixado de tocar algumas das marchinhas criticadas de forma natural. E faz uma reflexão sobre o tema.

"A gente toca várias consagradas e no ano passado, nos últimos shows, paramos de tocar algumas. Não por polêmica, mas por sentir que estavam fora do tempo. Em vez desse discurso de que o mundo está chato, precisamos ter criatividade. Se alguém se ofende hoje é porque a gente evolui como sociedade, acho natural. Cadê as marchinhas que têm que aparecer, falando da diversidade? Esse é o nosso desafio", analisa.

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