Blocos de rua

Japonês viaja de Tóquio para desfilar como ritmista no Monobloco em SP

Jussara Soares

Colaboração para o UOL, em São Paulo

10/02/2017 04h00

Os mais de 18 mil quilômetros entre Tóquio e São Paulo provavelmente são a maior distância que uma pessoa percorrerá, neste ano, para curtir o Carnaval de rua na capital paulista.  O dono da façanha é o músico Isao Cato, de 34 anos. Após 24 horas de voo, ele desembarcou na cidade apenas para ensaiar na oficina de percussão do Monobloco, que acontece às quartas-feiras no Estúdio, em Pinheiros, e participar do desfile oficial no sábado, 19 de fevereiro, a partir das 10h, no Ibirapuera.

Cato chegou a São Paulo no dia 5 de janeiro e já tem data para voltar para casa, 8 de março, após o Carnaval. É que o músico tem outro compromisso por lá: organizar e ensaiar o JAPA Bloco, grupo fundando por ele em 2016 para levar um pouco da folia paulistana para o outro lado do mundo.

A paixão dele pelos ritmos brasileiros é antiga. Entre 2013 e 2016, entre idas e vindas do Japão, ele morou em São Paulo, onde estudou no conservatório Souza Lima. Mas foi em 2015, quando estava no Japão, que Cato mergulhou na percussão de bloco de rua. Na época, o Monobloco fez uma turnê pelo país oriental e, após um workshop, organizou um desfile com japoneses em setembro daquele ano.

Simon Plestenjak/UOL
Em temporada em São Paulo, Isao Cato ensaia com a bateria do Monobloco, para o desfile de fevereiro Imagem: Simon Plestenjak/UOL
Cato voltou ao Brasil no final de 2015 e entrou para a oficina do Monobloco em São Paulo para tocar surdo. Em 2016, ele estava no desfile de estreia do grupo na cidade, mas retornou ao Japão logo após a folia. “Sou um estudioso dos ritmos brasileiros, mas eu amo a melodia e a família do Monobloco. É por isso que estou aqui”, diz o ritmista.

A dedicação e a musicalidade de Cato despertam a admiração no bloco.  Ele possui uma deficiência visual, que limita sua visão periférica e a curta distância, o que poderia atrapalhá-lo a seguir os comandos dos mestres. Para andar, precisa de amparo de uma bengala e da mulher Saori Cato, de 41 anos, que o acompanha na viagem. Para tocar, no entanto, ele se garante e é só alegria.

“Ele é muito musical. Como ficou um tempo sem ensaiar, sugeri que ficasse na turma de iniciantes, mas ele não se deu por satisfeito. Pediu um tempo para estudar, fez um teste e vai desfilar com a turma do módulo avançado”, conta o mestre Mário Moura.

A emoção de se apresentar para o público é o que faz Isao Cato driblar qualquer obstáculo. “Quando estou tocando no Monobloco, a energia é muito grande, são muitas pessoas assistindo e dá para sentir o calor delas naquele momento.”

Tipo exportação

Rodrigo Paiva/UOL
O Monobloco, tradicional no Carnaval do Rio, estreou em São Paulo em 2016 Imagem: Rodrigo Paiva/UOL
A participação de Isao Cato no Monobloco o inspirou a criar, em 2016, o JAPA Bloco, em Tóquio. Se em São Paulo ele é o aluno, lá ele é o mestre de 15 ritmistas japoneses que tocam surdo, repique, caixa, tamborim e chocalho. “Eu queria levar a cultura brasileira para o Japão. Gosto da música e das pessoas daqui”, explica.

No setlist há sambas como “Explode Coração” (Salgueiro, 1993), “O Amanhã” (União da Ilha, 1978) e Samba de Arerê (Arlindo Cruz/Xande de Pilares/Mauro Jr), que, não por coincidência, fazem parte do repertório do Monobloco. O intérprete é um japonês que há 40 anos se dedica a cantar músicas brasileiras.

Em seu primeiro ano de atividade, o JAPA Bloco fez três apresentações. A maior delas, em frente ao Consulado do Brasil em Tóquio, reuniu 3 mil pessoas. “Tinha alguns brasileiros, mas a maioria era de japoneses”, diz Cato, que conta com a torcida da família e dos amigos para que seu bloco se torne um sucesso. “Não sei se o JAPA Bloco será tão grande como o Monobloco, mas é um sonho fazer isso no Japão”, diz o músico.

Inspiração

Simon Plestenjak/UOL
O japonês Koji Ishimaru, de 46 anos, participa da oficina do Monobloco, em São Paulo Imagem: Simon Plestenjak/UOL
Foi graças a Isao Cato que outro japonês passou a fazer oficina do Monobloco. Gerente de produtos da Amazon, Koji Ishimaru, de 46 anos, mora em São Paulo há três anos e conheceu Cato nas atividades sociais da comunidade nipônica. “Ele que me incentivou a participar. Nunca imaginei que seria possível eu tocar em uma bateria”, conta Ishimaru, que já tinha curtido o Carnaval nas arquibancadas do Anhembi e desfilando pela Águia de Ouro, em São Paulo, e pela Mangueira, no Rio.

“Mas tocar é totalmente diferente. Você se sente artista se apresentando com toda a bateria e os músicos”, diz o gerente, que voltará a morar em Tóquio em abril, mas não pretende abandonar a batucada. “Eu vou tocar no JAPA Bloco. Já combinei com o Isao”, avisa.

“É uma alegria receber pessoas de outros países e culturas dispostas a conhecer e a valorizar a nossa música”, diz o organizador da oficina do Monobloco em São Paulo, Guilherme Brandão, da produtora Pipoca. Para ele, as aulas nas cidade têm um potencial para receber cada vez mais alunos estrangeiros. “São pessoas que vêm a trabalho e ficam bastante tempo na cidade, por isso têm a possibilidade de seguir com as aulas e fazer parte desse movimento.”

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