Rio de Janeiro

Vaidade que não tem preço: a luta dos destaques para brilhar na Sapucaí

Arquivo Pessoal
Carlos Reis, principal destaque da Portela, no desfile de 2012 Imagem: Arquivo Pessoal

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

13/02/2017 17h12

Poucos segmentos são tão ligados à tradição do desfile das escolas de samba quanto os destaques. Desde o final dos anos 1940, época em que os carros alegóricos contavam com estruturas minúsculas, as agremiações já levavam para a avenida fantasias de alto luxo com personagens importantes de seus enredos. Com o crescimento do espetáculo, os destaques foram para cima dos carros alegóricos e, em muitos momentos, acabam ofuscados pelos efeitos especiais bolados ou pela beleza de mulheres e homens seminus. Mesmo assim, ainda há pessoas que se dispõem a gastar altas quantias pelo prazer e pela vaidade de brilhar na Sapucaí. “Eu sou destaque porque gosto de aparecer, não tenho problema em admitir isso. Se a TV me mostrar, fico feliz”, confessa João Helder, que sairá nos carros abre-alas da São Clemente e da Unidos da Tijuca.

Arquivo Pessoal
"Eu sou destaque porque gosto de aparecer", diz João Helder, que sairá em dois abre-alas em 2017 Imagem: Arquivo Pessoal
João Helder leva a sua fantasia em duas viagens no próprio carro e chega à concentração horas antes do desfile para prender o resplendor (parte traseira da roupa) no alto do carro. “Chegamos cedo para não termos surpresas. Mesmo assim, já tive momentos de desespero na concentração. Uma vez, a alegoria precisava passar por baixo do viaduto e eu tive que me deitar para a fantasia passar. Quando fui me levantar, não conseguia. A escola precisou parar e o carro ficou exatamente debaixo do viaduto por alguns minutos. Foi um sufoco, mas sempre vale a pena”, afirma João Helder.

E toda vaidade tem um preço. Os destaques não gostam de divulgar valores, mas uma fantasia de luxo em um carro alegórico não sai por menos de R$ 50 mil. Completamente independentes em relação às escolas de samba, estes componentes custeiam de seus bolsos o valor integral e ainda precisam montar uma estratégia de guerra para levar suas fantasias para a avenida. Desfilam nos postos mais altos dos carros, em roupas imensas, em pleno verão carioca. Tudo em busca do aplauso nos minutos em que estiverem na avenida. “Tudo vale a pena. Na avenida, sou um folião como qualquer outro. Canto, vibro com a minha escola. Depois, sinto dores pelo corpo todo, mas nada que um analgésico não resolva”, conta Carlos Reis, destaque principal da Portela.

Os destaques enfrentam uma maratona para brilhar na Sapucaí. Além do preparo, do transporte e da montagem da fantasia na avenida, eles precisam de uma equipe de apoio. Recebem das escolas camisas para serem usadas pelas pessoas que os ajudam a se vestir e desfilam ao lado do carro alegórico, prontos para qualquer eventualidade. Carlos Reis tem à disposição também duas vans, contratadas pela escola – uma só para levar a roupa.

 

Numerosos nos anos 1980, destaques hoje são poucos

Tanto sacrifício muitas vezes não é reconhecido pelas escolas de samba. Essa é a opinião do jornalista João Gustavo Melo, que recentemente defendeu dissertação de mestrado sobre os destaques no Instituto de Artes da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). “As escolas de samba hoje valorizam pouco os destaques, tanto que eles estão rareando. Nos anos 1980 eram 40, 50 destaques por escola. Hoje é um por carro, quando tem. Alguns carnavalescos não dão a importância necessária e fazem carros até sem eles. E a função do destaque é primordial. Ele é um personagem vivo do carro, integrado à sua linguagem visual”, afirma João Gustavo, que, em seu trabalho, mostra que a figura do destaque faz parte da visualidade dos grandes espetáculos e dos cortejos religiosos, com seus santos nos pálios.

Divulgação
Clóvis Bornay, que iniciou sua carreira nos bailes de gala e depois tornou-se carnavalesco Imagem: Divulgação
Segundo registros históricos, Olegária dos Anjos, em 1948, foi o primeiro destaque do Carnaval carioca, desfilando pelo Império Serrano. Mas com Isabel Valença, nos anos 1960, estas figuras atingiram o ápice de sua popularidade. Depois de arrebatar a avenida fantasiada como Chica da Silva, Isabel rompeu um paradigma importante ao vencer o tradicional concurso de fantasias do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1964. “Esse foi um momento fundamental para a história do destaque no Carnaval. Até então, escolas de samba e os concursos eram mundos que não dialogavam.

A presença de Isabel Valença nos salões inspirou vários concorrentes desses eventos a irem para as escolas de samba. Logo no ano seguinte, Evandro Castro Lima foi para o Império Serrano e Clóvis Bornay pouco depois seria carnavalesco”, conta João Gustavo Melo.

Segundo o jornalista, o período de auge dos destaques durou até o final dos anos 1990. “O enfraquecimento dos desfiles de fantasia, que deixaram de ter transmissão pela TV, dificultaram muito a renovação nas escolas de samba. Ao mesmo tempo, os carnavalescos passaram a optar por mulheres seminuas”, afirma Gustavo.

Histórias de amor ao Carnaval

Foram a beleza das escolas e as revistas com fotos dos desfiles de fantasias que seduziram a mente de João Helder. Nascido na pequena cidade mineira de Pedralva, na infância e adolescência ajudava a família a colocar um bloco na rua. Após se formar em medicina, foi para o Rio de Janeiro para fazer uma especialização. Quase 30 anos depois, o hoje cirurgião plástico é um dos maiores destaques do Carnaval carioca. E tudo começou graças a um colega que o levou para o barracão da Imperatriz Leopoldinense. “Sempre tive muita curiosidade com os bastidores. Trabalhei por um mês no barracão e fiz amizade com a [carnavalesca] Rosa Magalhães. Pedi a ela para sair em um carro alegórico e ela permitiu. Estreei em 1992 e, desde então, a segui em todas as escolas pelas quais ela passou”, conta.

Ao longo desses 25 anos, João desfilou na União da Ilha, na Mangueira, na Vila Isabel e agora está na São Clemente. Em paralelo, conquistou o lugar de destaque principal do carro abre-alas da Unidos da Tijuca e estará no terceiro carro do Salgueiro. Para brilhar na avenida, João Helder montou um pequeno ateliê no bairro da Tijuca, onde confecciona suas fantasias. “Eu faço a maior parte da roupa, meu prazer não é só o desfile – ele é a conclusão de um processo. O gostoso é fazer a fantasia, procurar materiais alternativos e testar a melhor forma”. A roupa da São Clemente está praticamente pronta e foi iniciada em julho. A do Salgueiro, em outubro.

O Salgueiro, por sinal, contará em seu desfile de 2017 com um destaque que romperá um longo tabu. O paulista Maurício Pina será a primeira pessoa sem qualquer relação de parentesco com dirigentes da escola a desfilar como destaque principal do carro abre-alas. O convite veio da própria presidente da vermelho e branco, Regina Celi Fernandes. “Ela me disse que como o Salgueiro é uma escola diferente, merece um destaque diferenciado abrindo o seu desfile. E me convidou, o que muito me honra”, relata.

Arquivo Pessoal
Na avenida há 27 anos, Maurício Pina saiu interpretando uma barata em 2008, pela Viradouro Imagem: Arquivo Pessoal
O diferencial de Pina é sempre incorporar personagens nos carros alegóricos e nunca mostrar o rosto. Ao longo de 27 anos de desfiles, iniciados no Carnaval paulistano pela Unidos do Peruche, ele já vestiu fantasias bastante inusitadas. A de maior impacto, sem dúvida, foi a de barata, em um carro alegórico da Viradouro no Carnaval de 2008. “Eu procuro personagens incríveis e marcantes. E não mostro o rosto em nome da arte. Minha vaidade é mostrar o meu trabalho através dos personagens que crio”, explica.

No abre-alas do Salgueiro, Maurício Pina virá representando Caronte, o barqueiro do inferno da mitologia que também figura na “Divina Comédia” de Dante, que inspirou o enredo da escola. Além disso, ele será o destaque principal dos abre-alas da Mocidade Alegre e Rosas de Ouro, em São Paulo. O cabeleireiro e produtor de moda tem um ateliê em sua casa, onde, desde maio, trabalhou na confecção das três roupas, que já estão prontas e tiveram detalhes divulgados por ele mesmo em redes sociais. O mistério surge apenas quando é questionado sobre os valores gastos. “É um hobby que cabe no meu bolso. Não deixo de fazer as coisas por causa de uma fantasia. E meu gasto não é muito alto. Nestes 30 anos já acumulei um vasto material em casa. Eu gasto o suficiente para fazer minha arte. E também gosto de trabalhar com materiais alternativos, como papel e plástico, que sempre reciclo”.

Diferentemente de Pina, que desfila em várias escolas, poucos destaques são tão identificados com uma escola de samba quanto Carlos Reis. Sua relação de amor com a Portela começou em 1983, quando, acompanhando um amigo na avenida, conheceu Clara Nunes, que o convidou a desfilar na escola no ano seguinte. Porém, a cantora morreu poucos meses depois daquele Carnaval e Carlos resolveu desfilar em homenagem a ela. Nunca mais deixou de desfilar pela azul e branca. Em 1991 tornou-se destaque pela primeira vez e há mais de 20 anos é o destaque principal da escola. “Sou completamente apaixonado pela Portela. Todos me tratam muito bem, me sinto muito amado. Quando não estiver mais em condições de sair como destaque, vou para a velha guarda. Seria lindo desfilar de terno e chapéu, me arrepio só de pensar”, sonha o destaque, que neste Carnaval desfilará com uma roupa conectada ao carro abre-alas, em mais uma surpresa preparada pelo carnavalesco Paulo Barros.

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Carlos Reis, em 2014, pela Portela. Ele desfila na escola desde 1984 por causa de um convite de Clara Nunes Imagem: Arquivo Pessoal

Carlos Reis adquiriu um status raro entre os destaques. Por conta de sua identificação com a escola, ele participa de shows e dos principais eventos na quadra. Ele faz questão de pagar a fantasia do bolso e, após o desfile, doa materiais para a Filhos da Águia, escola mirim da Portela. “A escola tem que investir na comunidade, pagar a fantasia de quem não pode pagar. O destaque, para ter essa função, tem que ter condições de gastar. E, graças a Deus, eu posso.” Carlos Reis também não fala em valores: “O sonho não tem preço. Quando faço a fantasia, não vejo o saldo no banco, só a felicidade que o desfile proporciona. Mas posso assegurar que o gerente do banco nunca me ligou e nenhum cheque meu voltou até hoje”.

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