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Longe da concorrência de Rio e SP, Carnavais fora de época agitam sambistas

Reprodução/Instagram
A modelo Thalita Zampirolli no desfile da escola de samba Independente de Boa Vista, de Vitória, Espírito Santo, uma semana antes do Carnaval de 2016 Imagem: Reprodução/Instagram

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL

17/02/2017 22h24

Daqui a uma semana, os sambódromos de São Paulo e Rio de Janeiro receberão milhares de foliões e turistas para os desfiles das escolas de samba. Com a TV sintonizada nas duas prestigiadas praças, milhões de telespectadores se emocionarão e vibrarão com suas escolas. A força do evento nestas capitais, em certos casos, inviabiliza iniciativas semelhantes em outras cidades do país. Para sobreviver ao ‘massacre’, vários municípios transferiram suas festas para datas alternativas. O resultado: sucesso de público e uma nova opção para quem não se contenta com quatro dias de folia.

O roteiro de Carnavais fora de época tem início nesta sexta-feira (17) em Vitória, quando desfilam as oito escolas do Grupo A (equivalente ao Grupo de Acesso). As seis integrantes do Grupo Especial se apresentarão no sábado. Os capixabas marcam os desfiles para o fim de semana anterior ao Carnaval desde 1998. E o motivo é simples: evitar a concorrência com outras praças. “O Carnaval de Vitória era muito forte nos anos 1980. Porém, ficamos sem desfiles entre 1993 e 1997 e os sambistas se dispersaram, passando a assistir e desfilar em outras cidades. Quando surgiu o movimento para retomar as escolas, resolvemos fazer uma semana antes para que todos possam aproveitar os Carnavais do Rio, Salvador e São Paulo”, explica Armando Chafik, diretor de Carnaval da Lieses (Liga Espirito-Santense das Escolas de Samba).

Reprodução/Instagram
Em 2016, os desfiles de Vitória ocorreram nos primeiros dias de fevereiro, uma semana antes do Carnaval oficial. Na imagem, a destaque Thalita Zampirolli pronta para desfilar Imagem: Reprodução/Instagram
A mudança de datas fez o desfile de Vitória entrar no mapa do Carnaval brasileiro. Nos últimos anos, diversos destaques das escolas cariocas marcam presença no Sambão do Povo, nome do sambódromo local. No comando do barracão da bicampeã Mocidade Unida da Glória, está o carnavalesco Cid Carvalho, que já conquistou o Carnaval carioca pela Beija-Flor e já foi responsável por desfiles de escolas como Mangueira, Mocidade, Vila Isabel e Estácio de Sá. O samba da escola tem a assinatura de Dudu Nobre. A atriz Viviane Araújo, rainha de bateria do Salgueiro, é destaque de chão da Independentes de Boa Vista.

O desfile no Sambão do Povo será acompanhado por 30 mil pessoas nas duas noites, atraindo um público predominante capixaba, mas também formado por amantes de Carnaval de outras praças. “A gente aqui curte o Carnaval duas vezes. Não há coisa melhor”, diverte-se Chafik. Com boa cobertura da mídia -- com a transmissão de duas emissoras locais -- a Lieses consegue parcerias comerciais para bancar parte dos custos das escolas. Uma agremiação do Grupo Especial recebe cerca de R$ 200 mil da Prefeitura de Vitória e uma quantia semelhante por conta dos patrocinadores da Liga. Mesmo assim, as escolas de ponta precisam fazer eventos e fechar parcerias para bancar seus desfiles integralmente. “Uma escola que disputa campeonato gasta em torno de R$ 1 milhão para concluir seu Carnaval”, explica Chafik.

Nas últimas semanas, o clima dentro da comunidade carnavalesca foi de apreensão por conta da situação caótica da segurança pública na capital capixaba. Com o policiamento voltando ao normal, a data dos desfiles foi mantida. Mas, mesmo assim, os preparativos das escolas foram prejudicados, já que os trabalhadores não conseguiram chegar aos barracões e o comércio ficou fechado, impossibilitando a renovação dos estoques de material. Segundo Chafik, a volta da sensação de segurança garante a realização dos desfiles. “O único receio que temos é quanto ao transporte público, que ainda não está restabelecido totalmente. Mas creio que até o final de semana tudo estará normal”, diz o diretor.

A maior festa da fronteira

Distante 650 km de Porto Alegre, Uruguaiana tem um dos mais badalados Carnavais fora de época do país. Seus desfiles têm origem nos anos 1940, quando fuzileiros navais em serviço na fronteira com a Argentina, quase todos cariocas, formaram as primeiras escolas de samba. Com o passar dos anos, a tradição das escolas de samba se firmou e passou a conviver pacificamente com o tradicionalismo gaúcho. O melhor exemplo é César Passarinho, um dos maiores cantores da história da música gauchesca, que, no Carnaval, defendia os sambas-enredos de Os Rouxinóis, uma das mais tradicionais escolas da cidade e atual campeã. A mudança de data aconteceu em 2005 e se deveu a um problema com o Ministério Público, que proibiu ensaios das escolas por conta do barulho.

Reprodução/Facebook/Carnaval de Uruguaiana
Corte do Carnaval 2017 de Uruguaiana, onde os desfiles ocorrem quase um mês depois Imagem: Reprodução/Facebook/Carnaval de Uruguaiana

Ao iniciar seu mandato, o ex-prefeito Sanchotene Felice ajudou as agremiações a resolver o imbróglio. Porém, não havia tempo hábil para as escolas se prepararem para o Carnaval e o adiamento dos desfiles foi a solução. Com o tempo, Uruguaiana passou a atrair sambistas do Rio de Janeiro para se apresentar na fronteira. Nos últimos anos, marcaram presença nos desfiles da avenida Presidente Vargas intérpretes como Neguinho da Beija-Flor, Wantuir (Paraíso do Tuiuti), Leonardo Bessa (Salgueiro), Ciganerey (Mangueira), Ito Melodia (União da Ilha), Igor Sorriso (Vila Isabel) e Tinga (Unidos da Tijuca); mestres-salas como Raphael Rodrigues (Vila Isabel), Claudinho (Beija-Flor) Sidclei (Salgueiro) e Phelipe Lemos (União da Ilha); e porta-bandeiras como Selminha Sorriso (Beija-Flor), Marcella Alves (Salgueiro) e Rute Alves (Unidos da Tijuca).

Porém, Uruguaiana também se orgulha dos seus talentos. Além de baterias integralmente formadas por jovens da cidade, o Carnaval da Fronteira legou à folia carioca um de seus mais promissores carnavalescos. Severo Luzardo fez o caminho inverso, fazendo carreira no Rio de Janeiro. Após trabalhar em escolas de menor porte, como Arranco, Império da Tijuca e Vizinha Faladeira, foi o responsável pelo desfile do Império Serrano no ano passado. Em 2017, Severo, que também é figurinista de televisão e cinema, estreia como carnavalesco no Grupo Especial, fazendo a União da Ilha do Governador. E ele aponta o Carnaval de Uruguaiana com sua grande escola: “Aprendi tudo que sei de Carnaval em Uruguaiana. A cidade tem uma cultura carnavalesca fantástica, com muita mão-de-obra especializada e um povo apaixonado pela festa”. Mesmo tocando o barracão da Ilha, Severo não abandona a sua Rouxinóis, da qual ainda é carnavalesco e acompanha os preparativos pela internet.


Neste ano, os desfiles serão nos dias 16, 17 e 18 de março e, segundo o presidente da Comissão de Carnaval da Prefeitura de Uruguaiana, Carlos Do Canto, tudo está caminhando bem para a passagem das sete escolas do Grupo Especial, quatro do Grupo de Acesso e três do Segundo Grupo. “Mesmo com dificuldades, estamos tocando os preparativos. O Carnaval é muito importante para a economia da cidade”, destaca Do Canto. Segundo estudos da prefeitura, os desfiles injetam cerca de R$ 7 milhões em impostos na economia da cidade. A rede hoteleira fica lotada graças à chegada de milhares de turistas. O maior contingente é de argentinos, seguidos de uruguaios, chilenos e paraguaios. Muitos sambistas de Porto Alegre, das cidades vizinhas e até do Rio de Janeiro afluem à cidade.

Em Uruguaiana, os custos de construção da passarela e os cachês das escolas são inteiramente bancados pela venda de ingressos, que começa meses antes do Carnaval. Com isso, o desfile sai a custo zero para os cofres públicos. A passarela recebe 13 mil pessoas por noite e os ingressos custam entre R$ 20 e R$ 110 (arquibancada) e R$ 5.500 a R$ 14.850 (camarotes). As escolas recebem de R$ 180 mil (Grupo Especial) a R$ 30 mil (Segundo Grupo) para realizar os seus desfiles.

Porto Alegre: a estreante em meio a dificuldades

Itamar Aguiar/Agencia Freelancer
Destaque no desfile das escolas de samba 2016, no Complexo Cultural Porto Seco, em Porto Alegre Imagem: Itamar Aguiar/Agencia Freelancer
Com um dos desfiles de escolas de samba mais tradicionais do país, Porto Alegre fará, em 2017, pela primeira vez o seu Carnaval fora de época. Os desfiles dos três grupos acontecerão nos dias 23, 24 e 25 de março no Complexo Cultural do Porto Seco, localizado na zona norte da cidade. Segundo Érico Leoti, coordenador de Manifestações Populares da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, as escolas já tinham manifestado a intenção de fazer seus desfiles fora do período do Carnaval porque muitos gaúchos viajam para Rio e Bahia. “Vimos como uma tentativa de atrair mais interesse da população pelos desfiles”, explica Leoti.

Com a posse do prefeito Nelson Marchezan (PSDB), surgiu a notícia de que a Prefeitura de Porto Alegre não terá dinheiro para investir nos desfiles. O resultado foi o adiamento por mais duas semanas. “A prefeitura passa por um momento difícil, mas em momento algum se omitiu da responsabilidade. Uma comissão foi montada para viabilizar o projeto e o prefeito pessoalmente está ligando para os empresários em busca de patrocínios”, conta o coordenador. A pouco mais de um mês para os desfiles, os valores ainda não foram obtidos, mas o otimismo impera. Na terça-feira (14), o prefeito convocou uma entrevista coletiva e assegurou a realização dos desfiles, com a divulgação dos parceiros comerciais para a próxima semana. A transmissão em televisão para todo o país também está em negociação.

DONALDO HADLICH/FRAMEPHOTO
Passista da escola de samba Acadêmicos de Gravataí, de Porto Alegre, em desfile do Carnaval 2016 Imagem: DONALDO HADLICH/FRAMEPHOTO
Segundo Leoti, o valor necessário para a realização dos desfiles em Porto Alegre fica em R$ 3,5 milhões, dos quais R$ 1,5 milhão será investido na construção das estruturas provisórias da passarela e R$ 2 milhões serão rateados pelas 24 escolas dos três grupos. Para os próximos anos, a intenção é firmar ainda mais a parceria com a iniciativa privada. “Nosso plano de parcerias tem duração até 2022. A intenção é trazer empresas com identificação com a folia e garantir, através desses apoios, que o Carnaval de Porto Alegre seja autossuficiente nos próximos anos”, destaca Leoti, que garante que a mudança na data veio para ficar.

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