Blocos de rua

Marchinhas, apropriação: o que pensam foliões sobre o politicamente correto

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL

20/02/2017 04h00

Agarradinhos ao som de Tiago Abravanel, o casal Jean William e Felipe Mancz assiste, de pé no canteiro central da avenida Faria Lima, em São Paulo, ao trio elétrico do Bloco Gambiarra. Pouco antes, o cantor havia gritado ao microfone em favor da diversidade e contra o preconceito.

O público gay é grande no tórrido domingo paulistano. Jean e Felipe não se sentiriam pessoalmente ofendidos caso o bloco tocasse a clássica marchinha “Cabeleira do Zezé”. Mas preferem que isso não aconteça.

"Concordo em evitar marchinhas de teor preconceituoso. Por mais que eu não me incomode, elas incitam as pessoas a acharem que ser gay não é uma coisa normal", diz Felipe.

A questão de evitar ou não marchinhas antigas de teor preconceituoso ganhou atenção depois que alguns blocos de São Paulo e Rio de Janeiro decidiram eliminá-las de seus repertórios. Nas redes sociais, digladiaram-se quem era a favor da decisão e quem, dizendo-se com medo da onda do “politicamente correto”, temia sua influência até sobre o Carnaval.

No “Jornal da Cultura”, o filósofo Luiz Felipe Pondé disse que banir tais marchinhas era “coisa de quem queria aparecer”. Mas também afirmou respeitar a decisão de cada bloco sobre o tema.

“Não pode ser só estética”

Daniel Lisboa/UOL
A foliona Michelle Ramiro aguarda pelo desfile do Bloco Soviético, em São Paulo, fantasiada de "intervenção militar" Imagem: Daniel Lisboa/UOL
Mas não ficou só nisso. Outra discussão a ganhar força foi a da “apropriação cultural”. É válido ostentar símbolos de uma cultura que não é a sua, ou que você desconhece? A princípio, a pergunta cabe para uma fantasia de Carnaval. Então como fica?

“Eu não me incomodo que alguém use coisas relacionadas à cultura afro. Só acho que quem faz isso deveria conhecer de verdade essa cultura, vivenciar aquilo que ela quer representar. Não pode ser só uma questão estética”, diz Michelle Ramiro.

Negra, Michelle aguarda pelo desfile do Bloco Soviético fantasiada de “intervenção militar”. A indumentária consiste em trajes militares e um cartaz. “Vejo acontecer bastante essa questão da apropriação cultural. Mas entendo que as pessoas não fazem por mal. É ignorância mesmo”, ela diz.

O professor de história Wiliam Borges tem uma grande tatuagem da foice e do martelo em um dos braços. Ele está sem camisa, mas a parte de sua cueca que salta para fora de calça tem o vermelho que domina os arredores. Curiosamente, é sua primeira vez no Bloco Soviético. Wiliam acha que a discussão sobre apropriação cultural é válida, mas prefere focar na questão da disputa entre classes sociais. “Entendo o debate, mas acho que ele pode acabar criando guetos e desviando a atenção.”

Joselito fala

No sábado, o bloco 13 D+ se apresentou em uma praça do Bexiga, centro de São Paulo. E convidou para cantar o grupo cômico “Hermes e Renato”, que tem suas próprias, e famosas, marchinhas carnavalescas, algumas das quais com refrães como: “Desde os tempos mais primórdios, o caralho tá aí (tá aí! tá aí!). Arrombando as vaginas, apavorando as meninas (De quê, Fuinha?), de família (Mais que lindo!).” E também: “Bichinha pobre de carnaval, dentinho podre, mas alto astral.”

A presença dos humoristas não levou muita gente ao Bexiga, é verdade, mas quem lá esteve cantou os refrães em altos brados. “Cabeleireira do Zezé”, inclusive, tocou antes mesmo que o grupo subisse no trio. Responsável pelo 13 D+, o tatuador Marcelo Martinelli é enfático sobre as polêmicas.

“Como vou ter problema com essas marchinhas se sou preto e gordo”, diz ele, que também se considera “o heterossexual mais gay que existe”. “O preconceito está na desinformação, não no conhecimento. Na minha época, bulinar era enfiar o dedo no c* do cara. Hoje toca ‘Cabelereira do Zezé” e o cara se ofende.”

Ao mesmo tempo em que é assediado pelos fãs -- alguns eram crianças quando “Hermes e Renato” estava em seu auge nos anos 90 -- Adriano Silva diz qual é sua opinião sobre o assunto. Ele interpreta Joselito, o mais famoso personagem do grupo. Também conhecido como “o homem que não sabe brincar”, Joselito ficou famoso por protagonizar quadros que sintetizavam o humor nonsense, desbocado e escrachado de “Hermes e Renato”.

“Não me preocupo com essa questão do politicamente correto porque acho que a gente sempre teve bom senso, brincamos dentro de certos limites”, diz o comediante. Adriano não acredita que “Hermes e Renato” seria patrulhado caso surgisse hoje, e nem que o atual debate possa impedir que, num futuro próximo, suas marchinhas também sejam banidas.

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Lisandra Sarinho assiste com a família ao show de "Hermes e Renato", mas não gosta do humor Imagem: Daniel Lisboa/UOL
Influencia, sim

Enquanto os integrantes do “Hermes e Renato” seguem cantando seus hits no trio e atirando pacotes de camisinha para o público, a produtora Lisandra Sarinho tenta se equilibrar entre aquilo que pensa seu marido Guilherme e as necessidades da pequena Olivia, de um ano e sete meses. É que Lisandra, contra aquele tipo de marchinha, diz que só está lá por insistência do marido. Por ela, Olivia não escutaria aquele tipo de coisa.

“Pessoalmente, eu não gosto. As pessoas criticam, dizem que problematizo tudo, mas acho que essas músicas naturalizam preconceitos”, diz a produtora. “Hoje lembro que dançava ‘Na Boquinha da Garrafa’ quando era pequena e pergunto como minha mãe me deixava fazer aquilo”, afirma Lisandra. “Olha aí, você tem o quê, mil pessoas cantando uma coisa sem nem saber direito o que é”, ela diz olhando para o público ao lado do trio elétrico.

De índia para Cleópatra

Já no Bloco do Pasmado, que saiu ontem (19), houve quem pensasse duas vezes antes de sair de casa fantasiada de índia. “Eu queria fazer a releitura de uma fantasia que usei quando era pequena. Mas pensei bem e achei que não deveria vir ao bloco fantasiada de índia, entendi que poderia ser desrespeitoso”, diz Mariana Nunes.

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Mariana Nunes trocou a fantasia de índia por uma de Cleópatra, com receio de que pudesse ser desrespeitosa Imagem: Daniel Lisboa/UOL
Ela optou então pela fantasia de Cleópatra. “Acho que neste caso não tem problema porque se trata de uma personagem histórica”, explica Mariana. “Essa questão da apropriação cultural ainda é um pouco confusa. Acho que precisamos prestar atenção, tentar entender se algo que você faz ou veste pode ser ofensivo para os outros”.

O Bloco do Pasmado é um dos pioneiros da era da retomada do Carnaval de rua em São Paulo. Começou pequeno em 2003. Um de seus fundadores, Luiz Ferraz lembra que, na época, para fazer folia na rua era preciso acionar a Justiça e invocar direitos civis. Hoje, o Pasmado cresceu, tornou-se conhecido, e não toca marchinhas de teor considerado discutível. “Nós já não tocávamos porque não fazia parte do nosso repertório e vamos continuar assim. Agora, é uma decisão de cada bloco. Se o cara quer falar de certas coisas, o problema é dele.”
 

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